Mostrar mensagens com a etiqueta Ricardo J. Rodrigues. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ricardo J. Rodrigues. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A terra prometida dos judeus pode bem estar nas montanhas portuguesas

















Há um novo fenómeno no interior português. Milhares de turistas judeus estão a invadir lugares como Castelo de Vide, Belmonte ou Trancoso para conhecer o património judaico nacional. No último ano, o número de visitantes aumentou exponencialmente. Há novas linhas aéreas entre Portugal e Israel, novas agências especializadas, novos hotéis e lojas kosher. História de um retorno.
Nas cozinhas dos hotéis que vão nascendo junto à raia, toda a gente sabe para que lado fica Jerusalém. «Essa foi uma das primeiras coisas que tivemos de aprender quando os turistas judeus começaram a chegar», diz António Lopes, proprietário do hotel Monte Filipe, um quatro estrelas com 50 quartos nos arredores de Castelo de Vide. Até 2015 acolhiam em média 150 hóspedes hebreus por ano, gente que vinha à procura das suas raízes no interior português. Mas em 2017 esse número subiu para mil, e este ano esperam dobrar o milhar de dormidas em junho. «Há um verdadeiro boom no turismo judaico e isso está a revelar-se um balão de oxigénio para nós. Neste momento, estamos a treinar todos os nossos empregados para nos adaptarmos às necessidades desta nova clientela. Sobretudo na cozinha, onde a comida tem de ser confecionada sob os preceitos kosher. A carne, por exemplo, tem de ser cortada na direção de Israel.»
A semana passada, a Secretária de Estado do Turismo fez uma digressão pelas comunidades semitas dos Estados Unidos para promover o país como destino religioso judeu. «A ideia é mostrar Portugal como lugar tolerante e seguro e com uma herança judaica muito forte», dizia Ana Mendes Godinho à Notícias Magazine na véspera da partida. «O número de israelitas a visitarem-nos explodiu e queremos que este nicho convoque gente também do outro lado do Atlântico. Portugal pode ser visitado enquanto destino final mas também pode ser um stopover [paragem por uns dias] para quem viaja para Israel» Depois desta ação em território americano, aliás, o governo planeia estender a promoção ao Canadá e ao Brasil, onde também existem comunidades relevantes. «Este mercado interessa-nos. É um turismo que vai descobrir o país, que vai descobrir o interior, que traz investimento e empreendedorismo aos territórios mais deprimidos.»
Os números do INE são esclarecedores. Se no início desta década contavam-se em média cinco mil hóspedes israelitas por ano nos hotéis nacionais, em 2017 o número disparou para 105 mil, um aumento de mais de 2000 por cento. Este boom teve efeitos diretos na aviação civil. Em novembro último, a TAP e a EL AL – Air Israel abriram um acordo de codeshare para simplificar as conexões entre os dois países nos aeroportos para onde ambas voassem. Mas, um mês depois, a companhia de bandeira israelita percebeu o interesse nos voos para Portugal e decidiu reforçar uma linha com sete ligações semanais diretas entre a capital portuguesa e Telavive – que entra em funcionamento em março.
Não há dados que digam quantos destes turistas viajam por vocação religiosa, mas nas pequenas cidades e vilas do interior, onde resistem os traços mais emblemáticos da presença judaica em Portugal, está a acontecer uma revolução. «O mercado israelita tornou-se em 2017 a segunda nacionalidade estrangeira a visitar o concelho, atrás apenas de Espanha, que fica aqui a 15 quilómetros, e ultrapassando países como Inglaterra, Alemanha, França ou Itália», diz António Pina, presidente da câmara de Castelo de Vide. «Há três anos, o nicho judaico representava menos de 3 por cento do nosso turismo, agora ultrapassa largamente os 20 por cento. Isto está a criar um dinamismo como há muito não víamos no município. Temos casais israelitas a mudarem-se para aqui para abrirem turismos rurais especializados, temos os hotéis da região a adaptarem-se às novas exigências, vamos abrir um cinco estrelas na cidade até ao fim do ano. Numa zona completamente abandonada, escondida atrás da serra,  isto é o melhor que nos podia ter acontecido.»
A hotelaria é a face mais visível da mudança que os judeus estão a trazer à raia. Em abril de 2016 abriu o Belmonte Sinai Hotel, a primeira unidade do país criada propositadamente com foco no turismo judaico. Está classificada com quatro estrelas e tem 27 quartos. «Das 16 mil dormidas que recebemos anualmente, mais de metade são judeus», diz o diretor, Ricardo Abreu. Sobretudo israelitas, americanos, brasileiros e argentinos. «Além da comida, dedicamos grande atenção ao sabbath, que começa no por do sol de sexta feira e só termina no sábado à noite. É um dia sagrado de descanso em que não se pode por exemplo tocar em dinheiro ou tecnologia. Então desligamos as televisões, entregamos chaves manuais em vez das eletrónicas, os quartos ficam apenas equipados com luzes de presença.» Os elevadores, da marca Schindler, o industrial alemão que salvou 1200 judeus do Holocausto, também não são usados em dia santo.
A história repete-se 65 quilómetros acima, no Hotel Turismo de Trancoso, também de quatro estrelas. «Abrimos há oito anos, mas de há dois para cá começámos a receber excursões atrás de excursões e agora decidimos instalar duas cozinhas, uma delas vocacionada exclusivamente para alimentação kosher», diz Júlio Sarmento, o proprietário. «Em dois anos, o mercado judeu, que não existia, passou a representar 25 por cento da nossa faturação e temos tido aumentos de lucro na casa dos 10 por cento. Em 2017 as contas fecharam nos 440 mil euros, o que é extraordinário numa região desertificada como a nossa.» Esse sucesso tem efeitos colaterais, diz. Para abastecer as refeições, criaram acordos com fornecedores especializados em toda a Beira Interior. «Nos distritos da Guarda e de Castelo Branco estão a aparecer cada vez mais produtores de carne, queijo e azeite que seguem as leis da Tora. Isto está a mexer muito com a nossa economia.»
Mas porque é que, 500 anos depois de serem expulsos do país, os judeus estão a regressar agora, precisamente agora, a Portugal? «Há dois motivos essenciais para as coisas terem mudado», diz a historiadora Carla Santos, que a partir de Trancoso investiga a presença judaica no país. «O primeiro é o real funcionamento de uma Rede Nacional de Judiarias a partir de 2015. O segundo é a lei do mesmo ano que garante dupla nacionalidade a quem provar ter como ascendentes judeus sefraditas, que foram expulsos de Portugal no século XV.»
Vamos por partes. A Rede Nacional de Judiarias foi criada em 2011 por iniciativa da Região de Turismo da Serra da Estrela e integra 37 municípios portugueses. Tem sede em Belmonte e tem feito um trabalho notável de catalogação do património material judaico que existe no país. No final de 2014, a EEA, uma instituição norueguesa que financia projetos que reduzam a disparidade entre o Norte e o Sul da Europa, decidiu atribuir uma bolsa de cinco milhões de euros à rede portuguesa para que se pudessem recuperar edifícios e criar centros interpretativos. A partir daí, abriram-se museus, recuperaram-se sinagogas, colocaram-se placas sinaléticas onde elas não existiam. A organização tremeu em novembro do ano passado, quando o seu secretário-geral, Marco Baptista, acabado de perder as eleições autárquicas na Covilhã, desapareceu levando alegadamente consigo 115 mil euros dos cofres da instituição. Ainda assim, um mês depois, a EEA anunciou novo investimento de cinco milhões de euros nas judiarias portuguesas.
A lei que concede nacionalidade portuguesa aos descendentes de judeus expulsos de Portugal nos séculos XV e XVI foi iniciativa do governo de Passos Coelho. Entrou em vigor em março de 2015 e, desde então, o interesse forasteiro pelo país é inegável. Há 12 mil pedidos de cidadania de estrangeiros e 1800 deles já foram aprovados. Um dos problemas da concessão é encontrar o rasto genealógico – afinal, todos os documentos da Inquisição foram queimados. Mas até isso está a abrir um novo nicho de mercado no país. «Desde que a lei foi aprovada, não há semana em que não tenha investigadores licenciados em História, contratados por judeus de Israel, Estados Unidos ou Brasil, a virem para a nossa biblioteca e o nosso centro de arquivo», diz Carla Santos. A secretária de estado do turismo concorda: «Há todo um mercado na investigação genealógica que se está a desenvolver paralelamente ao turismo judaico.»
Para Elisha Salas, rabino de Belmonte, este interesse renovado por Portugal é puramente emocional.  «Veja a história deste povo. Desde Moisés ao Holocausto, passando pela Inquisição, a história dos judeus é uma história de perseguição constante. A partir do momento em que tornamos a ser aceites, temos uma grande obsessão por descobrir as nossas raízes, perceber de onde vimos.» Na vila onde mora, há aliás a última comunidade criptojudaica conhecida do mundo. Os judeus de Belmonte viveram em total sigilo durante cinco séculos, até aos anos oitenta do século passado. Nas suas casas ainda há sinagogas secretas, ladaínhas aprendidas em surdina, rituais que insistem fazer à porta fechada. «Na televisão israelita passam constantemente reportagens sobre Belmonte», diz ele. «E eu sempre tive a sensação que a história deste povo, destas 25 famílias que resistiram durante tanto tempo, que pagaram cara perseverança de se manterem unidos, nomeadamente com os problemas de saúde decorrentes da consanguinidade, é mais conhecida em Telavive do que em Lisboa ou no Porto. Agora que os turistas hebraicos chegaram, é claro que eles querem vir aqui.»
Apesar das duas principais cidades do país terem também assistido a um enorme incremento no fluxo do turismo judaico, é aqui que, nas terras esquecidas pelos portugueses, que ele tem maior impacto. «O turismo representa cinco milhões de euros para o nosso concelho, é um dos vetores essenciais da nossa economia. E hoje posso dizer que a fatia mais importante vem precisamente deste nicho», diz o presidente da câmara de Trancoso, Amílcar Salvador. «Pense no que isto representa para um concelho como o nosso. Todos os meses entram no centro de interpretação judaico 800 pessoas, este ano o número ainda aumentou 30 por cento. São pelo menos 25 mil visitas numa cidade que não tem mais de três mil habitantes. Agora, uma coisa é certa, temos de estar preparados para acolhê-los.»
Na faixa onde a presença judaica foi mais forte – a linha montanhosa do interior centro – as câmaras apostam forte em melhorar a oferta. Em Belmonte foi criado em 2005 um espetacular museu judaico que conta a história dos hábitos religiosos da comunidade local, e que em 2017 aumentou as visitas em 33 por cento, apesar de ter estado fechado quatro meses para remodelação. Em Trancoso, o centro de interpretação judaico Isaac Cardoso está a ser renovado, tem uma sinagoga para acolher cerimónias religiosas dos judeus que a visitam, e em março do ano passado abriu portas o Museu Bandarra, dedicado ao profeta medieval acusado de judeu pela Inquisição. Em Castelo de Vide, está prestes a abrir a Casa da Inquisição, num antigo palacete na judiaria da cidade, onde há alçapões que dão acesso a esconderijos secretos e mobiliário que se abre para garantir acesso a uma secretíssima sinagoga. Também terá um centro de genealogia, para ajudar judeus e investigadores a encontrarem as origens das suas famílias. 
«É realmente a estes sítios que as pessoas querem ir», diz Isaac Assor, diretor geral da Alegretur, uma agência turística portuguesa especializada neste nicho de mercado. «Os circuitos começam por norma na capital e terminam no Porto, mas as experiências mais marcantes acontecem sempre na Cova da Beira.» Há cinco anos, diz ele, não acolhia mais de dez grupos por ano, agora o número quintuplicou. «Vêm normalmente excursões de 30 a 40 pessoas, maiores de 50 anos, de classe média-alta. E o seu interesse está concentrado precisamente na faixa onde se fixou a população de Sefarad, que é o nome hebreu da Península.» As viagens duram em média uma semana. Também podem ir a Tomar, onde existe uma sinagoga sefradita, a Castelo Branco, Idanha-a-Nova ou Covilhã, onde há marcas judaicas bem preservadas, mas o facto é que Castelo de Vide, Belmonte e Trancoso são as paragens obrigatórias, a alma dos milhares que se esconderam, foram convertidos e acabaram por se converter em cristãos-novos.
No centro de uma das judiarias mais intactas do país, a de Castelo de Vide, Carolino Tapadejo criou um museu para homenagear o legado familiar. Presidente da câmara durante toda a década de 1980, descendente de ferreiros judeus e ele próprio escultor de ferro, é uma autoridade na história sefradita da cidade. Quando terminou a carreira autárquica, decidiu tirar o curso de turismo cultural – e foi aí que começou verdadeiramente a explorar aquele legado esquecido durante séculos. Hoje, os seus dias são passados a dar palestras sobre a história judaica da cidade. «Vou constantemente a Israel, sou professor na univiersidade da Extremadura, em Espanha, tenho viajado pelo mundo todo a falar da nossa Sefarad», atira. «Depois acolho grupos estrangeiros que vêm aqui. Falo hebraico e isso ajuda.»
Acompanhá-lo pelas ruas da judiaria é toda uma lição de História. «Os primeiros relatos da presença judaica vêm de 1320, quando sete famílias de Gibraltar se instalam aqui para desenvolver o negócio das tinturarias. Mas é no século XV, claro, que as coisas mudam de figura.» Em 1492, os reis católicos expulsam toda a comunidade de Espanha e muitos rumam a Portugal, onde D. João II aceita acolhê-los. «De repente, Castelo de Vide, que na altura tinha 800 habitantes, vê-se com um acampamento com quatro mil judeus à porta da cidade. O país na altura não tinha mais de um milhão de pessoas e pelo menos 100 mil hebreus dão entrada nesse ano nas nossas fronteiras. Há de ter sido uma revolução.»
Ao contrário da população católica, os sefraditas tinham um nível elevado de educação. Isso ameaçava o grupo que detinha o monopólio da cultura – o Clero. «É por isso e pelo poder económico crescente dos judeus que D. João III cria em 1536 a Inquisição e o povo sefradita recebe ordem de expulsão.» Abrem-se tribunais em Lisboa, Coimbra e Évora, que até à abolição dos autos de fé pelo Marquês de Pombal, em 1773, condenam à morte 40 mil pessoas. «Ou saíam, ou eram queimados vivo, ou se convertiam em cristãos-novos e eram expropriados de todos os seus bens. Mas muitos continuavam a praticar a sua religião em segredo e a cidade está apinhada de marcas dessas práticas secretas.»
Desde logo na arquitetura das casas. Os edifícios judeus têm sempre duas portas, uma para a habitação, outra para a loja. E depois há candelabros de sete velas esculpidos nas ombreiras das portas, ou cruzes a assinalar a nova cristandade. «Muitas tradições subsistem. Aqui, por exemplo, é comum ver as mulheres varrer a casa às sextas feiras e deixar uma vela acesa escondida dentro de um pote na noite de sexta para sábado, durante o sabbath.» A comida é outro sinal claro. Enchidos feitos de aves, como as alheiras do norte, ou de cabra, como os maranhos do centro, serviam para despistar as autoridades eclesiásticas. «Mas talvez o traço principal aconteça na semana da Páscoa, quando se mata o cabrito ou o borrego e se deixa o sangue do mesmo à janela, como fazia no primeiro testamento bíblico o povo de Israel.»
Foi durante uma das viagens a Israel em que contou estas mesmas histórias na televisão que Carolino Tapadejo viveu um dos momentos mais emocionantes da sua vida. Uma mulher contactou-o depois da sua aparição no canal israelita e contou-lhe que a sua família tinha fugido de Castelo de Vide no século XVI. «Era uma senhora de uma certa idade e com muito pouca mobilidade. Disse-me que a sua família passara de geração em geração a promessa de um dia aqui voltar. E, nisto, abre a mala e mostra-me uma chave muito antiga, de ferro.» Era a chave da casa daquela família na cidade alentejana, guardada durante mais de 400 anos à espera do retorno. Carolino tira a chave do bolso e mostra-a com um mar nos olhos. «Ela pediu-me que a guardasse. Nunca tinha estado em Portugal, mas esta era a terra dela.»
Essa ideia do retorno está a ser revivida uma e outra vez. Veja-se Arieh Hatchvel, um brasileiro de São Paulo descendente de judeus sefraditas que, depois de dez anos a viver em Israel, decidiu estabelecer-se em Belmonte. «Casei com uma judia portuguesa daqui e quando percebi esta história comecei a sentir um chamamento, como uma década antes tinha sentido o chamamento de viajar para Israel. É como se esta fosse uma nova terra prometida para mim.» Daniela Mourão, a sua mulher, viveu dois anos em Haifa com os pais, Moisés e Isabel, membros da comunidade criptojudaica da vila. «Eu estudei gestão hoteleira e, quando saí daqui, não havia oportunidades de trabalho. Mas isso está a mudar e é por isso que decidimos voltar.»
A casa da família Mourão fica num dos bairros novos da vila e tem uma enorme estrela de David em frente ao portão. Moisés construiu o monumento ainda antes de emigrar para a terra prometida. «Tínhamos aqui uma vida boa, mas a Tora diz que um judeu deve estar com o seu povo, e por isso decidimos emigrar.» Foram dois anos bons, mas Portugal continuava a bailar-lhes na cabeça. «Há duas semanas decidimos que era tempo de voltar. Este aumento do turismo dá-nos a possibilidade de construir aqui uma vida decente.»
Para mostrar o que fala, o homem decide abrir ir buscar o projeto arquitetónico que está a planear para o centro da vila. É mais um hotel de quatro estrelas, vocacionado exclusivamente para hóspedes judeus, mais uma vintena de quartos. «Concorremos a financiamentos europeus, mas ainda não tivemos sorte. Haveremos de construí-lo de outra forma», suspira. Enquanto isso nõ acontece, decidiram abrir uma loja de produtos kosher, que vai abrir portas esta semana em Belmonte. Produtos alimentares, artigos religiosos, tudo o que sirva para abastecer esta nova vaga de turismo que começou a chegar. Chama-se a Casa da Judiaria e abri-la é quase cumprir uma profecia. «Cinco séculos passou a minha família a esconder-se e agora, imagine, aquilo que andámos a esconder é o que toda a gente nos pede para mostrar.» Moisés ri e abana a cabeça. Às tantas as gargalhadas contagiam a mulher, a filha e o genro, está toda a gente numa alegria desbagada. Ali, nos montes do interior do país, os judeus estão em casa.


Há um grupo de turistas brasileiros a percorrer as ruas de Trancoso. Chegaram em dois autocarros de turismo e cumprem a excursão inevitável. Começaram em Lisboa, estiveram em Castelo de Vide e Belmonte, agora desaguaram ali. Andam acompanhados por uma guia local a ver os traços de judaísmo que enfeitam a arquitetura da cidade. Aqui o património é riquíssimo e as autoridades locais criaram guias dos principais pontos, em português e hebraico, para alimentar a curiosidade forasteira. Vitrais com candelabros, marcas cruciformes nas portas, até um Leão de Judah esculpido na parede de um edifício. Mas é quando entra na sinagoga do centro judaico que Fabiana Oliveira Bezerra se emociona verdadeiramente. Pernambucana do Recife, é descendente de judeus sefraditas que fugiram para a Holanda e daí para a América do Sul. Na sua cidade há uma das comunidades mais antigas do continente. A sua história não há de ser diferente dos milhares de judeus que estão a visitar o interior português. «É estranho», diz enquanto enxuga as lágrimas. «Vim ver um lugar onde nunca tinha estado e percebi que cheguei a casa. Podem passar quinhentos anos, podem até passar mil, mas quando uma terra se entranha no sangue de um povo, essa terra pertence a esse povo para sempre.»


Mesmo que o nome de Aristides de Sousa Mendes seja o mais conhecido, a promoção do turismo judaico em Portugal conta com quatro nomes de portugueses que se destacaram na resistência ao Holocausto. São os quatro cidadãos portugueses classificados como Justos entre as Nações pelo Memorial do Holocausto de Jerusalém – precisamente por terem resistido ao extermínio de judeus durante a II Guerra Mundial. O caso do cônsul de Bordéus é o mais conhecido. Ignorando as ordens de Salazar, passou vistos a 30 mil judeus que fugiam da perseguição nazi. Mesmo que tenha destruído a carreira e morrido na miséria, a história guarda-o como o homem que mais vidas salvou do Holocausto. Depois há Sampaio Garrido, embaixador português em Budapeste, que não só emitiu 70 passaportes para judeus em fuga como escondeu 12 pessoas na sua casa. José Brito Mendes, um emigrante português em França, foi declarado Justo entre as Nações por proteger uma criança judia cujos pais morreram em Auschwitz, assumindo-a como filha. E por fim um padre, Joaquim Carreira, reitor do Colégio Pontifício Português em Roma quando os alemães se instalaram na cidade. Ali acolheu, escondeu e alimentou pelo menos 40 pessoas que fugiam das autoridades nazis. Homens que arriscaram a vida para proteger outras. Portugueses. E justos.


Texto Ricardo J. Rodrigues

sábado, 23 de dezembro de 2017

Vouzela: natal entre as cinzas no vale onde tudo ardeu


































O dia amanheceu soalheiro, mas não deixam de estar dois graus negativos no vale da Ventosa. É dezembro e em Vouzela respira­‑se aquele ar limpo que só existe nas manhãs de inverno. Dois meses antes, a 16 de outubro, o fumo era tanto que tudo se tinha tornado amarelo, e espesso, e irrespirável.

O monstro tinha chegado na noite anterior, queimara tudo, matara homens e esperança. E agora é difícil esquecê­‑lo: o bosque permanece apocalíptico, o arvoredo retorcido em carvão, as aldeias em escombros. Como nas cumeadas de São Macário já caiu neve, a natureza parece ter tirado um retrato a preto e branco. E isso é desarmante: não há um assomo de verde para descansar os olhos e no entanto o ar respira­‑se limpo, como se prometesse que a primavera há de voltar.

Na noite de 15 de outubro morreram oito pessoas no concelho de Vouzela, a maioria das quais neste vale. Na manhã seguinte, a Notícias Magazine estava aqui para perceber a decisão terrível que o povo teve de tomar no meio das chamas: fugir e abandonar tudo ou ficar para lutar contra o monstro? Dois meses depois, o cenário é igualmente trágico, mas alguma coisa mudou.

A tragédia trouxe uma união sem precedentes ao vale da Ventosa. Houve vizinhos a acolher em casa os que estavam desalojados, a compartilhar o pouco que lhes sobrava, houve desconhecidos que apareceram com roupa, comida, dinheiro e abraços. No meio dos despojos do fogo, também há esta história de humanidade.

Veja­‑se Alcinda Santos, que nem com forças se sentia para celebrar o Natal. Na manhã de 16 de outubro encontrámo­‑la em desespero. Acordara de noite com barulho de chuva e afinal era o lume. Correra a acordar o povo da aldeia de Ânsara – e a maioria abalou, mas ela decidiu ficar para salvar o que pudesse. Não salvou quase nada.

Perdeu a casa e o gado todo, só lhe sobrou uma vaca e um vitelo que conseguiram escapar­‑se do curral. «A mãe morreu umas horas depois de vocês estarem aqui, tinha respirado muito fumo. Então fiquei só com o vitelinho, que agora é órfão, por isso eu digo que ele é o meu menino.»

A ruína da casa deixa­‑a de coração partido, mas quando se agarra ao bicho a mulher é toda sentimento. «Anda cá meu lindo, anda cá meu amor.» Mudou­‑se para outra casa que tinha na aldeia, que é dela e de mais irmãos. «Isto tem muitos herdeiros e sempre tinha havido discussão sobre quem tinha direito a ocupar a casa. Mas assim que aconteceu isto toda a gente disse que a casa era nossa, veja lá se não é bonito?» Vai afagando o dorso do animal e depois atira: «Desde que aconteceu a tragédia aconteceram muitas coisas bonitas.»

Faltam­‑lhe palavras para agradecer às vizinhas. Foi Maria Rodrigues que veio trazer­‑lhe uma pipa de vinho e um presunto quando percebeu que os tonéis tinham ardido todos, e que os porcos que estavam reservados para o fumeiro tinham morrido no incêndio. Foi Glória Moita, a quem arderam os currais todos, a partilhar com ela as batatas que o monstro se esquecera de queimar. «E depois houve muita gente a ver a reportagem que vocês fizeram e a vir cá trazer­‑me coisas. Roupas, loiças, dinheiro.» Gente que não a conhecia mas que soube ler­‑lhe o desespero.

Da Alemanha chegaram cem euros por transferência bancária, e ela não sabe a quem os agradecer. Veio gente de Aveiro e Setúbal, de Águeda e Santo Tirso. «Há esta senhora que veio trazer-me um cachorrinho porque os meus morreram todos queimados. É o Jamel.»

Ao ouvir o nome, o cão corre para a dona e salta­‑lhe para o colo. Ela ri­‑se – e aquele riso é uma sinfonia inteira no meio do carvão. «Há dias apareceu­‑me aqui com uma árvore de Natal de plástico. Eu não a ia fazer porque os pinheiros estão todos queimados, mas ela insistiu e eu trouxe cá a minha neta para montá­‑la comigo.» É à volta dela que a família vai juntar­‑se na noite da consoada. Bacalhau com batatas e vinho da vizinha Maria «E sabe, vou fazer sonhos de abóbora para oferecer a toda a gente. É para ver se deixamos de ter pesadelos com o incêndio.»

O centro de saúde local tem uma psicóloga que anda de aldeia em aldeia a falar com as pessoas, a confortá­‑las e a avaliar sintomas de stress pós­‑traumático. Fernando Correia, 43, ainda anda em sobressalto, as chamas a atormentarem­‑lhe as noites, a memória da pele a queimar. «A psicóloga tem ajudado muito e os irmãos também.» Como perdeu a casa onde vivia na aldeia de Adamo, também no vale da Ventosa, foi acolhido num colégio religioso de maristas que existe na vila. Também lá vivem Piedade e Fernando Fernandes – ela 77, ele 47. São mãe e filho, ficaram igualmente desalojados.

Para Correia, a noite de 15 de outubro foi particularmente cruel. Estava a dormir em casa quando o vizinho lhe veio bater à porta: «Sai senão morres.» E ele bem tentava escapar, mas as labaredas já tinham tomado conta da habitação. Pensou que ou tentava a sorte pelo meio das chamas ou se despedia deste mundo, e então avançou. As roupas pegaram fogo, mas conseguiu passar.

Despiu­‑se, as fagulhas a continuara queimar­‑lhe a pele, mas conseguiu chegar vivo a casa do vizinho. Tinha o corpo com queimaduras de terceiro grau e precisava de assistência médica urgente. «O meu vizinho ligava para os bombeiros, mas eles não conseguiam passar. Ao fim de duas horas veio o genro dele buscar­‑me. Atravessou o fogo e correu risco de vida para salvar a minha. Não sei como poderei algum dia agradecer-lhe.»

Primeiro foi para o hospital de Viseu, mas o caso era grave e teve de ser transferido para o Hospital de São João, no Porto. No dia seguinte, era reencaminhado para Santa Maria, em Lisboa, cidade onde só tinha estado uma vez e onde não conhecia ninguém.

«Então as pessoas da minha aldeia que tinham familiares na capital contactaram­‑nos para que eles viessem prestar assistência enquanto eu estava na unidade de queimados. Todos os dias tive visitas. Encheram­‑me de doces e fruta.» Emociona­‑se: «Durante a noite não conseguia dormir porque sonhava sempre com o fogo, mas de dia estava sempre distraído e isso ajudou­‑me muito. Estou sem ninguém há tantos anos e naquele mês que passei no hospital nunca me senti sozinho.»

Há uma história de solidariedade para contar no vale da Ventosa, mas também é preciso dizer que, para a maioria dos seus habitantes, a recuperação é demasiado lenta. Só no concelho de Vouzela uma centena de casas foram consumidas pelas chamas – e sessenta eram primeiras habitações. Depois houve o gado, morreram centenas de cabeças. «Isto para não falar dos prejuízos em alfaias agrícolas, tratores, armazéns e celeiros. Numa única noite mais de quinhentas pessoas ficaram afetadas e 73 por cento do território do município foi completamente destruído», diz Rui Ladeira, presidente da câmara municipal.

Os trabalhos de reconstrução ainda não começaram, mas o município decidiu adiantar­‑se ao Estado e criar um programa de recuperação de currais para quem teve prejuízos inferiores a cinco mil euros. «Há muita gente que teve estragos superiores a vinte mil mas prefere aderir ao nosso projeto, porque tem pressa de retomar a vida.»

Para Beatriz Augusto, o seu primeiríssimo desejo não é a casa, é um porco. E isso não é pouco quando se sabe que, aos 70 anos, viu arder a habitação onde tinha nascido – e onde, meses antes do incêndio, tinha instalado todo um novo telhado. «Naquela noite fiquei muito aflita por causa dos animais e por causa dos medicamentos para o coração, que tenho de tomar todos os dias.

As paredes são as paredes, mas consegui trazer a coisa mais preciosa que tinha lá dentro, que era uma fotografia da minha mãe.» Como quase todos, viu­‑se na rua aflita, de camisa de dormir e pantufas. «Eu não tinha forças para combater o fogo, mas se Deus me tivesse dado tempo de abrir a porta da pocilga para o meu porquinho poder fugir, não vivia com esta dor no coração.»

Enterrou o animal no dia seguinte à tragédia, quando a terra ainda fumegava. A sua vida era aquele bicho, mais as quatro galinhas que lhe davam ovos. Sobrou uma, e agarra­‑se a ela como uma criança protege uma boneca. «No início queriam pôr­‑me num lar, mas eu não deixei, então quem é que vinha dar de comer à galinha?»

Acolheu­‑a Paula Ferreira, que mora no outro lado da aldeia de Santa Comba, e prometeu­‑lhe que poderia ali ficar o tempo que fosse necessário. «Agora durmo no quarto da sogra da Paula e até estou mais acompanhada.» Não tem descendência, tinha só o gado.

Beatriz ainda não sabe isto, mas Paula, que perdeu um chibo, 14 cabras e 19 cabritos para o fogo, ainda tem três porcos e é bem capaz de oferecer um deles à vizinha, «para ela não se pôr tão triste». Também arranjou uma árvore de Natal pequenina – pode não haver crianças em casa que os filhos já estão crescidos, mas há uma amiga que tem de esquecer as tristezas por uma noite.

O gesto é bonito, mas talvez não seja preciso cumpri­‑lo. O presidente da câmara diz que tem um fundo preparado para quem perdeu animais. «Abrimos uma conta solidária no concelho e temos lá oitenta mil euros. O resto eu comprometo­‑me a utilizar do nosso orçamento, porque sei o afeto com que estas pessoas lidam com o gado, e sei que a espera só ajuda a desmotivar mais a nossa gente.»

Passaram afinal dois meses sem que houvesse ainda uma intervenção digna desse nome. «O problema é que esperamos pelas diretivas da direção regional do centro para poder reflorestar as matas, para organizar as obras nos currais e nas casas», diz Rui Ladeira, que antes de ser autarca era engenheiro florestal.

«E está certo que assim seja, temos de requalificar a paisagem em toda a região, não apenas no município. Mas o processo tem de ser célere, porque não tarda nada é altura de plantar os fenos, e se isso não acontecer vai ser um ano inteiro perdido para o gado.»

Foi lá no fundo do vale que o monstro provocou a maior infâmia. No cruzamento que dá acesso a Vila Nova de Ventosa foram retiradas as placas que identificam as aldeias mais próximas – em outubro elas estavam todas queimadas, algumas caídas, e agora pura e simplesmente não estão.

Mas o caminho preserva­‑se intacto e a primeira imagem que se vê agora quando se entra na povoação é a do casario queimado, ruínas de pedra e carvão. Só aqui morreram quatro pessoas, uma quando tentava salvar o gado, três que dormiam em casa e não conseguiram sair. À porta do que resta da habitação há um vaso de flores e uma vela com uma imagem do Sagrado Coração de Jesus.

Emília Marques, que na manhã do dia 16 tinha vindo mostrar o palco da desgraça, é quem vai todos os dias regar as plantas – e não é que elas precisem assim tanto, porque os dias têm amanhecido húmidos. «Mas sempre fico aqui a pensar um bocadinho.» Dá uma volta por aquele extremo da aldeia, está tudo igualzinho ao que estava há um par de meses.

«Sou eu que faço isto porque sou a única que consegue cá vir. Ninguém quer cá pôr os pés, muito menos a Camila.» Camila Duarte, 62 anos, perdeu ali dois irmãos e a cunhada – e pediu a Emília que fosse lá a casa, todos os dias, rezar um bocadinho na vez dela. A solidariedade dos vizinhos também se estabelece assim, no alívio da carga que retiram uns aos outros.

«Limpar tudo e reconstruir tudo, é só isso que precisamos», diz agora Camila. «Enquanto estiver tudo em ruínas não conseguimos avançar com a nossa vida.» A ideia é repetida, aldeia a aldeia, até à exaustão. E o presidente da câmara dá razão ao povo. Diz que é urgente intervir nos povoados, mas também nos matos.

«Temos de cortar esta madeira toda que está queimada, e ainda não o fizemos porque não temos para onde escoá­‑la. A maioria das serrações ardeu.» Precisam que o Estado os ajude a despachar tanto carvão dali para fora. Urgentemente.

Apesar da morosidade nas intervenções, o autarca acredita que esta tragédia trouxe uma oportunidade. «Temos de repensar todo o conceito da distribuição da riqueza em Portugal. O Estado tem de garantir serviços públicos nas regiões menos povoadas, tem de incentivar a captação de empresas, tem de proteger e compensar os proprietários para que se crie uma floresta saudável e se ponha termo, de uma vez por toda, a esta calamidade.»

Propõe que as novas medidas sejam pagas com impostos das indústrias poluidoras ou com a fatia do IMI do litoral, por exemplo. «Se não mudarmos nada, estamos simplesmente a fazer xeque­‑mate ao interior do país.»

Mabilde Santos sente­‑o na pele. Ela, que chegou há dois anos de Bragança ao vale da Ventosa, ainda matuta se não é luta demasiada ficar a trabalhar a terra. Depois daquela noite de outubro, a mulher considerou voltar à cidade. «Foi o Miguel, o meu homem, que me disse que tínhamos de arranjar forças onde não as tínhamos, que havíamos de lutar juntos pelos nossos animais e pelo nosso pedaço de terra.» Só se têm um ao outro, afinal, e agora que ardeu o seu pequeno paraíso, estão a arranjar formas de torná­‑lo paraíso outra vez.

A casa sobreviveu, mas as persianas e algumas janelas arderam, por isso chove­‑lhes dentro de casa. Vão­‑se remediando com plástico a tapar a água, o mesmo que têm para cobrir o pouco feno que lhes sobra.

«Da última vez que vocês estiveram aqui eu estava feita num oito, foi o culminar de uma depressão de vários meses», conta ela, enquanto vai arrumando a roupa que ficou a secar na sala. «E sabe que o incêndio me fez levantar outra vez. É como se tivesse batido no fundo e fosse obrigada a reagir.»

O casebre onde costumavam secar o fumeiro ardeu, neste ano não vão poder fazer presunto nem chouriças. E no entanto, assim que se sentam à mesa, Mabilde vai buscar umas que trouxe do supermercado para servir as visitas. Não o querem guardar para o Natal? «Na consoada somos só os dois, havemos de ter o bacalhau e rabanadas», diz ela.

Miguel olha embevecido para a mulher: «Vais fazer rabanadas, amor?» E ela responde que vai, porque sabe que ele gosta, e ele pousa a sua mão na dela. Até ao fim do ano ainda contam recuperar um dos currais que o fogo levou, e tal como combateram as chamas juntos, também é juntos que vão construí­‑lo.

Depois do incêndio, Mabilde e Miguel perceberam um bocadinho melhor que a vida não os tinha deixado sozinhos. Que se tinham um ao outro, e que isso era a única coisa que o monstro não podia levar. A história deles é a história de um vale inteiro que se fez cinza. Do meio de um pedaço de terra negra nasceu uma humanidade que agora permite a sobrevivência.

Mas falta fazer tudo, reconstruir casas e currais, limpar matos e trazer animais para a terra. Está na hora de pôr termo ao luto e arregaçar as mangas. «Voltem, venham cá ver como as coisas vão andando», pede a mulher na despedida. Voltaremos, sim.





Texto de Ricardo J. Rodrigues

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Urgeiriça: «O Estado sabia que o minério matava e deixou-nos aqui para morrer»





























O ano era 1986 e da Ucrânia chegavam notícias de uma tragédia sem precedentes. Um reator nuclear tinha explodido em Chernobyl e, à medida que a taxa de contaminação de cancro disparava no Leste da Europa, a Euratom – Comunidade Europeia da Energia Atómica – apertava as medidas de segurança sobre a exposição à radioatividade.

Portugal tinha aderido nesse ano à CEE e estava obrigado a cumprir as diretivas. Mas nas minas da Urgeiriça, em Canas de Senhorim, o urânio continuava a ser extraído a seco, manuseado sem luvas nem máscaras adequadas, carregado em camiões sem qualquer proteção especial.

Os fatos de trabalho dos mineiros, dos trabalhadores do departamento químico e dos embaladores de minério eram levados para casa para lavar com o resto da roupa – nas mais das vezes à mão, em tanques comunitários.

«Víamos morrer homens com 40, 50 anos, uns atrás dos outros», diz António Minhoto, presidente da Associação dos ex-Trabalhadores das Minas de Urânio (ATMU). «E às tantas a mortandade era tão grande que perguntávamos se o Estado não estaria a negligenciar a segurança de nós todos.»

Foram 170 mortes desde essa altura, segundo as contas da ATMU. «As anteriores a 1986 não podemos contabilizar porque não conseguimos provar que a Empresa Nacional de Urânio (ENU) tivesse consciência de que estava a submeter os funcionários a riscos desnecessários.»

A entrada do país na Comunidade Europeia e consequentemente na Euratom não lhes deixa margens para dúvidas: «Foram dadas indicações ao Estado e o Estado pura e simplesmente ignorou.» Em 1986 havia 350 trabalhadores na Urgeiriça. Metade morreu entretanto de cancro.

Sempre que em Canas de Senhorim corre a notícia da morte de mais um mineiro, Natércia Cancela diz a quem a quiser ouvir: «Desgraçada desta mina que só sabe roubar-nos homens.» Tem 65 anos, é viúva há 23. Um cancro fulminante no pulmão matou-lhe o marido em 1994, quando este tinha 41 anos.

José Cancela trabalhava desde os 16 anos no poço de Santa Bárbara, o maior depósito de urânio da Urgeiriça. «Operava as máquinas de perfuração, que soltavam aquela poeira toda que hoje sabemos ser radioativa. Mas nunca usava máscara ou luvas. A única coisa obrigatória era o fato-de-macaco, que ele trazia para casa para lavar e me punha a água toda preta assim que o deitava à bacia.»

Nem ela nem o marido alguma vez desconfiaram de que a proximidade do minério pusesse vidas em perigo. «Toda a gente achava que a mina era trabalho bom. Recebia-se um bocadinho melhor e era emprego fixo por muitos anos.» A radioatividade não era assunto.

Só muitos anos mais tarde, já depois do encerramento da mina, é que ela começou a encaixar as peças todas. «Se não se tivesse criado a ATMU para levantar a voz, continuaríamos na mesma ignorância até hoje. O Estado conhecia os perigos e nada fez para proteger estes homens. Sabia que o minério matava e deixou-nos para aqui a morrer. E, pior do que isso, tentou sempre esquivar-se às suas responsabilidades.»

Não será bem assim. Em 2015, o atual governo estabeleceu um plano para compensar as famílias dos antigos trabalhadores das minas de urânio que morreram com neoplasias malignas. Os que perderam um familiar com menos de 45 anos estão a receber cinquenta mil euros, aos que tinham entre 45 e 55 anos cabem quarenta mil e, aos maiores de 55, trinta mil euros. «Depois de 15 anos de luta, conquistámos uma parte do que queríamos, mas não tudo», diz António Minhoto. «E foi um processo verdadeiramente trabalhoso.»

Minhoto diz que o Estado nunca admitiu verdadeiramente qualquer culpa. «É por isso que foi definido um plano de compensações e não de indemnizações. Pensámos seriamente em não aceitar esse plano, mas, depois de década e meia de luta, esta era a primeira vez que as nossas exigências eram atendidas.» Em 2016, aliás, os antigos mineiros do urânio foram homenageados na Assembleia da República. «Soube um pouco ao pedido de desculpas que Portugal nunca nos fez. Não era, mas era.»

Para trás estão anos de reivindicações que os sucessivos governos recusaram. «Tivemos de organizar conferências, contratar especialistas, tudo para provar a relação entre o urânio e as mortes. Portugal não queria assumir responsabilidades, nem sequer queria investigar essas responsabilidades», atira.

Acabaria por ser o Instituto de Saúde Dr. Ricardo Jorge a dar-lhes o suporte de que precisavam para estabelecer a responsabilidade do Estado. Num relatório de 2002 sobre mortalidade por cancro nos concelhos do país, Nelas apresentava o dobro dos valores dos restantes municípios.


«Este excesso de mortalidade poderá estar associado à existência da mina da Urgeiriça e da sua escombreira», dizia nesses dias ao Público um dos investigadores, José Marinho Falcão. «Embora não seja possível excluir a existência de outras causas, tudo indica que o problema possa estar aí.»

A partir daí a ATMU ganhou outra força. Apesar de o relatório não garantir certezas absolutas, os sinais da contaminação eram evidentes. «A tal mortalidade excessiva verifica-se não só nos homens mas também nas mulheres», apontava o mesmo investigador. «E isso sugere a possibilidade de exposição ambiental geral, não apenas a quem trabalhava na mina». E é este precisamente o ponto por que a associação agora batalha.

«Estamos preocupados com o crescimento de casos de tiroidismo – não nos mineiros, mas nas segundas e terceiras gerações. E vemos também um número anormal de familiares de mineiros que desenvolvem cancros na traqueia, nos pulmões e no estômago, apesar de nunca terem descido ao poço», diz António Minhoto.

A contaminação, dizem, não se circunscreve aos trabalhadores do urânio. Depois do relatório do Instituto Ricardo Jorge, o governo aceitou criar em 2007 um posto médico para fazer rastreio oncológico aos antigos trabalhadores das minas. Mas só alargou o acompanhamento aos familiares em 2010 e, para muita gente, isso foi tarde de mais.

É precisamente o caso de Emília Costa, 80 anos, que vem a descer a rua no Bairro Novo dos mineiros, agarrada a um andarilho porque mal consegue andar. Ao seu lado, uma gata que parece cadela – chama-se Princesa, acompanha-a por todo o lado. O marido era empacotador na mina, trabalhava no departamento químico.

«Viemos de Lisboa para Canas quando casámos, foi aqui que lhe apareceu trabalho e foi onde construímos uma vida melhor.» Chegaram nos anos 1950, e ele nunca descansou até 2000. «Chegava-me todos os dias a casa coberto de pó de urânio, e eu é que lhe tratava da roupa. Nunca lhe vi uma máscara, umas luvas. Morreu em 2001, tinha 66 anos, e a falta que ele me faz.»

Uma década depois, quando foi chamada às consultas no posto médico, a mulher recebeu a pior das surpresas: tinha cancro e metástases espalhadas por todo o aparelho digestivo. «Andei a fazer quimioterapia e lá tenho conseguido fintar a morte. Mas agora anda a minha filha em exames, e eu só rezo a Deus para que as notícias sejam boas. Que Ele me leve a mim em vez dela.»

Não tem dúvidas de que o mal familiar vem da mina. Pois se bebiam água do poço, pois se tomavam elas conta da roupa do seu homem. «Às vezes penso que devíamos ter ficado em Lisboa, que o meu marido nunca devia ter vindo estragar o corpo para a mina de urânio. Mas como é que podíamos saber? Mesmo os que sabiam nunca nos disseram nada. Estou velha, não me zango com a morte, mas zango-me com os que sabiam que estávamos a morrer aos bocadinhos e nem uma palavra disseram. Se falassem mais cedo, quantas vidas se teriam salvado?»

Oceano Pereira, 67 anos, trabalhou, tal como o marido de Emília, durante três décadas na unidade de tratamento químico da Urgeiriça. Era tratador químico, perdeu a conta às vezes que inalou os gases do ácido sulfúrico com que era feito o composto e as poeiras radioativas que saíam das máquinas de moagem. «Eu era sindicalista e comecei a ler uns livros sobre radioatividade. E foi nos anos 1980 que comecei a perceber que o nosso manual de segurança era obsoleto.»

Por causa dos seus esforços, alguns trabalhadores passaram a usar medidores de contaminação e, muitos anos mais tarde, luvas e máscaras. «Mas isso não servia de grande coisa, porque a poeira era transportada a céu aberto e as partículas espalhavam-se por toda a parte. As águas da lavagem eram descarregadas em barragens e infiltravam-se livremente nos solos. Era a mais pura das irresponsabilidades.»

Oceano escapou ileso à mina, mas ainda hoje se pergunta se a morte da mãe e da mulher por cancro não estarão relacionadas com o urânio. «Nenhuma delas trabalhou na Urgeiriça, mas ambas contactavam com os materiais contaminados que eu levava para casa.» Além disso, nos primeiros anos em que se mudaram para ali não havia rede pública de águas, bebia-se o que vinha do poço – e hoje sabem que os solos estavam carregados de resíduos perigosos. «A radioatividade não se vê, não se cheira nem se sente. Mas esteve sempre aqui, a matar-nos devagarinho.»

A grua do poço de Santa Bárbara – oitocentos metros terra adentro – ainda ali está, rodeada de casas restauradas e que hoje servem para fazer festas e almoços de convívio. Antes eram oficinas e serralharias, armazéns onde se guardava a pedra, moinhos onde era transformada em pó.

«Eu trabalhava ali, nos laboratórios de química.» Carlos Borges, 67 anos, aponta o dedo para uma grande casa lá ao fundo, que não se pode visitar porque a Empresa de Desenvolvimento Mineiro (EDM) está agora a fazer ali obras de isolamento. Ao lado, cercados por arame farpado e vigiados por seguranças privados, jazem ainda 150 toneladas de composto de urânio, um produto altamente radioativo que ainda não tem destino assegurado.

Das 12 pessoas que trabalharam com Borges no laboratório de química, metade perdeu a vida para o cancro. «Havia uma mulher a quem só aos oito meses de gravidez lhe entregaram um avental para se proteger dos químicos. Havia mineiros que levavam pedras de urânio para casa sem nunca pensarem que estavam ativas. Houve primos que eu trouxe para trabalharem aqui sem nunca me passar pela cabeça que os estava a trazer para a morte.»

Emociona-se, numa confusão de sentimentos. «Isto foi a minha vida, sabe? Foi aqui que me fiz homem. Não dá para explicar o que uma pessoa sente quando percebe que um lugar que se amou a vida toda afinal está amaldiçoado.»

Numa coisa toda a gente concorda: a Urgeiriça não era só uma mina, era uma aldeia e era um orgulho. Quase toda esta gente estudava na escola primária do complexo mineiro, fazia compras na mercearia que ali vendia tudo, convivia na Casa dos Trabalhadores, namorava, casava, tinha filhos ali. Em 1954 foi até construído o Bairro dos Mineiros, com casas pequenas mas confortáveis, que nos anos 1980 teria uma segunda fase de apartamentos modernos. Helena Albadia mora até hoje numa vivenda antiga, uma das oitenta que precisam de intervenção.

É que os primeiros edifícios foram construídos com material da mina. Barrotes de madeira cheios de minério, pedras de fundação com urânio ativo, algumas manchadas pelo composto, que tem o dobro da radioatividade. «Andaram aqui a medir os níveis de perigo com uns aparelhos e agora dizem-me que a casa não está boa.» E isso é um drama para a mulher, porque foi ali que ergueu o monumento às suas memórias, e foi ali que lutou pela vida.

«O meu marido morreu com 38 anos, teve um cancro que o matou de um sopro. E eu fiquei aos 39 com nenhum trabalho e dois filhos nos braços. Como sou do Porto, nunca tive família que me ajudasse.» As crianças começaram a trabalhar na adolescência, ela somava turnos nas limpezas – mas conseguiu criar a prole, e fê-lo naquela casa. A EDM promete recuperar as casas e ela já não sabe o que sentir: se medo se amor às suas paredes. «Se ao menos ainda aqui tivesse o meu marido para me ajudar a decidir», choraminga, e depois revolta-se: «Danada desta mina que me roubou a felicidade toda.»

URÂNIO EM PORTUGAL:
HISTÓRIA DE UM NEGÓCIO DANOSO

Em 1907 foram descobertos jazigos de urânio na região da Guarda. Seis anos depois abriram as minas da Urgeiriça, em Canas de Senhorim (Nelas). Até 1944 o urânio não tinha valor comercial e explorava-se sobretudo o rádio, mas a partir de 1951, com a Guerra Fria e a corrida ao armamento nuclear, começou a produção de concentrados de óxido de urânio e a indústria ganhou novo fôlego.

No auge da produção, nos anos 1960, havia 61 minas nos distritos de Viseu, Guarda, Castelo Branco e Portalegre. Mas todo o tratamento e transformação eram feitos ali, na Urgeiriça. Todas as outras minas fecharam em 2000, depois de a queda do Muro de Berlim pôr termo à necessidade de urânio. A Urgeiriça foi a última a encerrar, em 2004.

A exploração de urânio em Portugal esteve sempre entregue a um único proprietário. Primeiro foi um grupo francês liderado pelo banqueiro Henrique Burnay, que daí a uns anos fundaria o Banco Fonsecas & Burnay. Em 1929 foi constituída a Companhia Portuguesa de Radium, de capitais ingleses, que converte duas depois a exploração de rádio em urânio.

A má gestão inglesa leva Salazar a apropriar-se da empresa e a criar a Junta de Energia Nuclear, que depois do 25 de Abril muda de nome para Empresa Nacional de Urânio. A cada mudança, uma quebra brutal no número de trabalhadores: nos anos 1950 chegavam aos 1500, no final da década de 1980 já eram pouco mais de 350. A empresa começa a avançar com um processo de despedimento na década seguinte, até à extinção definitiva há 13 anos.

Cinquenta milhões de euros é quanto o Estado já pagou à Empresa de Desenvolvimento Mineiro para resguardar ambientalmente as regiões onde estavam as minas de urânio portuguesas.


Os lugares mais perigosos – que tinham escombreiras, depósitos e barragens – estão tratados, mas falta a descontaminação de vinte poços. O Laboratório Nacional de Proteção Radiológica admite que ainda são feitas descargas de água contaminada na bacia do Mondego, mas que os níveis de radioatividade não representam perigo para a vida humana.



Texto Ricardo J. Rodrigues