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domingo, 5 de novembro de 2017

A tempestade perfeita na Galiza





































A1 de outubro, os postos de vigia das florestas fecharam em Portugal. E, na Galiza, a época de incêndios também terminou. Por isso, mil bombeiros florestais, encarregues da prevenção, foram mandados para casa. Dias depois, manifestaram-se em Santiago de Compostela, numa altura em que os serviços de meteorologia avisavam que o tempo quente e seco estava para ficar. Exigiam que os postos de trabalho fossem prolongados e a Xunta da Galiza cedeu ao protesto: prometeu que voltariam ao terreno, mas só a partir de 17 de outubro.
Quarenta e oito horas antes de o “reforço” voltar aos montes, o Norte de Espanha era varrido por um exército de lume. A 15 e 16 de outubro, com o Centro e o Norte de Portugal submersos numa gigantesca nuvem de fumo, 269 incêndios varreram a Galiza, causando quatro mortos, destruindo uma dezena de habitações e queimando 49 mil hectares em tempo recorde. Na freguesia de Chandebrito, aldeia com pouco mais de 500 habitantes que pertence a Nigrán, nos arredores de Vigo, só sobraram dois hectares de floresta. Houve quem perdesse tudo e Angelina Otero e Maximina Iglesias, 78 e 86 anos, morreram queimadas dentro de uma carrinha, a 500 metros do povo, quando tentavam fugir, escoltadas pela polícia. Despistaram-se numa estrada de montanha ladeada por eucaliptos e que ganhou o nome de “carretera de la muerte” [estrada da morte].
Nesse domingo, deu-se a tempestade perfeita. Miguel Ucles, o presidente da Plataforma de Bombeiros Públicos da Galiza, recorda como a região era um barril de pólvora: “O vento soprava a mais de 40 kms/hora, a humidade era inferior a 20% e a temperatura estava acima dos 30 graus”. A estas condições, ideais para a propagação de incêndios, juntaram-se, segundo o bombeiro, a “desmobilização de meios” e “o ignorar, por parte das autoridades, dos avisos meteorológicos”.
Rosa Mosquera, professora da Escuela Politecnica de Santiago de Compostela e que integra um painél criado pelo governo espanhol para estudar as alterações climáticas, acrescenta à lista outros ingredientes fatais. Portugal e a Galiza têm primaveras húmidas, que “favorecem a acumulação” de combustíveis nas florestas, votadas ao abandono e “sem limpeza adequada” desde a década de 1980. Na Galiza como em Portugal, o fogo é a vingança dos montes sós.

Sem comando nem comunicações
Como Pedrógão Grande, a aldeia de Chandebrito foi “apanhada” por um fenómeno raro: a junção de dois incêndios. Um fogo desceu pelo Monte do Castro; o outro veio de repente pelo Monte Gallinero. Bastaram três quartos de hora para que só as casas – e nem todas – escapassem à fúria das chamas. Ficou noite, voaram bolas de fogo pelo ar, a água esgotou e só havia dois bombeiros no povo. O cenário multiplicou-se por toda a Galiza e, nos dias seguintes soube-se, aos bochechos, que quase tudo falhou no socorro.
“A polícia e os bombeiros pareciam muito nervosos”, descreve Víctor Otero, da Asociación de Veciños de Chandebrito – a associação comunitária que gere os terrenos e montes da freguesia. A percepção é confirmada por Miguel Ucles, que andou no terreno e que recorda que no dia 15 foi ativado o nível 2 de emergência, mas só no papel. “Não chegou a ser montado qualquer posto de comando para coordenar as operações”, descreve. Assim, cada corporação – na Galiza há cerca de dois mil bombeiros, entre públicos e privados – andou “às cegas” e “por sua conta”.
E as comunicações também não aguentaram. Em Espanha não há SIRESP, bombeiros e “civis” usam linhas telefónicas comuns para comunicar. Mas, nesse dia, só havia quatro operadores no 112 da Galiza para atenderem uma avalanche de telefonemas, apesar de o call-center ter capacidade para 40 pessoas trabalharem em simultâneo. “O meio que melhor funcionou e nos permitiu organizar foi o whatsapp [aplicação de telemóvel para trocar mensagens via internet]”, conta Miguel Ucles.  A decoordenação foi de tal ordem que, por volta das 20:00 horas de domingo, a cidade Vigo estava rodeada de chamas e o plano de emergência não foi ativado. “Na realidade, nunca saiu do papel desde que foi criado, em 2014”, denuncia o bombeiro.

Ajudas  prometidas ainda não chegaram
Na Galiza como em Portugal, as ajudas e as soluções avançam devagar. Ontem, o jornal “La voz de Galicia” avisava que o Monte do Castro, junto a Chandebrito, está em risco de derrocada por causa das chuvas que entretanto chegaram. A Xunta terá sido alertada para a ameaça há mais de uma semana, mas ainda nada foi feito. Víctor Otero conta que, nos dias a seguir ao fogo, se espalhou palha seca pelos montes, para evitar a erosão dos solos. Mas a ideia rapidamente foi abandonada: “Percebeu-se que ajudava à propagação dos reacendimentos”.
Quase um mês depois, as famílias das vítimas ainda não foram indemnizadas.
Rafael Iglesias enterrou a mulher, Maximina, na quinta-feira a seguir ao incêndio. No cemitério de Chandebrito, os campos ainda fumegar, recebeu as condolências de responsáveis da Xunta da Galiza e do Ayuntamiento de Nigrán. Anunciaram-lhe que ia receber 75 mil euros. “Nunca mais disseram nada desde então”, conta. E Benigno Iglesias, sobrinho e herdeiro de Angelina, também não voltou a ser contactado.  Os dois culpam a Policia Nacional – que deu as ordens para que as aldeias fossem evacuadas – pelas mortes. “Obrigaram as pessoas a sair, sem rumo, e orientaram os carros para a estrada, que estava em chamas”, garante Rafael.
Víctor Otero,  da Asociación de Veciños, confirma que houve “uma certa obsessão da polícia em evacuar a todo o custo”. E Angel Martinez, que vive em Pracíns, uma anexa de Chandebrito onde arderam duas casas, recorda que quando seguiu as instruções da polícia, saiu de carro, sem rumo, “tomando a direção que parecia não ter tanto lume”. Houve quem resistisse e se tenha recusado a sair, como Leopoldo Prado, que se escondeu em casa. Esperou que todos os vizinhos e a polícia saíssem em cortejo e, com as chamas a rondar a casa, apagou o que pôde com uma mangueira. Salvou a vivenda, mas não evitou a que a vinha ardesse. Por essa altura, e na zona mais baixa de Pracíns, a casa de Victoria Figueiroa e Noémi Fialho, derretia por dentro. Literalmente: a vivenda não ardeu por fora, mas queimou por dentro. Mãe e filha vivem agora na casa de uma família de acolhimento e esperam a visita de peritos para a avaliação dos estragos. “Sem pressa. Na Galiza há um ditado que diz ‘cosas de Palacio van despacio’ e que significa que as burocracias levam tempo”, queixa-se Victoria.

O azar de mãe e filha foi viverem numa das primeiras casas da povoação, rente à floresta. O vizinho Angel, que há 20 anos deixou Vigo para viver na aldeia, está convencido de que os incêndios são uma espécie de vingança dos montes, votados ao abandono. “A floresta que nos atraiu transformou-se no veneno que nos vai matar”.


Texto: Rosa Ramos

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ficar para enfrentar as chamas








































Alcinda Santos acordou com o monstro. Pouco passava da meia-noite e o vento assobiava bravo, ao fundo parecia-lhe ouvir o crepitar das árvores mas, que raio, o bosque estava tão longe. Levantou-se, foi à porta e quando a abriu lançou um grito: «Ai que morremos aqui todos, ai os meus ricos filhos.»

As labaredas tinham galgado o pinhal e engoliam livres as casas, a sua estava já tomada num canto. O marido e o filho despertaram com o pânico, tudo para a rua de pijama, descalço, tentar contornar o fogo enquanto ele deixasse.

Alcinda e o filho, Nuno, correram a bater às portas dos vizinhos, o monstro tinha chegado de mansinho e ninguém dera por ele.

Na aldeia de Ânsara, em pleno vale da Ventosa, vivem 19 pessoas, quase todos fugiram de carro. Ela teve um minuto para decidir se ia ou ficava. Ficaram oito braços para tanto fogo. Ela, o filho, dois vizinhos. Chamaram uma outra vez os bombeiros, ninguém podia acudir-lhes.

As condutas de água tinham rebentado, com os poços sedentos pela seca não havia nada para combater o incêndio. Um quilómetro abaixo do povo havia uma cisterna, então começaram a encher baldes e galgar a colina para tentar pelo menos salvar a sua casa. Quando amanheceu, ainda andavam naquilo, a carregar baldes e enxotar as chamas.

Foi só quando parou que a mulher de 60 anos percebeu tudo o que perdera. Chorou pelo sofrimento dos seus bichos, quase todos carbonizados no curral. E pela ingratidão do verão mais trabalhoso de que tinha memória, a concluir jornas ao calor, e que afinal não lhe valera de nada. Mas aquele minuto em que decidira ficar tinha-lhe salvo a casa. E, no fim de tudo, estava viva. «Foi Deus.»

O mesmo não se pode dizer da aldeia de Vila Nova, uns quilómetros abaixo, onde quatro pessoas perderam a vida para o mesmo incêndio. Ainda há um desaparecido. Os vizinhos bem tentaram salvá-los, mas o monstro era demasiado forte e enfrentá-lo ali era sentença de morte.

E fugiram, que mais podiam fazer? «Acha que abandonar a minha casa é fácil? É a minha vida toda naquelas paredes», diz Emília Marques, 73. «O fogo obriga-nos a tomar uma decisão muito rápida: ou fugimos e tentamos salvar a vida, ou arriscamos a morte para salvar o que demorámos uma vida inteira a construir.» Como num jogo de poker, arrisca-se – e às vezes perde-se.

Horas antes do anúncio das primeiras mortes, o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, pedia proatividade às comunidades rurais: «Não podemos ficar todos à espera que apareçam os bombeiros e os aviões para resolver o problema. Temos que proteger-nos.»

Rui Ladeira, presidente da câmara de Vouzela, gostaria que Jorge Gomes viesse dizer isso às gentes do vale da Ventosa: «A população do interior é envelhecida, não tem grandes condições de mobilidade nem formação para o combate aos incêndios.»

Muitas vezes, acrescenta, o fogo é tão rápido que nem sequer tem a decisão de ficar ou partir. «O que os bombeiros fizeram ontem à noite foi tentar garantir que as populações de Vouzela tivessem pelo menos uma opção.»

No terreno não estiveram mais de 50 homens para combater um fogo com três frentes e progressão rápida. «Às tantas percebemos que tínhamos dois vales com várias aldeias a ficar completamente rodeadas e tivemos de concentrar esforços ali para que pelo menos fosse possível sair», diz Joaquim Tavares, comandante dos bombeiros de Vouzela.

À Ventosa os carros já não podiam chegar, ficou entregue à sua sorte. Arderam casas em todas as aldeias, perderam-se vidas e das estradas a única paisagem que se alcança agora é um fim de mundo negro e fumegante.

Às vezes a decisão tem tempo para ser tomada. É isso que está a acontecer na aldeia de Paços de Ariz, também em Vouzela. Às duas da manhã apareceu a GNR, o incêndio estava bravo e não tardaria a chegar à povoação. Foi dada ordem de evacuação, quem ficasse fá-lo-ia por sua conta e risco.

«Metemos os mais velhos e os que não se podem mexer nos carros, toda a gente tem família aqui à volta», diz António Carvalho, 68 anos, nascido e criado na terra. Ele, a mulher e o sobrinho ficaram, mais uma mão cheia de vizinhos. Agora estão ali, a ver o mostro beijar-lhes os calcanhares.

Durante a noite, começaram a atar a urze em ramadas largas, caso falhe a água ainda podem dar vassourada aos pequenos focos. Ligaram mangueiras a todas as torneiras, disponíveis e viraram-nas para o ribeiro seco, de onde sabem que chegarão as chamas.

Os telhados molhados, panos encharcados na cabeça e máscaras a tapar narizes e bocas. «Se correr para o torto resta-nos fugir para os carros.» Estão todos apontados à estrada, para que ninguém precise de perder tempo em manobras.

«Quem fica para lutar e ganha nunca ganha verdadeiramente», diz Mabilde Santos, que não consegue parar de chorar. A sua casa é uma das mais isoladas que há na Ventosa – e esta noite o marido, sapador florestal, foi-lhe ensinando as táticas da guerra. «Dá-lhe mangueirada aqui, agora varre dali».

A habitação resistiu, apesar de ter ardido todo o piso térreo onde armazenavam lenha e das persianas das janelas terem derretido com o calor. Os animais foram-se, «e o carro só se salvou porque fui estacioná-lo no largo onde está a estátua de Fátima e Nossa Senhora quis protegê-la».

Mudaram-se para Vouzela há dois anos, depois de se conhecerem numa plantação de mirtilos em Bragança e se apaixonarem à primeira vista. São jovens, fartos da cidade, aquela casa no meio do pinhal era todo um projeto de vida.


«Lutámos tanto por isto e ontem à noite, quando o fogo chegou à escada, eu só pensava se valia a pena salvá-la.» Que paraíso sobra quando o sonho em volta ardeu? Ficar para lutar contra o monstro, mesmo que se ganhe a batalha, não significa vitória na guerra.

Texto de Ricardo J. Rodrigues