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segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Na Bulgária, caçar refugiados é um desporto





























Viagem à fronteira mais ignorada da Europa, onde há grupos paramilitares de patrulha, campos de refugiados que são um desespero, deportações e detenções inexplicáveis. Do sul da Bulgária, percebe-se um continente inteiro. Os refugiados são para manter longe de vista. Custe o que custar.


A cinco minutos de Yambol, uma pequena cidade búlgara 300 quilómetros a sudeste de Sofia, e a 60 da fronteira turca, há uma estrada esburacada que não liga nem atravessa quaisquer localidades, nem sequer serve de atalho para nada, muito menos alberga casas, fábricas ou armazéns.
Ao longo de quase três quilómetros de caminho, a única coisa que aqui se vê é um grande cemitério de camiões TIR, onde uma dezena de homens passa o dia a desmontar para-choques e peças de motor. Uma sucata. E no entanto não é só uma sucata.
“Hoje é um bom dia para ir à caça”, e Dinko Valev, 31 anos, avalia o céu – está mais limpo do que uma rua escandinava. É ele o dono deste ferro-velho e é com o dinheiro que aqui fatura que financia o exército paramilitar de que é líder – e que denominou de Movimento Nacionalista Búlgaro.
“Comecei sozinho há três anos a vigiar a fronteira de moto todo o terreno. Agora somos 50 homens, temos sete tanques e um helicóptero.” O que é que fazem exatamente? “Caçamos refugiados, na Bulgária é um desporto”, diz ao DN. “Chamem-lhe migrantes, chamem-lhe refugiados, chamem-lhe o que quiserem, que para mim eles são potenciais terroristas que colocam a Europa em perigo. Não os podemos, nem vamos, deixar entrar.”
Dinko tornou-se famoso no seu país há dois anos quando, depois de entregar 12 sírios às autoridades, o canal de televisão bTV o apresentou como “o super-herói que está a lutar pela pátria.” Dias depois, o primeiro-ministro veio agradecer publicamente a ajuda dos civis que apoiam a polícia na monitorização da fronteira: “O vosso contributo é bem-vindo”, disse então Boyto Borisov.
Em 2016, Bruxelas pagou seis mil milhões de Turquia para travar o fluxo de refugiados para a Europa, depois de quase dois milhões de pessoas terem entrado na União no ano anterior. E foi neste momento que os grupos paramilitares ganharam espaço para crescer. “A Bulgária construiu um muro e passou a impedir entradas sem atender a causas humanitárias nem
pedidos de asilo”, diz Martin Dimitrov, jornalista do diário búlgaro 24 horas e especialista em questões de imigração. “A palavra de ordem agora é expulsar, doa a quem doer.”
Dinko Valev e o seu exército têm hoje carta branca para caçarem os refugiados que quiserem. Na sucata que também é centro de operações, o homem apressa-se nos contactos, amanhã é dia de ir ter com as patrulhas. Um bom dia para a caça, como ele disse antes. Há hoje menos gente a passar a fronteira? “Há cada vez mais.” Mesmo com o muro? “Eles cortam o arame, mas nós não os deixamos entrar.” O que fazem aos refugiados que encontram? “Entregamos à polícia, mas se resistirem damos-lhes uma sova.” Já mataram alguém? Uma pausa, Dinko não responde. A conversa acaba aqui.

A fronteira mais esquecida


Rezovo não tem mais de uma vintena de casas, mas tem mais de uma centena de bandeiras búlgaras penduradas nas janelas, nos postes elétricos, nas árvores. A aldeia tem um monumento que assinala onde estamos: no extremo sudeste da União Europeia. Um pequeno ribeiro, altamente vigiado pela polícia marítima, separa a Bulgária da Turquia. Na margem
norte, mesmo encostada à água, há uma enorme vedação, e essa é uma imagem estranha – um curso de água murado, para que ninguém o atravesse.
“Temos a fronteira mais bem guardada da Europa”, orgulhava-se em junho deste ano o primeiro-ministro búlgaro no Parlamento Europeu. “Proponho que a Europa feche todas as suas fronteiras como nós fechámos, para que mais nenhum refugiado possa entrar.” Estes 267 quilómetros de raia com a Turquia estão vedados por arame farpado, de três a quatro metros de altura. Há unidades policiais em todas as aldeias do sul e há as milícias civis, toleradas pelo governo de Sófia.
Quando toda a gente estava a olhar para os refugiados que atravessavam o Mediterrâneo pela Itália e sobretudo pela Grécia, ou que eram travados por terra na Croácia e na Hungria, a Bulgária foi-se mantendo debaixo do radar – apesar de lhe pertencer a maior fronteira terrestre com a Turquia. Entre os refugiados, no entanto, aquela passagem era conhecida
como a mais cruel.
Keyhan Yusefi, um jornalista curdo de 37 anos, decidiu há três anos que só tinha uma hipótese de se manter vivo: chegar à Europa. “Quando o Daesh chegou ao Iraque, os jornalistas tinham a cabeça a prémio e eu não era exceção”, conta agora ao DN. “No dia em que fui à escola buscar o filho de um colega meu que tinha sido assassinado, tomei uma decisão. Tinha
chegado a hora.”
Largou a pé de Duhok e atravessou a fronteira com a Turquia – 12 horas, sem problemas de maior. “Depois meti-me num autocarro para Istambul e acabei por ficar lá um mês, a preparar o salto.” Na noite de 28 para 29 de dezembro de 2015 chegou ao norte do país, tentou entrar por Rezopo. “Lembro-me que nevava intensamente e que fui perdendo de vista as pessoas que tentavam passar comigo. Muitas foram apanhadas na fronteira e mandadas voltar para trás. Morreram de frio na floresta.”
Ele e mais três rapazes conseguiram passar a rede. Começaram a subir os montes quando lhes apareceu um grupo de homens mal encarados – era os guardas do Movimento Nacionalista de Dinko Valev. “Eu só gritava que era jornalista, mas fui espancado até não ter forças para resistir. Depois entregaram-me à polícia.” Durante três noites não o deixaram dormir, mantinham-no acordado à base de murros e pontapés.

“Depois prenderam-me dez dias num campo de refugiados, de onde não podia sair.” Lembra-se que as casas de banho estavam imundas, que os chuveiros não funcionavam, nada. “Eu queria salvar-me na Europa e afinal a Europa tratava-me como se eu nem sequer fosse humano.” No primeiro dia em que lhe foi dada permissão de saída do campo, fugiu.
Durante três meses percorreu o continente oculto até chegar à Suécia, onde tinha família. Aí, entregou-se às autoridades. “Mandaram-me de volta para a Bulgária porque era aqui que tinha o primeiro registo. Então voltaram a espancar-me e torturar-me. Mas o facto de ir para a Suécia permitiu que eu tivesse uma oportunidade de pedir de asilo.” Se receber resposta positiva, garante, sairá imediatamente do país.
Em março deste ano, a comissão parlamentar europeia de Liberdades Civis visitou a fronteira da Bulgária com a Turquia. O relatório final é bastante claro: “Os abusos dos direitos humanos mantêm-se persistentes.” Além dos casos de espancamento e tortura, “agora os refugiados veem-se empurrados para trás sem oportunidade sequer de fazer um pedido de asilo.” Martin Dimitrov, jornalista búlgaro, resume o estado das coisas neste momento: “Batemos nuns quantos refugiados e deixamos que muitos morram. Os outros, simplesmente, tratamo-los mal.”

Um campo para fantasmas


Muros altos com vedações eletrificadas. Três blocos de edifícios robustos, com as paredes descascadas. Um posto de vigia com vista para o enorme terreiro onde um rapaz sírio, vestido com uma camisola de Cristiano Ronaldo, e esta ainda é do Real Madrid, se torna todas as tardes estrela local de futebol. Isto é o campo de refugiados de Harmanli, o maior do país, a 40 quilómetros da fronteira turca. Isto também é uma antiga prisão, convertida em albergue improvisado em 2015. Isto continua a ser uma prisão, dizem os que lá vivem. Até ao final de 2016 a Bulgária tinha acolhido oficialmente 60 mil refugiados (o governo calcula que um número 10 vezes superior tenha atravessado o país sem registo) e mais de 25 mil pessoas foram colocadas aqui, apesar das instalações não terem capacidade para mais de sete mil. Na vila de Harmanli, que não tem mais de 10 mil habitantes, as tensões começaram a notar-se. Uma das medidas mais simbólicas foi o facto de os búlgaros proibirem os refugiados de pendurarem publicamente – em árvores e estações de autocarro –o anúncio dos seus mortos.
No outono de 2016 a extrema direita organizou uma série de manifestações a exigir o encerramento do campo e a deportação dos estrangeiros. Em novembro, houve um motim entre os refugiados, que se queixavam da falta de condições sanitárias e de estarem presos sem culpa formada. A polícia marchou sobre a multidão, centenas de estrangeiros foram detidos e, depois, deportados.
Saleha Naimi é um dos 264 fantasmas que sobram em Hamanli. É essa a alcunha que os habitantes da vila dão hoje aos poucos refugiados que ainda permanecem no campo – são sobretudo crianças que chegaram aqui sozinhas e gente à espera de resposta a pedidos de asilo e reunificações familiares. Na Bulgária, em 90 por cento dos casos, diz o relatório publicado no início de agosto pela Fundação de Acesso aos Direitos, uma ONG que defende os direitos civis dos refugiados, esses pedidos são recusados.
Afegã, 60 anos, Saleha era professora e, precisamente por ser mulher, instruída e ensinar outras mulheres a escrever, tinha a cabeça a prémio pelos Taliban. “Eu morava numa das zonas mais conservadoras do país e tive de mudar-me para Cabul. Nós chamamos-lhe Caboom, por causa das bombas e dos atentados.” Ali, apesar de tudo, podia dar aulas. Mas as coisas
complicaram-se no final de 2015, quando o marido quis casar a sua filha, de 16 anos, com um homem de 64.
Pegou imediatamente na rapariga e fez-se ao caminho. Com a ajuda de alguns trabalhadores internacionais chegou ao Irão e daí passou de autocarro a fronteira para a Turquia. “Depois estive quatro noites na floresta, sem qualquer comida e apenas um cantil de água, até conseguir entrar na Bulgária.” Foi apanhada pela polícia na fronteira e nem quiseram saber a sua história. “Fiquei presa, em total isolamento, durante 22 dias.” Só quando saiu percebeu que estava em Hamanli.
Como tinha uma filha menor pôde pedir asilo. Está há dois anos e meio à espera da resposta. No início de 2017, à medida que o campo se esvaziava, pediu para ocupar uma das salas livres e fazer ali uma escola para as crianças refugiadas. “Quando comecei tinha 200 alunos, agora não são mais de 20. Não tenho qualquer apoio ou materiais de trabalho. Mas, se não fizer este esforço, estas crianças – que estão sozinhas - não vão ter quaisquer ferramentas para se defender do mundo.” Ivan Cherescharov, presidente da Caritas búlgara, diz que não há hoje qualquer apoio para os três mil refugiados que sobram no país. “Somos nós que damos 100 por cento das ajudas, mas o governo deixou de nos dar qualquer financiamento.” O relatório da Fundação de Acesso aos Direitos também não deixa dúvidas: “Os refugiados não têm acesso a direitos básicos e estão a ser expulsos da Bulgária em total desrespeito pelos direitos europeus.” O Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados já condenou este abandono búlgaro. Ivan diz que está em marcha um plano europeu: “Se ninguém os vir, eles não existem.”


Não voltarás


Hoje houve várias pessoas a receber resposta aos seus pedidos de asilo e o desespero toma conta dos fantasmas de Hamanli. Ahmad Waheed e a sua mulher Shaimamuri estão preocupados. Têm ambos 70 anos e o seu pedido de estatuto foi rejeitado. “Voltar ao Afeganistão não é uma opção”, diz o homem num inglês sem mácula. “Mas também não temos forças para andar a tentar passar a fronteira outra vez.”
Muitos dos que são deportados tentam voltar a entrar na Europa, mas a maioria acaba por ficar na Turquia, onde há 3 milhões de refugiados. “O problema é que na Turquia entram grupos radicais que também nos perseguem”, diz o homem. O seu crime não foi seu, foi do filho: foi tradutor das tropas britânicas durante dois anos. O rapaz foi morto pelo Daesh e os velhotes fizeram-se à estrada. Pensaram que Londres podia acolhê-los, mas nem o Reino Unido, nem a Bulgária os querem. Agora não sabem o que fazer.

Num quarto ali ao lado há uma família que se abraça num longo choro. Hamid Mohammadi, um sírio de 35 anos, acabou de receber ordem de deportação para casa – consideraram a sua migração uma questão económica. Sumaya, 28, é a sua mulher. Ela vai poder ficar com os dois filhos do casal – Suhil, de 6, e Avshia, de 3. Mas agora hesita: “Volto contigo, a nossa família lutou demasiado para se manter unida.”
Vieram há dois anos, quando elementos do Daesh começaram a ameaçar Hamid por trabalhar para uma empresa de cimento ucraniana e, aos olhos do grupo terrorista, estava a compactuar com os infiéis. “Não foi fácil atravessar a Turquia com uma criança de um ano e outra de quatro. Mas o pior foi chegar à fronteira.” Pagaram três mil euros a um passador que os fez caminhar durante 10 horas até passarem a vedação. “Quando chegámos à Bulgária, ele disse que afinal o preço era de oito mil euros. Disse-lhe que não tinha dinheiro e ele disse que ia ficar com os meus filhos para os vender.” Ao seu lado, Sumaya chora e confirma tudo.
Hamid começou a gritar: “Help, help, help.” E diz que teve uma sorte danada porque, passados uns minutos, apareceu um grupo de vigilantes – o homem não consegue determinar se era o movimento de Dinko Valev ou qualquer outro. “Deram-me uns pontapés, fiquei preso um mês, mas pelo menos a minha família permaneceu junta.” Agora, a Europa que eles acreditaram poder mantê-los a salvo é a Europa que os obriga a separarem-se. “Há um provérbio no meu país que diz que, se gritares, alguém acabará por ter ouvir”, diz Sumaya. “Mas como é que podemos ser ouvidos se nos empurram de volta para o deserto?”


Texto de Ricardo J. Rodrigues




quarta-feira, 15 de agosto de 2018

EN2: A espinha dorsal do interior de Portugal


















































Começa-se numa rotunda de Chaves, num rotundo zero, o meco está junto ao jardim da cidade, é o marco quilométrico original, diz só N2 e tem um zero. Tem mais uma centena de autocolantes de motards colados, cores berradas sobre branco, não se vai ver até final, 738 quilómetros depois, Chaves-Faro pela Estrada Nacional 2, um marco tão estrepitoso, tão famoso, tão contrastante com o seu gémeo final.

Quem faz a viagem da nostalgia, atravessar o país continental na estrada que liga norte e sul, a nacional que é uma coluna vertebral encastrada no meio de Portugal, uma rota turística crescente, um segredo que era só de motards, quem a percorre tem que subir e começar ali.

Qualquer dia que seja, sempre manhã cedo, há ali motards a parar. Parou agora um par, faz amanhã oito dias, eram nove da manhã, é a moto preta de Joaquim Sandeu, leva a mulher Ana Paula atrás, vêm de Vilar de Mouros, vão demorar quatro dias a descer, vão na Suzuky Intruder 800 cc, eles irão devagar.

E logo a seguir chega outro tipo de motard sem motor, o ciclista, e este é especial. “Sou Osvaldo Carvalho, sou Polícia Municipal, vim agora de Cabeceiras de Basto, saí às seis da manhã, 100 quilómetros a pedalar”. Faz agora um ano que ele desceu a EN2, foi ali marcar a data, “vou já sair de seguida, mais 100 quilómetros, estou em Cabeceiras à hora de almoçar”.

Por que é que Osvaldo é especial? “Fiz a estrada em 26 horas seguidas, 738 quilómetros a pedalar, fui com mais três roladores de Basto, parámos de cinco em cinco horas, e para almoçar e jantar”. E ele diz mais de si: “Devo ser o português com mais quilómetros nas pernas, faço mil por semana, quatro mil por mês, tenho tudo registado no Strava, é uma aplicação, vá lá ver, é verdade, é um vício que ganhei, pela minha saúde é verdade.” E Osvaldo vai, monta a sua Mérida Reacto, uma bicicleta de quatro mil euros que só pesa cinco quilos, e sai dobrado a esvoaçar.

Dali até Santa Marta de Penaguião, passando Vidago, Pedras Salgadas, Vila Real, a Cumeeira, é a paisagem do Douro que vai encantar, a sinuosa EN2 acima dos socalcos, a vinha encarapinhada em tererés, filas paralelas, a paisagem a serpear. Há gente encantadora em Santa Marta, a vila está em festa, a missa em frente à Câmara dá na TVI, há mantas boas rendadas nas sacadas, o autarca Luís Machado está inchado, vai haver cabrito assado, veio o bispo, há douros brancos e tintos e vinho do Porto para brindar.

O feliz edil é o homem da estrada, foi eleito presidente da Associação de Municípios da Rota da EN2, já lá estão 29 municípios, hão de ser os 35 que a EN2 atravessa até ao sul, ele quer fazer daquele traçado uma vantagem turística e comercial real, com sinalética, produtos estruturados, capacitação de parceiros, vantagens para todos, produtores, turistas, consumidores, uma alternativa autêntica ao sol e praia que valorize, mas mesmo, o interior.

Saímos dali enfartados, convencidos, é contagiante este autarca, e um cicerone leva-nos a subir a Santa Bárbara, é o edil da Junta da Cumeeira, Fernando Gonçalves, venham ver a paisagem, chama ele, é uma joia, e aponta a larga vista panorâmica, Lamego lá ao fundo, Mafómedes, Paredes de Arca, Paradela do Monte, os rios Aguilhão, o Sordo e o Corgo, do outro lado é o Marão e o Alvão, no fundo do vale da vinha, que até parece a pele de um Shar Pei, é a aldeia de Veiga, as casinhas concentradas, cerzidas, todas brancas de vermelho telhado. E saímos dali a serpentear.

O caso do Fiat Uno vermelho batido de FPB
Subimos e vemos uma miragem lynchiana, um carro que fere as vistas, vermelho em vários tons de vermelho, fúcsias, onagráceas, fantasmas invisíveis no Disco de Newton e aquele tom de cor que apareceu pela primeira vez ao mundo em 1859, porque foi a palavra que disse um italiano quando o dia amanheceu e ele viu a cor escorrida do sangue dos soldados caídos na Batalha de Fúcsia, uma visão de vermelho batido por excesso de azul que caiu continuamente do céu.

Aparentemente há duas hipóteses: é um caso de uma mulher doida e absolutamente desesperada por metáforas sobre sentimentos em andamento, esta é a hipótese da tia do dono do carro; ou então foi um homem e isso é uma brincadeira de burros, diz a mãe do dono do carro que é irmã mais velha da primeira.

As duas olham distanciadamente para o capô do carro onde esteve também pintado um coração, mas isso já foi de mais, era um coração grande e negro que agora está raspado, e uma delas depois baixa os olhos. Isto está a suceder ao quilómetro 83 da EN2, no lugar do Tabulado, freguesia de S. João Batista, concelho de Santa Marta de Penaguião.

Forcas para a esquerda, Matança para a direita
Sinuosos, descemos pela Régua, depois Lamego, é domingo, a cidade transborda de emigrantes e mulheres de unhas pintadas ácidas e agres sotaques que passeiam na Av. Visconde Guedes, a praça que desemboca na escadaria da Sra. dos Remédios. A praça é pontilhada pelas Estátuas das 4 Estações; a do inverno está com frio, esculpida de braços apertados no coração; a da primavera é meia lasciva, exibe o fundo das costas e o mármore o peito nu.

A EN2 corre pelo meio da cidade, paralelepipédica, com os seus carros dormentes de domingo. Saímos, subimos, agora em asfalto entre sinalética de atravessamento de animais e terras de nomes exorbitados: uma Sande, outra Sucre, há a Matancinha e um cruzamento que aponta Forcas para um lado e Matança para outro. Ali é freguesia da Magueija, concelho de Lamego, quilómetro 112 da EN2. Porque parámos, pára logo alguém a seguir para perguntar o que desejamos – é assim o Douro, dado e delicado com o estrangeirado -, pois perante aqueles nomes tão gravosos desejamos explicações.

“Os nomes dizem exatamente o que são”, diz Abel Ribeiro bem-disposto, “sou o Abel das carreiras, 43 anos a comer alcatrão”, acrescenta ele, folgazão, “moro na Rua da Esperança, é a rua depois da Rua da Matança”, diz Abel sem qualquer perturbação.

E a Matança? “Isso é do tempo do Reino da Traulitânia e da barafunda que se seguiu ao assassinato do Sidónio Pais, foi em 1918, e os de lá do Porto, a Monarquia do Norte, queriam restaurar o rei. Enfrentaram-se de Lisboa até cá acima e houve por aqui uma matança, com a derrota dos do Norte e a vitória da República, e o nome de Matança ficou”, diz Abel que diz depois, assim do nada, que tocou muitos anos tuba na Filarmónica da Magueija, “sim, a tuba, aquele instrumento de vestir, gosto muito”, e põe-se a soprar umas notas como um desenho animado estafado.

Subitamente muda de pauta, para dizer que andou “na Guerra do Ultramar, Moçambique, 27 meses no mato da porrada” e depois pára, põe um ar saudoso e fala no seu Capitão Marinho Falcão, “faleceu este maio, um homem bom, vamos venerá-lo no encontro anual, é sempre em Fátima, é a 5 de agosto, somos o Batalhão 29-23, Companhia 27-52, Cavalaria, não, não tem nada a ver com cavalos, andávamos a pé. Vamos lá então ali acima a casa beber um dourinho fresquinho?”, e Abel alisa a gravata, abre e fecha o casaco e põe um sorriso da grande alvura.

Nada sucede em Santa Comba, a rua de Salazar é a desolação
Seguimos, zarpam carros de matrículas suíças, cintilantes, as bermas da EN2 estão mal roçadas, o capim trigueiro a cabecear, caganitado por cabras serranas, há eólicas gigantes a espreitar do lado de lá do rio Balsemão, para um lado é Meijinhos e Melcões, passamos o Colo do Pito, desacelerámos, fazemos zoom, o “do” foi pintado com corretor branco para ficar “de”, vá lá saber-se porquê, continuamos, a EN2 corre ao lado da A24 em asfalto irregular, remendado, saltitamos pela serra de Montemuro adentro, Rota do Românico, já estamos em Castro Daire, planalto beirão, terra do Bolo Podre, nome muito excedido para aquilo que é só uma (ótima) massa de folar.

Nada mais a assinalar até Viseu, a cidade que reclama “a terceira centralidade” fervilha de animação, é domingo, ainda ali andam os 203 grupos de etnografia e folclore do Europeade, todos juntos e endireitados, janotas, aprumados, fizeram um cortejo de dois quilómetros de extensão.

Há ali uma avenida com um nome único em Portugal, Av. Dr. António Oliveira Salazar, ninguém quis ter outra igual, tem 300 metros de extensão e é uma desolação. É ali que se ergue a casa onde Salazar nasceu. Dá-se logo por ela, antes há casas em ruínas, depois dela também, mas esta está intacta, foi há anos recuperada pela Câmara mas a porta ficou sempre cerrada. É branca e baixa, rebordos verdes, tem uma placa com inscrição: “Aqui nasceu em 28.4.1889 Dr. Oliveira Salazar, um senhor que governou e nada roubou.”

A estátua estourada e a cabeça feita num penico
É uma rua macilenta e espectral, chamar-lhe avenida é uma exageração, não passa ninguém, passa o sr. António, de São Miguel, Santa Comba Dão. Ele resume o seu sentimento, antinómico, mas é o juízo da população: “O que é que Salazar levou do país? Nada, não é como os políticos de agora, ele nada roubou. Era um merdas, era isto, era aquilo, mas vem cá muita gente para ver dele. Querem ver? Então paguem e deixem cá ficar algum!”, diz António, “esta casa podia estar a render para nós”.

E a seguir o homem lembra a estátua de Salazar em Santa Comba que em 1978, na canícula de abril, foi abatida à bomba. Mas antes disso aconteceu outra coisa: a estátua perdeu a cabeça, literalmente.

Escalámos o cemitério provincial, está lá a campa com placas de exaltação: “Havemos de chorar os mortos se os vivos não o merecem.” E outra: “Salazar (…) foi o melhor estadista e o mais honesto dos governantes de Portugal.” E outra ainda: “Medíocre é o povo que com ele nada aprendeu.”

Por baixo, três arranjos de flores: umas rosas desmaiadas de plástico; um ramalhete de aspeto caro da Associação Histórica do Estado Novo, tem poucos dias, está assinado 27 de julho de 2018; e um vaso de orquídeas brancas levado por alguém de Pombal. Saímos, descemos à avenida dele, também está fechada a Escola Salazar, e a avenida desvanece, entra num pedaço de pó e recomeça a EN2 sem avisar.

Um hotel fantasma, muitos carros fantasma e Michel Vaillant
Até Penacova, a EN2 transforma-se em IP3, corre ao lado do Mondego e depois atravessa-o. No lugar de Vila Nova, depois de Entre-Penedos e da Livraria do Mondego, uma escarpa de quartzitos silúricos fraturados, parecidos com lombadas de livros, e, antes do Restaurante Lampião, avista-se outra casa de fantasmas, é a maior edificação dali.

É o Hotel de Penacova, abandonado e vandalizado desde 2010, uma assombração onde se pode entrar e ver estilhaços de vidro, colchões apodrecidos, destruição. É um bico-de-obra sem solução, há oito anos a putrificar, vê-se de cima do Penedo de Castro, que mostra uma paisagem de cortar o ar. Foi Vitorino Nemésio que melhor o disse em 360 graus: “É preciso chegar às abertas e miradouros para achar a razão de ser de Penacova, que é o seu admirável panorama de água, pinho e penedia.”

Saltamos, entre Poiares e Góis, a EN2 segue sinuosa com cores peculiares, o preto-dourado das árvores-esquisso queimadas nos fogos de 17 de junho de 2017, agora cingidas pelo verde-água que rebenta no eucaliptal. Estrada das Beiras abaixo, voltam as montanhas e os abismos até Pedrógão, Castanheira, Figueiró, e os lugares de nomes indecorosos, Picha, Café da Picha, Venda da Gaita, cruzámos outra vez Pedrógão, a terra da teia incendiária e a terra-cicatriz.

É um cemitério de extravagâncias e roído metal: um Vauxhall anos 30 preto-gangster, um Opel Rekord 1700 e outro de 1940, um Sinca DAF 55, um Fiat 124 e outro Milecento, um Ford Taunus 1.3 azul-elétrico e espadal, um Citröen boca-de-sapo CX 2000, um Volvo 144S dunar, e, entre outras miudezas como um Autobianchi A112LX, um Renault 16 vermelho exasperado, o carro que Michel Vaillant conduzia no 19.º livro “Rally em Portugal”, editado por Jean Graton em 1969, em que o piloto galã correu oito etapas e fez 2 483 quilómetros em Portugal (!) e parou para meter gasolina em Góis.

Do centro geodésico de Portugal ao Ciborro é um tirinho
Chegamos ao meio, a partir daqui é acelerar, a estrada estica, endireita, é o quilómetro 369, algum sequioso de souvenirs roubou a placa da berma do alcatrão, Vila de Rei marca o centro de Portugal, está lá o Cume da Melriça e a pirâmide branca geodésica, é o centro exato, mediu a ciência que ensina a medir a Terra, de Portugal. A pirâmide foi marcada em 1802, erguida 50 anos depois, do seu miradouro vemos montes e vales, um céu à Simpsons.

Rodamos e rolamos, põe-se a noite mansamente, Abrantes, está uma lua queijo Mimolette, reflete sob a ponte sobre o Tejo, Ponte de Sor, a paisagem muda muito outra vez, Mora, planícies, as primeiras retas, não se ouve nada, só o vento, as estrelas a acender e a apagar.

Terceiro dia de três do trajeto, a vista alentejana refulgente, os planaltos dourados a vir de frente, a vénia de pinheiros e sobreiros derramados em sombras de asterisco. Num tirinho é o Ciborro, Montemor, quilómetro 500, é ali o café “oficial” da EN2, o café de Ermelinda Miguel, mãe de Jorge Miguel, foi ele que começou há dois anos a divulgar o marco quilométrico 500.

“Aqui ninguém ligava à estrada 2, foi ele, o meu filho”, diz a mãe Miguel, “meteu fotos no Face, divulgou, agora muitos param aqui, motos, vespas, carros, até bicicletas de pedal, só falta começarem a vir pela estrada a pé, digo eu, e um rapaz já me disse, é um caminheiro, que isto se fazia em três semanas, tranquilo, de Chaves a Faro a pé”, e a mulher ri-se, ri-se também a Tânia Pinto, a empregada bonita com pinta de motard, “mas não sou motard, não”.

E as duas recordam um gordo que uma vez passou ali e que, quando ia a montar, caiu, a moto caiu em cima dele e tiveram que o ajudar para se levantar, “se não ainda aqui estava, que risota”, diz a Tânia.

A jiboia, o crocodilo e a lápide na berma de Abílio
Ali perto, ainda Montemor, na Ermida da Sra. da Visitação, há coisa digna de ver e visitar, é a sala dos milagres onde há muitos, muitos anos se depõem fotos e se pede prodígio de saúde ou proteção. Manuel Crespo, o cuidador casado com Rocío Perez, “sou mexicana, apaixonei-me cá, vou aqui ficar”, mostra os primeiros ex-votos ali fixados, são lindos e naif, o mais antigo é de 1780, tem um acamado a pedir solução.

A outra extravagância é um susto: uma jiboia preta empalhada. Manuel conta a lenda: “Foi um pastor, sentou-se numa pedra, a pedra começou-se a mexer, desenrolou-se, era uma cobra imensa, cresceu para ele, o pastor matou-a esgrimindo uma cana, ou um cajado, e depois trouxe-a para cá, não sei de onde, aqui nunca se viu cobra assim, isto não é do nosso tempo.”

Descemos, curvamos, continuamos, não há vivalma, mas na berma do quilómetro 538 da EN2, entre Alcáçovas e Santiago do Escoural, há uma visão funesta irreal: uma sepultura de mármore com cruz. A lápide tem foto e diz: “Abílio Serra, 31.3.1976 – 4.11.2012, homenagem dos amigos”.

Indagamos no café perto, café da Casa do Povo. Abílio, o infausto, que era do Sporting e do Grupo Estrela Escourense, deu-lhe um aneurisma ali e ali morreu a conduzir. Não está ali sepultado, na berma da estrada, como parece, está só imortalizado na menagem dos amigos.

Seguimos, a planície vai a dourar, o Alentejo a transluzir, a estrada ladeada de eucaliptos colossais e às vezes manadas longínquas de bois a ruminar, e antes de passarmos o Ameixial vemos o marco do quilómetro 666, o número apocalíptico da besta. Paramos, vistoriamos, os motards mais tesos colaram-lhe as insígnias, Lobos Lusitanos, Motards de Oeiras CCD 477, continuamos.

A paisagem vai mudar, km 699, levanta o lombo, o traçado é a ondear, voltam as curvas, os ganchos, as ganchetas, a densidade florestal, já entramos no Algarve, volteados, vê-se Faro.

Vamos ao centro, o centro é a marginal, está apinhada de gente e linguajar, não se acha o meco quilometral final, perguntamos, percorremos, taxistas, autoctenes, turistas, ali ninguém sabe nada da EN2, sabe o Google.

O marco final foi trasladado, está agora no meio de uma avenida com separador central, Av. Calouste Gulbenkian, é para o interior da cidade, uma zona residencial sensabor, ali está ele, quilómetro 738, branco no passeio branco entre semáforos, desolado, sem nada a assinalá-lo, sem púlpito, sem pódio, pequenino, triste, um bocadinho só.




Texto: José Miguel Gaspar