Mostrar mensagens com a etiqueta Pedrógão Grande. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pedrógão Grande. Mostrar todas as mensagens

domingo, 17 de junho de 2018

O fogo da minha infância















Para eles, as chamas serão sempre uma memória estrutural. 14% das crianças que vivem nos concelhos afetados pelos incêndios sofrem perturbações psicológicas. História de um problema graúdo, visto pelos miúdos de Castanheira de Pera

Em novembro do ano passado, houve um rapaz que acionou o alarme de incêndio da escola primária de Castanheira de Pera. Fogo não havia nenhum - era apenas curiosidade e traquinice de um miúdo de 8 anos. A professora Lília Sousa virou-se para a turma do 3.º ano e avisou: "Meninos, vamos sair ordeiramente e com calma para o recreio."

A maioria das crianças levantou-se, abandonou ordeiramente a sala e desceu a escadaria até ao piso térreo. Alguns, no entanto, enregelaram. "Gritavam que havia fogo outra vez e começaram a chorar. Estavam em pânico." A voz embarga-se-lhe. "Ainda bem que não era nada."

De vez em quando há isto. Uma criança que faz um desenho da sua casa a arder, a repetição exaustiva da história que viveram naquele 17 de junho, as conversas uns com os outros sobre os funerais dos pais, dos amigos dos pais, dos pais dos amigos.

A professora Lília vai buscar o manual de um aluno. Há um exercício que pede aos alunos que expliquem o que é poesia e um deles responde que é nunca mais haver fogo como o de Pedrógão Grande. Suspiro, uma pausa, apanhar com um texto destes sem aviso é sempre uma bofetada. "Este é um momento que ficará com eles para sempre, eu diria que para todos será uma das memórias mais vívidas de infância. E não devia ser isto, pois não? Não devia ser esta tristeza toda."

Em janeiro deste ano, a Fundação Calouste Gulbenkian financiou um programa inédito de rastreio de stress pós-traumático nas escolas de seis concelhos afetados pelos fogos: Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande, claro, mas também Góis, Pampilhosa da Serra e Sertã.

"Não queremos individualizar os resultados de cada município, mas claro que há mais afetação nos lugares onde o incêndio foi mais forte", diz Diogo Simões Pereira, secretário-geral dos Empresários pela Inclusão Social (EPIS) - que promoveu o estudo no terreno com uma equipa de sete psicólogos clínicos da Universidade de Coimbra.

De um universo total de 2557 alunos entre os 6 e os 18 anos, os encarregados de educação autorizaram o rastreio de quase dois mil. "A verdade é que 14% das crianças apresentam algum tipo de perturbação psicológica e 7,9% têm sintomas de perturbações de stress pós-traumático." Com a chegada do verão, da época das trovoadas e dos fogos florestais, diz o líder da EPIS, o número pode aumentar.

Ver o diabo

"Aquilo era o caminho do diabo", diz Francisco, 7 anos, quando se lembra do momento em que atravessou pela primeira vez a Nacional 236-1 - a infame estrada da morte onde se perderam 47 vidas num troço de 500 metros - depois do incêndio. Aconteceu um par de dias depois do incêndio, quando a mãe do rapaz, Maria Pereira, foi ver os terrenos de família que se tinham perdido para o fogo.

"Tentei sempre desdramatizar ao máximo o que aconteceu a 17 de junho, mas quando passámos naquela estrada, quando começámos a ouvir a história de que tinha morrido este, de que tinha morrido aquele, pensei no impacto que tudo isto ia ter no meu filho", diz. Hoje, quando regressa às mesmas terras queimadas, vai perguntando ao rapaz se ele ainda pensa muito no fogo.

"Só me lembro das chamas, mãe, eram tão vivas. E das explosões, também me lembro muito das explosões. Pum, pum, pum." No início do ano letivo, Francisco começou a receber apoio psicológico na escola. Tinha dificuldades de concentração, o rendimento estava a baixar, não conseguia expressar-se com clareza.

"As psicólogas têm sido essenciais para o meu filho. O meu maior receio neste momento é que o Ministério da Educação regresse aos parâmetros normais e miúdos como o Francisco fiquem desacompanhados." No início do ano letivo, o agrupamento escolar de Castanheira de Pera, que tinha apenas uma psicóloga a meio tempo, foi reforçado com duas profissionais a tempo exclusivo. "Não fazemos qualquer ideia se cá estaremos no próximo ano", dizem agora Margarida Almeida e Cláudia Oliveira.

Cada uma delas está a acompanhar uma vintena de alunos e dizem que, abandoná-los agora seria abandonar um processo terapêutico a meio. O diretor do agrupamento, António Alves, tem um ponto de vista bastante claro: "Não me passa pela cabeça que este apoio seja interrompido. Tivemos aqui crianças a perder familiares ou a verem familiares ficar gravemente feridos. Houve até alguns que tiveram eles próprios de lutar para sobreviver ao fogo."

Os casos mais traumáticos são acompanhados pelos psicólogos do centro de saúde. "Mas não só as crianças precisam de ajuda. Os próprios professores precisam de apoio para encontrar ferramentas de apoio às crianças que estão mais vulneráveis", diz o professor Alves. Ao longo do ano, realizaram-se várias ações de formação sobre como lidar com o trauma na infância. Para professores e para encarregados de educação."

Um ano atípico

O agrupamento escolar Bissaya Barreto é constituído por três núcleos e alberga 238 alunos, do pré-escolar ao 9.º ano. Tem duas unidades modernas, a escola primária e o jardim-de-infância, construídos em 2010, e tem a EB 2.3 de Castanheira, um edifício de 1968 onde as salas ficam gélidas no inverno. "Neste ano, pela primeira vez, ninguém se queixou do frio", diz a professora Fernanda Pais, que tem mais de 30 anos de casa.

É ela que lidera o Clube do Ambiente, onde 13 alunos exploram temas ambientais no horário extracurricular. No dia do incêndio, tinha vindo com um grupo de uma visita aos passadiços do Paiva. "Depois veio o fogo e a aflição de saber se os alunos estavam bem." O incêndio aconteceu um dia depois do fim das aulas. Só se respirou de alívio em setembro.

Neste ano, o Clube do Ambiente está com um problema. "A maior parte das nossas atividades era fazer caminhadas na natureza. Mas o que hei de eu fazer com os miúdos se está tudo ardido?" Olga Henriques, educadora do jardim-infantil, concorda: há menos saídas para o campo. "Este é um ano muito fora do comum."

O corpo docente do agrupamento tem reforçado a atenção sobre os alunos. "Batemos palmas quando eles fazem bem as coisas, tentamos reforçá-los positivamente, damos mais abraços. Estamos menos preocupados com os currículos e mais com o apoio afetivo", diz Olga.

Por outro lado relativizam a atenção que chega de fora. "A escola recebeu muitos brinquedos, as crianças têm convites para ir a Lisboa, para assistir a jogos de futebol. E é muito importante saber gerir isso tudo", diz Catarina Medeiros, psicóloga clínica do Centro de Investigação em Neuropsicologia e Intervenção Cognitiva-Comportamental da Universidade de Coimbra.

Catarina é a responsável pelo rastreio das perturbações psicológicas em Castanheira de Pera. Conseguiu que mais de 90% das crianças do concelho fossem despistadas. "Isolamento, insistência em falar dos mesmos episódios, voltar a dormir na cama dos pais depois de esse hábito estar perdido, aumento dos conflitos são normalmente sinais bastante óbvios de um potencial trauma."


Depois do diagnóstico, tem de vir o tratamento. "Agora passamos à segunda fase, a do diagnóstico rigoroso para que se possa avançar para uma terapêutica." A psicóloga sabe que poderão surgir novos problemas neste verão e ficará, como todos os profissionais da EPIS, em campo até setembro. A partir daí, a vida continua. Nenhum destes miúdos poderá esquecer o fogo da sua infância. Uma catástrofe é uma catástrofe e tem efeitos. A única coisa que as crianças podem fazer é saber crescer com ela.

Texto: Ricardo J. Rodrigues

Um ano depois































terça-feira, 13 de março de 2018

O fogo não sai da cabeça dos bombeiros
















O inverno está a chegar ao fim e há bombeiros que ainda não ultrapassaram o trauma dos incêndios do ano passado. Viram o que ninguém devia ter visto, experimentam sentimentos de culpa e impotência, sofrem com a perspetiva de regresso do fogo. O número de pedidos de apoio psicológico disparou, mas as autoridades não têm meios de resposta. Quem cuida de quem cuida de nós?

Quando saiu de casa na manhã de 15 de outubro, Paulo Rodrigues, 31 anos, não imaginava que naquele dia ia ver o inferno. As desgraças não lhe são propriamente novas – afinal é bombeiro desde os 14 e não houve verão nos últimos anos em que não tivesse de se fazer ao fogo. Ainda para mais presta serviço em Penacova, onde o IP3 se veste demasiadas vezes de estrada de morte.

«O problema é que, quando cheguei ao quartel, as equipas de combate já tinham todas partido. Então eu tive de ir numa ambulância para os incêndios e isso levou-me aos sítios onde não havia mais nada, só morte e destruição. E aquilo que vi não consigo esquecer. Vão ser muitos anos para tirar isto cá de dentro.»

Paulo tem uma banda que anima procissões e festas religiosas. Nesse dia ia tocar na romaria de Nossa Senhora da Conceição numa pequena aldeia da freguesia de Friúmes, mas não chegou a abrir a mala do clarinete. «Quando ia na estrada vi o fogo a avançar tão rápido que decidi logo voltar para trás. Ainda estava a virar o carro quando recebi uma mensagem do comandante.» Acelerou até Penacova, dez equipas já andavam no fogo.

À central chegavam notícias de vítimas em várias aldeias. «Nesse dia morreram cinco pessoas. Eu fiquei com a ambulância e tive de recolher quatro desses cadáveres.»

Na memória traz pormenores demasiado arrepiantes – e reproduzi-los agora seria um atentado gratuito à dignidade das vítimas. Mas Paulo tem ali coisas que precisa de deitar para fora. «Primeiro estive em Vale Maior, e quando cheguei a única coisa que sabia era que havia dois mortos.» A aldeia ainda em chamas e depois um homem aos gritos.

Acabara de ver os seus dois filhos ficarem presos numa arrecadação que as chamas engoliram. «Eu tinha acabado de ser pai, sabe? Agora, diga-me lá, como é que se acalma
alguém numa situação daquelas? O que é que se diz? O que é que eu podia fazer? Como é que me posso esquecer daquilo?»

A Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) está preocupada com casos como o de Paulo Rodrigues. «Sabemos que há muitos bombeiros que viveram situações aflitivas no ano passado», diz o psicólogo Rui Ângelo, líder das equipas de apoio psicossocial da ANPC. «E o nosso receio é o impacto que os próximos incêndios vão desencadear nestas pessoas.

Se em 2017 vimos gente com muitos anos de tarimba a ultrapassar o seu limite de resistência psicológica, é preciso ter consciência de que, quando se depararem novamente com as chamas, podem bloquear, reviver episódios de grande ansiedade, pôr-se a si mesmos e às suas equipas em risco.» E é por isso que é tão importante pegar neste assunto agora, antes de o fogo recomeçar.

O fogo nos meus sonhos
Os sinais de potencial trauma são identificáveis: flashbacks, irritabilidade, isolamento, pesadelos, insónias. Normalmente, dissipam-se em seis semanas, mas, quando isso não acontece, podem desenvolver-se patologias psiquiátricas mais graves. No ano passado, as equipas de apoio da Proteção Civil intervieram 843 vezes, quando nos cinco anos anteriores não auxiliaram em média mais de 300 bombeiros.

«Prestamos apoio psicológico imediato a quem necessitar e encaminhamos os casos psiquiátricos mais graves para o Serviço Nacional de Saúde», diz Rui Ângelo.
Uma grande parte dos bombeiros, no entanto, não teve com quem falar. Apesar de o sistema de socorro português estar baseado no voluntariado, faltam recursos para tratar da quebra e da recuperação psicológica dos bombeiros.

Os números falam por si: as equipas da ANPC contam hoje com cinquenta técnicos – 39 psicólogos e 11 assistentes sociais – para apoiar os 30 448 operacionais no ativo. Também eles trabalham em regime de voluntariado.

«E depois há um fator que torna tudo mais difícil. Nós só vamos ao terreno quando o comandante de uma corporação nos convoca. Um bombeiro que sinta problemas não pode contactar-nos diretamente. Então, muitas vezes dou por mim a ligar às corporações para insistir na nossa ida.»

Mesmo sendo poucos, os técnicos nunca foram convocados a Penacova, onde Paulo Rodrigues, o rapaz que toca clarinete nas procissões, viu o inferno. «Temos dois psicólogos do centro de saúde que se disponibilizaram para nos ajudar», explica António Simões, comandante da corporação. «Quem quisesse podia ir ter com eles.»

É bombeiro experimentado, um homem duro, também ele viu muito mais do que deveria naquele fatídico domingo de outubro. «Uma semana ou duas depois, ao assistir a uma conversa entre o meu segundo e uma das nossas bombeiras, é que caí em mim e percebi que tinha aqui gente muito afetada.»

Lídia Mira tem 36 anos, veio para os bombeiros arrastada pela irmã aos 18, mas fez do socorro ao próximo uma missão tão pessoal que hoje, além de voluntária em Penacova, trabalha também como socorrista no INEM. Estava na primeira equipa que chegou a Vale Maior, foi a ela que um homem em absoluto desespero se dirigiu primeiro: «Salve os meus filhos, salve os meus filhos.»

Estava um fogo danado a subir a colina, mas a mulher agarrou na mangueira e fez-se às chamas. «Eu tinha de ir. Sabia que não devia, que o fogo podia virar, mas a angústia daquele pai fez-me avançar.»

Não podia, as chamas já tomavam conta do armazém onde ambos acabariam por perecer. Um tinha 41, outro 43 – morreram abraçados. «De um lado ouvia os gritos do pai, do outro o silvo das vidas a extinguir-se. E eu não conseguia fazer nada. Nada.» Lágrimas ainda, tanto tempo depois. «Sinto uma raiva que não sai de mim, a raiva de não ter conseguido salvá-los, a raiva da impotência.»

No momento em que desistiu de lutar, agarrou-se ao colar que usa sempre consigo. Ali está inscrito o seu nome e o do filho. Assim que chegou a casa, acordou o rapaz e abraçou-se a ele. Pediu-lhe desculpa, uma e outra vez, não sabe muito bem porquê.

«Nunca voltei ali, nem sei se consigo voltar. Sinto uma culpa tremenda, estou sempre a pensar que se tivesse chegado meia hora antes a história seria diferente.» Foi isso que disse ao segundo comandante dos bombeiros de Penacova, semanas depois, quando o encontrou à porta do quartel.

Vasco Viseu, 49, estava do outro lado da colina a ver o fogo subir o vale. Chegou à aldeia de Vale Maior minutos antes da morte, num carro de comando equipado com uma pequena cisterna, mas que já não tinha gota de água.

«Tinha passado a manhã na Lousã, em combate, e agora já não sobrava nada.» Assim que percebeu que o fogo estava a entrar em Penacova ligou para a central e pediu para lhe levarem os filhos para o centro da vila. «Depois fiz-me à estrada, cada metro que passava parecia que uma árvore em chamas caía atrás de mim, a impedir-me de voltar para trás.» Era ele contra o monstro.

É isto com que sonha agora: o povo a insultá-lo por ser incapaz de salvar sequer uma casa, a perceção de um pai a pedir que lhe resgatassem os filhos e ele nada poder fazer, as labaredas a dançar à sua volta e a nítida sensação de que ia morrer nesse dia. Sentia-se fraco e inútil – logo ele, que sempre tinha sido um exemplo para os homens.

«Quando finalmente chegou a primeira equipa de combate, escondi-me atrás do carro e fiquei ali uns bons dez minutos a chorar.» Meses depois, repete as lágrimas, as mãos a passearem pelo rosto, já não aguenta este desespero. «Nunca mais dormi nada de jeito. Fui ao psicólogo do centro de saúde para ver se me receitava comprimidos, mas sei que estes pesadelos, estas memórias já duram há tempo demais. Houve alguma coisa em mim que mudou. Não sou o mesmo homem.»

Semanas depois do trauma, quando Lídia se virou para ele e disse «segundo comandante, isto não está nada bem», os dois desataram num pranto que o comandante Simões pensou estar já ultrapassado. Foi então que Paulo Rodrigues lhe contou o resto da história. De como depois de ir resgatar os cadáveres dos dois irmãos socorreu uma família que tinha tido um acidente quando fugia do incêndio. De como uma mulher lhe contou que o pai ainda estava preso numa aldeia e ele correu com uma motosserra a abrir caminho pelo mato incandescente para resgatar um homem carbonizado que lhe morreu nos braços. E de como, no fim disto tudo, fora buscar a uma adega o corpo de uma mulher que tinha sucumbido nas chamas e a achara tão pequena, tão pequena, que por momentos teve dúvidas se aquele não seria o cadáver de um animal doméstico.

O comandante António Simões percebeu nessa altura, semanas depois da tragédia, que os seus bombeiros estavam em desespero. Pode não ter chamado as equipas de apoio psicossocial da ANPC logo depois da tragédia, mas convocou ao quartel João Rosado, chefe da unidade de psiquiatria e diretor do centro de tratamento de trauma dos Hospitais da Universidade de Coimbra.

«Um bombeiro está continuamente exposto a situações traumáticas, mas é essencial perceber o impacto desse trauma em cada indivíduo», diz agora o investigador à Notícias Magazine. «Estamos a fazer um estudo sobre os fatores de risco – antes, durante e depois de os traumas acontecerem. Com isso vamos preparar uma resposta, que não pode passar só pela terapêutica, também tem de passar pela prevenção.»

Lídia está a receber apoio de uma psicóloga do INEM, Vasco decidiu voltar às consultas no centro de saúde, Paulo diz que a família tem conseguido ser o suporte para desviar os pesadelos. Mas continua a ser preciso criar uma estratégia nacional para que os operacionais do terreno aprendam a lidar com as catástrofes.

Rui Ângelo, da Proteção Civil, percebe a iniciativa da Universidade de Coimbra e confessa: «Idealmente, as nossas equipas deviam estar agora no terreno a dar ferramentas de resiliência aos operacionais, a prepará-los para os próximos incêndios.» Diz que há um projeto-piloto a ser testado no distrito de Santarém. Aconteceu por iniciativa de uma corporação, não do governo central. «Se funcionar talvez consigamos aplicá-lo no resto do país.»

«Tu não podes morrer»
Horas depois de atravessar Penacova, no dia 15 de outubro de 2017, o fogo chegou a Santa Comba Dão «com a força de um touro e a velocidade de um galgo». A frase é de Rui Leitão Morais, 29 anos, bombeiro desde que se lembra de ser gente.

Ele, o pai e dois irmãos são todos voluntários – e quando foi dado o alerta vermelho prepararam-se todos para o combate. «Foi um dia muito duro que nenhum de nós pode esquecer. O mais difícil de tudo foi perceber que o meu pai estava encurralado pelo fogo, a pedir ajuda. Nunca lhe tinha ouvido aquele pânico na voz e foi aí que me faltou o chão.»

Rui percorria o concelho num carro de comando para avaliar o que se passava. Era ele que estava à frente das comunicações com o comando da ANPC. De repente a voz do pai no rádio: «Está tudo completamente em chamas, casas e tudo, não temos hipóteses.» O leitor é capaz de se lembrar deste relato, ele foi transmitido dois dias depois da tragédia na TVI.

Do outro lado da linha perguntam a chefe Morais onde está. E João Morais, 58 anos e um dos bombeiros mais experientes da corporação, responde num tom aflitivo: «Povoação do Coval, povoação do Coval. Isto está uma calamidade. Isto está uma calamidade. Precisava aqui de mais um carro, isto vai arder tudo.» A resposta é frustrante: «Não tenho, João. Não tenho.» Depois o silêncio. As duas horas seguintes passou-as Rui com um nó na garganta, sem saber se o pai estava vivo.

Entretanto o centro da cidade enchera-se. O IP3 tivera de ser fechado e Santa Comba Dão tornara-se o abrigo improvisado para centenas de automobilistas. O mesmo na linha de comboio, trezentos passageiros nas imediações do quartel. O fogo começou a chegar ao centro urbano e Rui fez-se a ele.

«Passava por pessoas que se punham à frente do jipe porque queriam que lhes salvássemos a casa, ou que fôssemos buscar alguém à aldeia, e nós tínhamos de contorná-las, continuar caminho. Não lhes podíamos valer.» No Coval, João Morais parou a comunicação quando ouviu um camião explodir. «As línguas da chama tinham sete metros, eu nunca visto uma coisa assim. Quando ouvi aquele estrondo pensei: vou agora. Deixei-me cair de joelhos no chão e pensei nos meus filhos, que também andavam no fogo. Não sei como sobrevivi, mas sei que, assim que pude passar a estrada, fui ao quartel ver se os rapazes estavam bem.»

Tinham passado duas horas desde a última comunicação. O aparelho de rádio caíra ao chão e fora devorado pelo fogo – Rui foi um dia depois ao terreno recuperá-lo e guarda-o agora como uma relíquia. Quando se viram no quartel, pai e filho não se abraçaram nem trocaram uma palavra. «Olhámos um para o outro e estava tudo dito.»

Falaram sim dois dias depois, quando o comandante Hélder Mota convocou os seus homens para um plenário em que cada bombeiro partilhou com os demais o que tinha vivido naquele dia. «Foi muito duro ouvir tudo aquilo, às tantas tive de sair para dar uns pontapés numa parede», diz o líder dos bombeiros de Santa Comba. Custou-lhe particularmente ouvir o trauma na voz do chefe Morais, «um homem que nunca vi quebrar».

No final do plenário, pediu a todos que falassem com as equipas de apoio psicossocial da Proteção Civil. E todos falaram. Rui diz que está bem, o pai diz que ainda lhe vem à memória aquela angústia. Agora as coisas estão calmas, quando o fogo voltar logo se vê.

Para muitos dos bombeiros que viveram experiências traumáticas, o pânico maior é voltar ao lugar onde experimentaram o inferno. Mas assim que Rui Rosinha, 40 anos, saiu do hospital, pediu para a ambulância que o levava a casa parar no cruzamento onde o fogo lhe mudou a vida. Acabara de passar quatro meses internado, dois dos quais em coma. No dia 17 de junho de 2017 o camião de bombeiros onde viajava teve um acidente na EN236 – que liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pera e onde nesse dia morreram 47 pessoas.

«Quando entrámos na estrada fez-se noite, um calor inacreditável, e de repente o chefe Tomé, que ia ao volante, grita que vamos bater.» Um Mercedes que fugia do incêndio embateu de frente no veículo. «Saí e vi logo as labaredas à nossa frente. Ainda tentámos aproximar-nos do outro carro, percebemos que havia gente lá dentro mas ninguém respondia. Era a gasolina, podia explodir a qualquer momento, então recuámos para um cruzamento onde havia uma nesga de céu.»

Ainda procurou as luvas de proteção e o capacete, mas com o acidente não conseguia encontrar nada. Tinha o telemóvel no bolso, ligou à mulher. «Estava um calor terrível e telefonei para me despedir dela. Disse-lhe que íamos morrer todos. Depois disse que a amava muito e que amava muito os nossos filhos. E desliguei.»

O calor apertava e da estrada apareceram quatro pessoas a correr, provavelmente fugidas dos carros. Rosinha e os outros bombeiros formaram um cordão à volta destas pessoas, abriram os braços e envolveram-nas numa redoma, à espera que o fogo passasse. Uma hora depois chegava ajuda, os cinco bombeiros caídos por terra mas vivos.

Um deles, Gonçalo Conceição, acabaria por não resistir aos ferimentos – mas isso Rui só soube meses mais tarde, quando acordou do coma induzido. Ele estava num estado lastimável, queimaduras de terceiro grau em vinte por cento do corpo e os pulmões à beira do colapso. Mesmo durante aquele tempo em que esteve inconsciente diz que se lembra do que lhe disse o filho na noite de dia 17, quando esperava ainda consciente a transferência para o hospital: «Tu não vais morrer. Tu não podes morrer.»

Desde que acordou, os pesadelos tornaram-se piores do que as dores. «Estou sempre a sonhar que vou pelo mato a andar com pessoas que não conheço e não chego a lado nenhum. É o fogo nos meus sonhos. E depois acordo constantemente suado. Também não consigo dormir.»

Pediu apoio e está a ser acompanhado semanalmente no Hospital Sobral Cid, consultas de psicologia e psiquiatria. «Mas sabe, quando pedi para a ambulância parar naquele cruzamento, eu comecei a fazer o meu luto. Agora sinto-me um jogador lesionado que não pode ir a jogo, mas a coisa que mais quero é poder voltar a salvar vidas. Amo o meu país e é isso que me motiva. Não sei como reagirei quando voltar a ver fogo, mas sei que é falando sobre isso que vou ultrapassar o trauma. Tenho muito medo dos meus companheiros que não falam com ninguém e podem estar a desenvolver stress pós-traumático. Por isso eu apelo para que eles vão, falem, contactem psicólogos, peçam ajuda às famílias. Não se armem em fortes porque isso pode estragar-vos a vida.»

Nuno Pereira, 44 anos, é dos que precisaram de umas boas semanas até se decidir a falar. Entrou para os bombeiros aos 14, seguindo as passadas do pai e do tio, aos 18 fez o curso na Escola Nacional, era daquela adrenalina que ele gostava. «No dia 16 de outubro, pela primeira vez em 30 anos, pensei desistir disto.»

O segundo comandante dos Bombeiros Voluntários de Tondela estava na aldeia do Tarrastal quando o muro de chamas tomou conta da aldeia. «As mangueiras derretiam com o calor, os vidros pareciam querer derreter, chovia fogo do ar, às tantas vi um caixote do lixo de 800 litros voar e embater contra o carro.»

Na aldeia estavam dois velhotes, e ele tinha ido com uma equipa socorrê-los. A água da cisterna acabou quando o fogo se fez mais bravo. «Eu e um companheiro conseguimos esconder-nos num casebre de tijolo quando as chamas passaram por nós. Nessa altura tive a nítida sensação de que a minha vida ia terminar. Lembro-me de pensar que os meus filhos iam crescer sem pai no meio de um lugar que se tinha tornado um cemitério. Mas ainda não foi desta que Deus quis vir buscar-me.»

Um mês depois de quase ter morrido percebeu que a ansiedade e irritabilidade por que estava a passar não era normal. «Então fui ao psicólogo, que me tem ajudado bastante. Sabe, aquilo que está a ser mais difícil para mim é conseguir perdoar-me. Não consegui ajudar as pessoas, não consegui salvar-lhes as vidas nem as casas – e era para isso que eu vivia.»

À sua volta tem um mundo de cinza a lembrar-lhe o fracasso. Em dezembro, a sua cidade voltou a viver uma tragédia, quando oito dos seus conterrâneos pereceram num incêndio numa associação recreativa em Vila Nova da Rainha, durante um torneio de sueca. «Voltei a confrontar-me com o fogo e percebi que o apoio psicológico que recebi foi essencial para conseguir desbloquear. Hei de continuar a salvar vidas. É só isso que sei fazer.»

O inverno está a chegar ao fim e só quando chegar novamente o fogo se conhecerá a verdadeira dimensão do trauma nos bombeiros portugueses. As equipas de apoio psicossocial da ANPC aconselham que, quando um carro partir para combate, mesmo que não seja para enfrentar mais do que um fogacho, os chefes das equipas sejam pormenorizados na descrição daquilo que vão encontrar e que revejam o plano de ataque, para reforçar a sensação de controlo a quem eventualmente o possa perder. E continuar a falar, ventilar, deitar cá para fora. Os verdadeiros heróis, afinal, são os que têm coragem de expor a sua fragilidade.




Texto Ricardo J. Rodrigues