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terça-feira, 11 de dezembro de 2018
domingo, 11 de novembro de 2018
Terra dos índios
A aldeia de Vale Domingos fica a três quilómetros de Águeda, ligada por uma estrada cujos sinais de trânsito eram constantemente vandalizados. A escola fechou, não por falta de alunos mas devido ao insucesso escolar. As casas estão concentradas junto à rua principal, com um bairro social e dois de ciganos nos extremos. No meio, um terreno que até há oito anos tinha prefabricados abandonados e mato, esconderijo para o produto de roubos. Os de fora preferiam não se aproximar, chamavam-lhe a "terra dos índios". Alguns de dentro faziam jus à fama. Ora acontece que a autarquia queria ali construir mais um bairro social e a população, discordando, em vez de protestar, apresentou ideias. Ganhou um milhão de euros do orçamento participativo e agora tem o maior parque de magnólias da Península Ibérica. Está ainda empenhada em tornar-se conhecida pelos doces, com a Feira das Lambarices.
Na origem do projeto está Ricardo Pereira, um empresário local que cresceu com os ciganos sem perceber que havia discriminação racial. Também não a compreendeu em adulto, tão-pouco aos estigmas que envolviam a terra. Acreditou que as coisas podiam ser diferentes - e começou a fazer por isso em 2010. Organizou um jantar de homens de todas as idades, raças, credos e partidos. Compareceram cem, praticamente a aldeia toda. Falaram dos problemas e de como os poderiam resolver. "Tínhamos um terreno abandonado, onde havia a ideia de fazer um bairro social. Sugeri que apresentássemos projetos para o espaço.”
Percorre-se a aldeia e vê-se gente desocupada, pobreza. Vende-se cigarros à unidade, a 50 cêntimos cada. Muitas pessoas a receber o rendimento social de inserção (RSI). Não há números oficiais por localidade, mas numa vila com 350 habitantes, deverão trabalhar 10%, se descontarmos ainda os reformados, as crianças e os adolescentes. O Instituto da Segurança Social indica 195 beneficiários do RSI na freguesia de Águeda e Borralha, a que pertence Vale Domingos. Cerca de 60 famílias vivem nos bairros mais desfavorecidos: 15 no bairro da Ribeira, 11 no bairro do Gravanço e 30 no bairro da Amizade.
O jantar de homens
No tal jantar só para homens choveram ideias para o baldio com prefabricados abandonados do Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais, ali colocados em 1981 para acolher quem ia chegando das ex-colónias. Apresentaram a proposta a Paulo Seara, então presidente da Junta de Freguesia. "A ideia é boa, mas com que meios?" A mesma opinião teve Gil Nadais, ex-presidente da Câmara Municipal de Águeda (CMA), que disponibilizou os 1,1 hectares e entrou com 25 mil euros para começar a dar vida ao projeto. Mas era pouco para o que se ambicionava. Então fizeram um acordo. A população dava a mão-de-obra, os autarcas os equipamentos e os materiais. Começaram por limpar tudo, aproveitaram blocos e pedras do centro de Águeda, que estava em obras. Realizaram espetáculos para angariar fundos, com artistas nacionais, alguns de etnia cigana - foram três anos consecutivos de Concerto no Park.
E assim começou a normalizar-se o convívio entre todos. Ricardo e outros voluntários reuniram-se com a GNR para fazer a segurança do evento; a guarda respondeu que, dadas as características de Vale Domingos, o melhor era contactarem o Corpo de Intervenção da PSP, que considerou não se justificar. Fizeram a festa sem segurança e não houve registo de problemas nem de roubos. Fizeram dez mil euros em três anos.
"Eram muitos os problemas, a intervenção da junta e da câmara era praticamente nula, os jovens eram detidos. Nada disso acontece há três anos. Antes, os que procuravam emprego não o conseguiam por aqui morarem. Continuamos a ter problemas, mas aumentou a autoestima. As crianças já vão à escola, as coisas não aparecem estragadas - perceberam que se o fizerem, alguém vai ter trabalho", diz Ricardo.
A GNR confirma: deixou de haver detenções por criminalidade juvenil. Houve uma única por violência doméstica em 2017.
Feliz por aprender
A psicóloga Rosália Coelho atesta as melhorias das crianças de Vale Domingos, é também voluntária na aldeia. Pertence ao quadro do agrupamento de escolas Fernando Caldeira, de Águeda, que no ano letivo 2016-2017 iniciou o projeto Velhas Margens, Novas Pontes. É dirigido à comunidade cigana, 5% da população escolar de todo o concelho. "Estão a acontecer coisas muito boas, por um lado os projetos locais que desmistificam a ideia negativa que se tinha de Vale Domingos; por outro, o do agrupamento. Foi uma feliz coincidência", diz a técnica, ali colocada há nove anos. Diz aos alunos, e pede que repitam: "Estou feliz porque estou na escola a aprender, e se aprendo é para mim, independentemente de ser rico ou pobre!"
De início, o objetivo era conseguir que as crianças ciganas fossem à escola, agora querem melhorar os resultados. "Temos crianças que gostam da escola, sentem que é delas e isso é extraordinário." O projeto envolveu 23 meninos de etnia cigana dos 1.º e 2.º anos em 2016, com 85% a transitar de ano e uma redução de 28% no absentismo. No ano letivo passado, com 24 alunos, dos 2.º e 3.º anos, houve menos 40% de faltas mas só 65% passaram.
O parque botânico
Há três anos, a população começou a candidatar-se aos orçamentos participativos, um processo que permite aos cidadãos escolher ideias que merecem receber verbas públicas, cinco milhões de euros em 2018 (ver texto relacionado ao lado). Dez projetos da aldeia ganharam a maioria dos votos, sete a nível nacional e três municipais, o que significa 1 085 342 euros para investir na requalificação da aldeia.
Agora, o Parque Botânico de Vale Domingos ganha consistência. Tem 136 variedades de magnólias, o que faz dele o maior da Península Ibérica, e uma coleção de 76 aceres diferentes, incluindo o Acer palmatum, uma das espécies mais populares de bonsai. E mais 50 árvores exóticas - porque de certa forma a aldeia se considera "exótica" -, importadas de Itália, Espanha e Inglaterra e que ali se têm dado bem. O dinheiro também serviu para fazer arruamentos, comprar bancos e mesas, iluminar. Junto ao bairro social, vai nascer ainda um parque infantil e os jovens pedem um campo de jogos, que está na calha.
Ganharam os primeiros lugares no Orçamento Participativo Nacional (OP), em 2017 (ano em que foi criado) e 2018 (os dois primeiros, abdicaram do terceiro). O que ficou em primeiro lugar representa 250 mil euros, o que servirá para organizar a Feira das Lambarices por três dias. Têm os ovos-moles de Aveiro e o pastel de Águeda e querem atrair toda a demais confeitaria nacional. A ideia é que Vale Domingos seja a capital das magnólias e dos doces, uma aldeia turística, com alojamento local nas casas sociais do bairro da Amizade.
A empresa que construiu este bairro social cedeu-lhes o terreno em frente e o mato está a ser cortado por dois jovens ciganos: os primos Pascoal e Lázaro, de 20 anos - o primeiro já é pai, o segundo está a caminho. "Aqui, ninguém faz feiras e, como estávamos em casa, decidimos ajudar. Estivemos sete anos a fazer voluntariado até sermos contratados pela câmara [no início do ano]", conta Pascoal. Acrescenta Lázaro: "As gerações têm vindo a evoluir, a começar a trabalhar. Eu só tirei o 6.º ano, o meu irmão tem 15 anos e continua a estudar."
Os rostos da mudança
Pascoal e Lázaro pertencem a uma das duas famílias ciganas maioritárias na aldeia, os Ximens. O patriarca da comunidade é o Júlio Ximens, 60 anos, conhecido como "Zé da Burra" e que é hoje um exemplo positivo para todos, depois de ter andado no crime. Foi a primeira pessoa a quem Ricardo falou para o ajudar a envolver a etnia nos projetos de requalificação e integração da aldeia. O "Zé" convenceu a sua gente a voluntariar-se. Hoje há mistura entre ciganos, não ciganos e imigrantes. "Vendi droga, nem sabia o dinheiro que tinha, tinha tudo, Mercedes novos... Hoje vivo onde era a cavalariça e só tenho o RSI, mas sou mais feliz. Andava sempre a olhar para o lado, a polícia em cima de mim, sempre rusgas. Digo aos jovens para não repetirem os meus erros, que têm de trabalhar, e eles estão a perceber. Já temos uns 13 com emprego."
Ricardo sempre morou junto ao bairro de ciganos e lembra-se desses tempos. Quando os miúdos ciganos compravam gelados com notas de 500 escudos e deitavam fora o troco em moedas que os miúdos da aldeia apanhavam. O "Zé" era um traficante que os outros não se atreviam a afrontar. Cumpriu dez anos de prisão em Coimbra, saiu em 2012, mas não foram as grades que o levaram a arrepiar caminho. Mudou porque viu filhos, mulher e irmãos a consumirem droga. "Saí com uma mão à frente e outra atrás, vi os meus netos sem nada, nem casa. Encontrei o Ricardo que me desafiou e senti que era importante ajudar estes jovens.”
Ricardo Pereira, 36 anos, tem uma empresa de polimentos e ferragens, a Polomagnus, entregue à mulher, Rubina. Entregou-se de tal forma aos projetos da aldeia que praticamente não tem rendimentos, além de pagar muitas despesas que envolvem tais iniciativas. Todos os conhecem e lhe pedem melhorias, mais parece o presidente da junta. Ele jura que nunca enveredará pela política. "É incompatível!"
População e autarcas
Lázaro e Pascoal estão no Programa Ocupacional de Emprego, um contrato de inserção pelo salário mínimo, complementado pela autarquia. São um dos motivos pelos quais o presidente da Câmara, Jorge Almeida, não aceita as críticas de falta de apoio à população de Vale Domingos. Os seus habitantes dizem receber de autarcas de concelhos vizinhos maiores gestos de simpatia pelos prémios que ganham. "O município tem expressado, desde o primeiro momento em que o Parque Botânico de Vale Domingos ganhou as edições dos Orçamentos Participativos nacionais, a total disponibilidade para se assumir como parceiro, no sentido de exponenciar o mais possível o âmbito e o alcance desses projetos em benefício de Vale Domingos, da sua população e do concelho", responde. "O terreno é da câmara, comprámos os equipamentos, os materiais, pusemos duas pessoas na manutenção, mas claro que há muito que tem de ser feito pela população, pelos voluntários", justifica Jorge Almeida, sublinhando que era vice-presidente da câmara quando tudo começou e que é à junta que se deve o maior empenho na concretização do projeto.
O Parque Botânico está colado ao bairro da Amizade, onde muitos se voluntariam para ajudar na manutenção do espaço. Ricardo Duarte, 17 anos, estende a roupa. "Fui expulso de três escolas... Vou para França em maio", justifica.
Noutro bairro, David Montoya, 27 anos, pai de uma rapariga e um rapaz e com outro a caminho, diz fazer o que pode "para ajudar; e o resultado está à vista, o parque está muito bonito". Tirou a carta de condução há dois anos, foi uma vitória. "Andavam a conduzir sem carta e isso já não acontece. Estamos a tentar que se motivem uns aos outros, queremos mudar o paradigma da aldeia", explica Ricardo.
Irene Salgado, 64 anos, reformada, é outra voluntária. Mora em frente ao parque e confessa que antes tinha medo de ali passar. "Uma vez entrou-me uma cobra em casa. Agora, está tudo iluminado, bonito. Passo o dia sozinha e venho aqui até ao meu muro, sento-me a olhar." Ao lado, Bernardino Bajana, 66 anos, também reformado e natural da Guiné-Bissau, mora no bairro da Amizade. Cabe-lhe tratar das hortas sociais e diz que "vale a pena trabalhar quando se vê o resultado". Acácio Oliveira, 67 anos, é presidente da Creche Shalom e voluntário, um entusiasta da aldeia. A creche é um braço social da Igreja Evangélica Baptista de Águeda para as minorias étnicas e apoia 58 famílias.
Trabalham todos para promover a união numa população com grandes diferenças, numa aldeia com 350 pessoas que tem dois ranchos folclóricos - o Grupo de Danças e Cantares de Vale Domingos e o da Associação Cultural e Recreativa Vale Domingos -, fundados por dois irmãos: o pai e o tio de Ricardo. É esta lógica que o mais novo quer contrariar: tornou-se presidente da Associação para unir os dois grupos. Lá chegará.
Texto: Céu Neves
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terça-feira, 30 de outubro de 2018
Afinal, os estrangeiros são a melhor coisa que nos podia ter acontecido
"Quando vais ao Google e começas a pesquisar a cidade, o caso das Mães de Bragança aparece sempre nas primeiras páginas. E, quando lês aquilo, assustas-te", diz Rúbia Corrêa, 32, que é natural do Paraná e se mudou para Trás-os-Montes em 2015. É mulher e brasileira, como os alvos da fúria do manifesto de 2003. "Mas depois chegas e percebes que não há qualquer razão para ter medo. Antes pelo contrário, é uma cidade que está repleta de estrangeiros. E de estrangeiros bem acolhidos, como eu."
Os seus planos, aliás, são para ficar muitos anos. Rúbia veio do Brasil com um doutoramento no bolso para fazer investigação no Centro de Investigação da Montanha. "É uma das mais reputadas instituições mundiais na área agroalimentar. Tem uma equipa de topo a nível global e foi por isso que vim." Nunca, por mais duro que seja mudar de país, se arrependeu da sua decisão.
Quem hoje atravessa Bragança dificilmente reconhece a cidade que há 15 convocou para si atenções globais - sobretudo depois de a revista Time ter colocado na capa uma fotografia de uma prostituta brasileira no centro da cidade com a manchete"Europe's new Redlight District". Bragança, aos olhos do mundo, tinha-se tornado um novo centro de comércio sexual. E isso causou a fúria de um grupo de mulheres, que acusavam as brasileiras de lhes roubarem os maridos - as Mães de Bragança.
Há dois anos, aliás, o sociólogo José Machado Pais estudou este tema no livro Enredos Sexuais, Tradição e Mudança. "Aos olhos locais, o perigo vinha de fora", diria o investigador do Instituto de Ciências Sociais numa entrevista ao DN em 2016. "Os maridos traidores foram poupados, diria mesmo desculpabilizados. As imigrantes brasileiras apareceram então como o bode expiatório." Nos meses seguintes, uma série de rusgas policiais encerraria quase todas as casas de alterne e expulsaria muitas mulheres da cidade. A ameaça moral que vinha de fora era assim eliminada.
Hoje, no entanto, circulam pela cidade grupos de todas as etnias, as casas de uma terra cada vez mais envelhecida enchem-se de novos sotaques, criam-se negócios para receber toda esta gente que vem de fora. "Os estrangeiros são afinal a melhor coisa que nos podia ter acontecido e os brigantinos sabem-no hoje bem", diz Hernâni Dias, presidente da câmara municipal. "Estão a revelar-se um novo motor de desenvolvimento e estão a compensar muitas falhas causadas pelo despovoamento que a nossa região sofre." Em muitos casos, garante o autarca, passaram até a ser o orgulho da cidade.
A equipa com que Rúbia trabalha, por exemplo, estuda exaustivamente plantas e cogumelos na serra de Montesinho e encontra aplicações para a sua utilização na indústria alimentar - criando, nomeadamente, corantes e conservantes naturais. Isso vale que o Politécnico da cidade esteja entre os 50 mais reputados no mundo na área da biotecnologia alimentar, segundo o ranking de Xangai. "Todos os habitantes de Bragança sabem isso. Se alguém ousar olhar-me de alto a baixo, se alguém comentar com desdém a minha nacionalidade, eu arranjo maneira de explicar o que faço. E, nesse momento, troco qualquer possibilidade de discriminação por admiração." Mulher, brasileira - e uma honra para Bragança.
A revolução nos prados
O foco mediático de 2003 marcou a povoação transmontana. A maioria dos brigantinos acha ainda hoje que houve uma generalização injusta da população. "Eu sou de cá, vivia cá na cidade, e nunca me tinha apercebido de grande coisa naquela época", conta a cientista Isabel Ferreira, diretora do Centro de Investigação da Montanha. "Aquele manifesto foi assinado por duas ou três pessoas, mas subitamente parecia que éramos todos discriminatórios para os estrangeiros."
O presidente da câmara concorda. "Foi um exagero, Bragança não era diferente de outras cidades do país que tinham igualmente casas de alterne e com luzes vermelhas. O que o caso das Mães de Bragança realmente causou foi que hoje, ao contrário do resto do país, deixámos de ter estes estabelecimentos." De facto, quem percorre hoje os cenários que há 15 anos foram de polémica - casas de alterne e "cafés de cima", com porta para a rua mas instalados nos primeiros pisos dos edifícios - encontra hoje lojas renovadas e cafés onde se vendem muffins, crepes, cappuccini. Ou bares de estudantes onde se ouve música do mundo inteiro.
A revolução de Bragança começou em 2012, e um largo consenso entre as autoridades locais e os habitantes da cidade diz que a culpa é do Instituto Politécnico de Bragança (IPB). Não há hoje em Portugal nenhum estabelecimento de ensino superior mais internacional no país do que este. Um terço dos seus 7500 alunos são estrangeiros e provêm de 70 nacionalidades. As maiores comunidades estudantis são de Cabo Verde e do Brasil, mas aqui também estudam turcomanos e canadianos, etíopes e sul-coreanos, sauditas, colombianos, cazaques, argelinos, peruanos, guatemaltecos.
"Quando aqui cheguei, lembro-me de comentar muitas vezes que aqui não se via um único africano nas ruas", conta Lilian Barros, que juntamente com Isabel Ferreira foi nomeada uma das mais proeminentes cientistas agroalimentares do mundo pela agência de indexação Thomson Reuters. Nasceu no Porto, veio estudar para a cidade em 1998 e foi ficando. "Hoje, se pensarmos em escala, há muito mais gente de pele negra em Bragança do que no Porto."
Foi precisamente a falta de alunos que obrigou o IPB a ir procurá-los fora. "Quem não tem cão caça com gato", diz Orlando Rodrigues, presidente da instituição. "Quando começámos a perceber que a falta de crianças na região nos iria obrigar a abandonar cursos e reduzir a investigação, tivemos de criar uma alternativa que mantivesse o IPB relevante. Acho que a missão foi cumprida, tendo em conta que há cinco anos somos considerados pela Comissão Europeia o melhor politécnico do país."
Em junho, o Diário de Trás-os-Montes noticiava um número alarmante. De uma população escolar a frequentar o ensino básico e secundário de 7028 alunos em 2011, Bragança não tinha mais de 3944 no ano passado. Uma quebra de 44% em seis anos. "Quando nascemos, em 1983, os nossos alunos eram essencialmente da região. Hoje, um terço vem do distrito, outro terço da região Norte e quase outro é estrangeiro", explicam os vice-presidentes da instituição, Albano Alves e Anabela Martins.
Há três licenciaturas e cinco mestrados lecionados exclusivamente em inglês. As cantinas não servem vaca e porco nos mesmos dias, para que toda a gente possa manter os seus hábitos alimentares. A antiga casa dos caseiros da Quinta de Santa Apolónia, onde está hoje instalado o campus universitário, foi convertida em centro intercultural e acolhe orações de diferentes religiões. As bibliotecas estão equipadas com traduções dos principais livros.
Por ano, há cerca de 20 viagens não científicas da direção do politécnico ao estrangeiro. "Vamos em comissões de dois visitar feiras, escolas secundárias e liceus, universidades. Celebramos protocolos e convidamos os alunos para virem estudar para cá", explica Anabela Martins. "Estas iniciativas começaram em 2012, mas de há dois anos para cá começámos mesmo a colher os frutos e o número de alunos estrangeiros explodiu." A improvável Bragança, assim, tornou-se cosmopolita.
Isto é nacional, e é estrangeiro
Às quintas-feiras, depois dos treinos dos iniciados do clube local, sobe ao campo a equipa da Associação dos Estudantes Africanos de Bragança (AEAB). Às oito da noite, há uma série de pais que vêm buscar os filhos ao campo sintético do Politécnico e quase todos ficam ali uns minutos à conversa com os adolescentes de pele negra que esperam pela sua vez. "Bom jogo no domingo", atiram a Alex. E Alex responde, num sotaque cabo-verdiano mas já com expressões transmontanas: "Ainda ireis ver-me no Benfica."
São na maioria cabo-verdianos, mas também há brasileiros, guineenses, são-tomenses e um português. "Somos uma equipa da CPLP", diz na brincadeira o treinador Óscar Monteiro, que nasceu no Mindelo e chegou a Bragança em 2012 - foi um dos primeiros a vir estudar para o Politécnico. "E as pessoas aqui gostam da nossa equipa, vêm aos jogos e apoiam-nos. Os clubes da região, no fim do ano, vêm sempre cá buscar os melhores talentos. Por ano, sai sempre uma dúzia para os campeonatos nacionais."
A AEAB milita na primeira divisão distrital. Foram vice-campeões do campeonato em 2016 e no ano passado perderam a final da Taça. "O nosso principal problema é a adaptação ao clima", diz o treinador. "Quando está calor ninguém nos para e todos sonhamos com a subida. Mas depois vem o frio e malta começa a ficar com anginas, com gripe, com febre e vamos abaixo."
A estrela da companhia é Alex Soares, tem 22 anos, veio da ilha do Sal. Estuda música no Politécnico, e tem três paixões na vida: "a bola, a guitarra e o surf, mas esse fica difícil de praticar aqui." Bragança já é casa e o rapaz diz que a cidade sabe acolher, "tem morabeza". "Os transmontanos têm curiosidade pela tua cultura e também gostam de mostrar a deles. Ao fim de semana fazem cachupa aí num restaurante da cidade. E, quando eu convido os meus amigos portugueses, eles passado uns dias levam-me a comer a feijoada daqui." Para ele não há dúvidas: se puder, ficará cá a viver, mesmo que isso signifique reformar a prancha de surf.
Muitos ficam, e ajudam a explicar porque é que nos últimos anos Bragança é o distrito do país onde mais cresce a taxa de residentes estrangeiros, segundo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Os sinais dessa multiculturalidade veem-se um pouco por toda a parte, como nesta equipa de futebol. Mas aqui também se instalou a sede da Associação dos Estudantes e Pesquisadores Brasileiros em Portugal, que tem sede num antigo edifício do centro da cidade. Organizam aulas de capoeira e bailes de forró.
Os bombeiros recebem voluntários de Cabo Verde e do Brasil. Os artigos científicos que colocam agora a cidade no mundo são assinados por apelidos estranhos. A partir do próximo mês haverá aulas de mandarim na escola secundária, porque Qi Zheng, que aqui todos tratam por Júlia, as vai lecionar. Tem 28 anos, é tradutora e intérprete de português na ilha de Zuhai, perto de Macau. "Vim para aqui especializar-me, porque há muitas empresas chinesas a quererem investir no mundo lusófono e precisam de quem fale a língua."
Júlia era intérprete numa empresa automóvel com fábrica em Porto Alegre, no Brasil, agora decidiu dar aulas de português na universidade do lugar onde nasceu e o número de inscrições não para de aumentar. "Os negócios da eletricidade em Portugal, da construção civil em Angola ou da indústria automóvel no Brasil precisam de muita gente que fale a língua." Ela veio para Bragança para aprofundar os seus conhecimentos. "Mas, se ensinar chinês aqui, vai haver mais gente a poder conversar. E a fazer mais negócios."
O novo motor da cidade
A avenida Sá Carneiro é a mais cosmopolita de Bragança. Liga o centro histórico ao Politécnico e é daqui que se percebe toda a diversidade cultural que tomou conta da terra transmontana. Há restaurantes que oferecem menus internacionais, lojas de produtos informáticos que antes não teriam a mesma clientela, a semana passada abriu um McDonald"s que tem estado à pinha até às duas da manhã.
Mesmo no meio da estrada fica o Namasté Bragança, primeiro restaurante de comida nepalesa e indiana da cidade. Abriu portas em fevereiro e os donos tiveram de escalar os sabores em três categorias, para adaptá-los ao paladar local: doce, picante ou muito picante. 80% da clientela é portuguesa, o restante são universitários de países asiáticos e anglófonos, na maioria. Mas a verdadeira história que este sítio carrega é a de Saurabh Poudel, 20 anos.
O rapaz é aluno do terceiro ano de engenharia informática e rumou a Trás-os-Montes depois de viver um ano no bairro do Intendente, em Lisboa. "O meu pai trabalhava numa loja da capital e conseguiu trazer-me para aqui através do programa de reunificação familiar. E eu vim sozinho para Bragança. Quando cheguei aqui, apaixonei-me imediatamente pela cidade. E pensei: é aqui que a minha família tem de viver."
Saurabh tinha uma amiga da mesma idade, da mesma nacionalidade, que também viera para o Nordeste. "E se trouxéssemos para cá as nossas famílias e eles abrissem aqui um restaurante", propôs-lhe. Durante um ano, andaram os dois a convencer os pais a abrir aqui negócio. E, no início de 2018, a coisa deu-se. "Os nossos pais vieram cá, alugaram uma casa para vivermos e outra para fazermos o restaurante." As coisas têm corrido bem, às vezes há fila à porta para comer caril e pastéis de momo. "E agora os nossos irmãos mais novos entraram nas escolas de cá e isto será sempre casa. Sou do Nepal, sim, mas sou de Bragança."
Acolher milhares de estrangeiros significa inevitavelmente isto, um fomento do negócio. Na incubadora do IPB, por exemplo, nasceram duas empresas onde 99% da clientela é estrangeira - e não param de crescer. A mais antiga nasceu em 2012 com a chegada dos primeiros estudantes internacionais. Chama-se Risky Vector, tem uma dezena de funcionários e o que faz é alugar casas que estão ao abandono, recuperá-las e equipa-las para receber os alunos que vêm de outros países.
"Neste momento temos 90 apartamentos e mais de 400 inquilinos", diz Vítor Laranjeira, o proprietário. "Depois de anos em que Bragança se tornou uma cidade de casas vazias, hoje torna-se cada vez mais difícil arranjar onde acolher esta gente toda." Nenhuma das habitações é propriedade da empresa, são maioritariamente de emigrantes que estão fora, ou de famílias que viram os filhos partir para o litoral.
Um quarto individual custa 130 euros, um duplo fica a 100 por pessoa. A internet está incluída. "Tentamos sempre que um apartamento tenha o máximo de diversidade de nacionalidades possível, para que haja convívio." Numa casa da Avenida Sá Carneiro, por exemplo, uma polaca partilha casa com uma georgiana, um brasileiro e dois paquistaneses. E todos estão a adorar a experiência, principalmente à hora das refeições. "Tentamos mostrar as nossas culturas uns aos outros e não há melhor forma de fazer isso do que à mesa", explica Kazim Ahmad, do Paquistão. "Mesmo que as casas aqui sejam estranhas, hás de explicar-me porque é que vocês em Portugal fazem a cozinha num sítio e a sala noutro."
Em Bragança nasceu também a Student Traveller, uma agência de viagens especializada em estudantes internacionais. Começou a funcionar em 2013. No ano seguinte compraram o primeiro autocarro - hoje têm três. "A maior parte das viagens que organizamos são ao Algarve. Saímos quinta à noite e voltamos segunda antes das aulas começarem", explicam o português Dário Couto e a ucraniana Khrystyna Nykolaychuk, que todos os dias recebem no seu escritório em Bragança "miúdos que vieram para aqui estudar e nos tempos livres têm sede de se fazerem à estrada”.
Dez dias em Marrocos ou 23 a viajar pela Europa de autocarro são outros dos programas que oferecem, e para todos esgotam a lotação. "A ideia revelou-se um sucesso tão grande nos últimos anos que expandimo-nos para outras cidades universitárias", explica Dário. Agora a empresa, cuja sede continua a ser em Bragança, opera também a partir de Braga, Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria e Lisboa. "E, desde o ano passado, internacionalizámos a companhia e estamos a sair de Salamanca, Valladolid, León, Corunha e Vigo. Por ano, vendemos dez mil viagens. Agora vamos contratar motoristas. Não vai ser difícil, o negócio da camionagem anda há anos em recessão."
Anna Kattel, 22, gostava mesmo era que houvesse uma viagem até à Estónia, mas a Student Travellers, por enquanto, só tem roteiros até à Polónia. "Seria espetacular, aparecer um dia em casa da minha família de surpresa", ri-se. É alta, loira, mais uma lufada de ar fresco na imagem de diversidade da cidade. Há dias contaram-lhe o caso do Manifesto das Mães de Bragança, e ela ficou muito espantada. "Bragança é muito pequena, mas ao mesmo tempo é tão acolhedora que me custa acreditar que um dia houve aqui estrangeiros que não foram bem recebidos."
Veio para Trás-os-Montes pela qualidade de ensino de Biotecnologia e até aqui chegar acreditava que o sítio onde podia ser mais feliz era dentro de um laboratório. "Mas depois começas a sair em Bragança e vês africanos que estão sempre a cantar, indianos que querem saber coisas da tua terra, brasileiros que fazem festa em toda a parte. É uma espécie de Babel minúscula. E sabes, eu sinto-me mesmo bem aqui." Isso explica muito bem o que aconteceu em 15 anos. É como se as postas de vitela, prato típico da região, pudessem vir agora acompanhadas de feijão preto.
Texto: Ricardo J. Rodrigues
segunda-feira, 22 de outubro de 2018
Bombeiro de Ferro
Vinte e sete equipas, num total de 257 voluntários e profissionais, animaram, este fim de semana, a Ribeira do Porto, na 6.ª edição da prova Bombeiro de Ferro, que bateu o recorde de participantes.
A competição destinada aos bombeiros de todo o país, teve como vencedores os Sapadores do Porto, em masculinos, e os Bombeiros Voluntários de Freamunde, em femininos.
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Rui Oliveira
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