sexta-feira, 22 de abril de 2016

Os visitadores




































Entram de livre vontade num lugar de onde todos gostariam de sair. Para eles, as aferrolhadas portas abrem-se com facilidade. Os sorrisos são como chaves. Os apertos de mão como selos de confiança. Olhos nos olhos, conquistam reclusos e guardas. Os mesmos que já se habituaram a que, todos os sábados, os voluntários da associação “Foste visitar-me” transponham as muitas barreiras que separam Custóias do resto do Mundo. Os visitadores são como invasores pacíficos de mãos cheias. De jornais. De filmes e de tabaco. Mas, a oferta maior, todos a reconhexam livremente prender. Sem nunca se lhes ouvir julgamentos. Não é preciso. Fechados entre paredes
gradeadas amordaçam-se com um passado que não os larga. Que nunca os há de largar. O que já é suficiente para os consumir. E é aí que entram os voluntários. Cláudia Assis, uma das fundadoras desta obra protetorada pela Companhia de Jesus, diz que os visitadores “são os amigos que chegam quando todos os outros foram embora”. A voluntária sabe que muitos dos reclusos que conhece podem sair e voltar a entrar em Custóias. Mas não desiste deles e explica porquê: “O homem é muito maior doque o seu crime”.

Unidade livre de drogas

Os visitadores caminham sozinhos pelos corredores que, com os anos, decoraram. Fazem uma ou duas paragens antes de chegar à ULD, a Unidade livre de drogas. Assim que entram o ambiente muda. Visitadores e visitados cumprimentam-se. Há abraços e palmadas nas costas: “Como é que é, pá? Estás bom ou não queres dizer?”. É preciso um instante para situar a história. Sim, ali ainda é a cadeia. É, mais precisamente, uma comunidade terapêutica onde os reclusos tentam largar a droga. Foi por vontade própria que Tiago Ferreira, de 26 anos, lá foi ter. Preso aos 19, resolveu, há três meses, pedir ajuda: “Queria dar um rumo à minha vida”. Reconhece aos visitadores um papel importante. Por vários motivos: “Quando cá vêm é um dia diferente. Contam histórias do que se passa lá fora. E pronto, são como família. Dão-nos apoio e acompanham-nos até sairmos”. Carlos Aranha tem 45 anos. É a terceira vez que cumpre pena. Os sábados são dias especiais: “Pelo menos para mim, que não tenho visitas, a não ser as dos voluntários. Fizeram-me crescer e ensinaram-me a ver as coisas de outra maneira”. E pensa muito no início de 2017, altura em poderá sair. “Vai correr bem! Com empenho da minha parte e o apoio dos visitadores”. Rui é o mais antigo da ULD. E é Velho, mas só de nome. Aos 43 anos, diz com sinceridade: “Admiro muito estas pessoas que abdicam dos seus sábados, deixam as famílias e os seus afazeres para nos dedicarem uma manhã. São como ar fresco que cá entra”. 

O “xerife” e a OA 

Naquele dia, António Canhola, de 48 anos, ainda era o “xerife”. Saiu da prisão no dia seguinte. Foi, durante cinco meses, o líder do grupo da OA – a unidade de observação com atendimento. Dentro da prisão este pode ser o espaço onde o tempo é mais cruel. Ficam fechados num quarto com seis beliches 22 horas por dia: “Só temos duas horas de liberdade”. Ali vão parar os que se sentem ameaçados por terem contraído dívidas dentro da prisão. Ou os que são castigados por “armarem confusão”. As visitas são por isso bem-vindas, principalmente para quem nunca as tem: “Ajudam-nos no que a gente precisa”. Por exemplo? “Não tínhamos uma cafeteira para aquecer a água para o café e eles compraram. Trouxeram-nos uma bola. E quando alguém não consegue ligar à família eles tratam disso”. Os favores retribuem-se com respeito: “Nós só almoçamos depois de eles saírem. Eu falo por toda a gente, ficamos ansiosos que sábado chegue. Até há quem vista roupa melhor”. Termina em jeito de ação de graças: “O nosso Há quatro anos que, às terças-feiras, das 9 às 11 horas, duas voluntárias do grupo “Foste visitar-me” se deslocam ao Estabelecimento Prisional do Porto (Custóias) para fazer o Clube de Leitura “Eu sou Pessoa”. O objetivo é que durante duas horas se crie um espaço de “não cadeia”. Por norma os reclusos selecionam um tema que depois será trabalhado com poemas dos vários heterónimos de Fernando Pessoa, escolhidos pelas voluntárias. No dia em que o JN esteve em Custóias calhou o “Perdão”. Depois de ouvirem declamar poemas, os reclusos falaram entre si. Para Paulo Silva, “o mais difícil é perdoarmo-nos a nós mesmos”. sábado é como se fosse um domingo”.

Enfermaria

Alexandre entrou em Custóias em outubro de 2012. Está na enfermaria desde então. Não tem membros superiores e precisa de ajuda para quase tudo, como comer. Apesar de preferir estar em liberdade, hoje aceita melhor os seus dias: “Foi melhor ter sido preso senão podia acabar mal”. Para ele o sábado também é especial: “Gosto que os visitadores venham. Trazem jornais e cigarritos”. Além disso, a Alexandre agrada-lhe “conviver esse bocadinho”. Em surdina confessa que todos ali gostam dos sábados. E o facto de ser o mais antigo daquela ala permite- lhe ser a voz dos outros: “Se os visitadores falhassem íamos todos ficar um pouco chateados”. Filipe Mosca tem 20 anos e veio da OBS – a unidade de quem entra com abstinência de álcool ou drogas. Há quatro meses inscreveu-se para trabalhar na enfermaria. É faxina. Lava pratos, serve as refeições aos demais reclusos e ajuda no que for necessário. Sobre os visitadores repete o discurso de quase todos: “É bom que eles cá venham, são sempre pessoas que falam de coisas diferentes”.

Biblioteca

É a última paragem dos visitadores. Passaram-se três horas desde que ali entraram. As mãos já vêm mais vazias. Mas os bolsos vão cheios de papéis, com números de telefone e pedidos para que os visitadores liguem às famílias dos reclusos, para que elas os contactem. Para que os visitem. E até saírem haverá mais. O processo começa no pavilhão D. Perfilados, aguardam atrás das grades, literalmente, para que o guarda lhes confirme o nome. Depois vão em passo ritmado até à biblioteca, onde juntam mesas e se sentam em círculo à conversa. No máximo são 20, que não costumem ter visitas. De longe, às vezes percebe-se melhor. Em pouco mais de meia hora experimentam um liberdade infinita, apenas com o trocar de palavras.




Texto por: Filomena Abreu


segunda-feira, 11 de abril de 2016

Oporto Tattoo


























Oporto Tattoo no Pavilhão Multiusos de Gondomar

XCO Internacional





















A descida é tão íngreme que, a princípio, assusta só de ver. Custa a crer que possa ser feita a grande velocidade e sem arranhões. Mas a prova não tarda: pouco antes das três da tarde, dezenas de ciclistas precipitam-se sobre a encosta a um ritmo estonteante (alguns chegam aos 60 quilómetros/hora) e prosseguem a marcha como se nada fosse.
"Descem isto como eu bebo um copo de água". A comparação é de Rogério Vaqueiro, colaborador da organização da XCO Internacional de Valongo, que decorreu neste domingo. É ele que acompanha o JN ao longo dos mais de 90 minutos de corrida, numa espécie de visita guiada aos pontos mais emotivos de um circuito de quatro quilómetros. Vezes seis, o número de voltas.
"O grande atrativo do XCO é a natureza. Estas provas são feitas no meio do monte. E como é um circuito, têm mais emotividade. Depois, oferecem vários obstáculos, várias formas de correr, várias técnicas e táticas. É um desporto que requer muita perspicácia", explica Manuel Pinto, presidente da Associação de Ciclismo do Porto.
Para os menos entendidos, explique-se: XCO é outra designação para cross-country olímpico, a única disciplina da BTT que, como o próprio nome indica, está representada nos Jogos. E a corrida de Sobrado é importante nessa luta. Afinal, trata-se de uma prova C1, categoria máxima.
Por isso, a vila de Valongo reuniu, durante o fim de semana (sábado foi dia de treinos), perto de 500 atletas - só na principal corrida masculina foram mais de 200, entre elite e sub-23. Com a "nata" da modalidade incluída, esclarece Rogério Vaqueiro.
Ao longo do trajeto, descidas e subidas a perder de vista, em que os esgares de sacrifício dos atletas tratam de desfazer qualquer hipótese de que isto, afinal, possa ser mais fácil do que parece.
E a inclinação inicial do percurso? "Costuma-se dizer que parecem motos". Percebe-se porquê quando vemos os atletas galgarem a encosta a grande velocidade. Só que, aqui, os únicos motores que têm são as pernas. Isso e os constantes incentivos das centenas de pessoas que se juntam a assistir.
"Vai Fábio", atira Rogério a um atleta da terra, assim que ele passa a zona do ribeiro. Sim, ainda há isso. As grandes poças de lama que lhes abrandam a marcha e salpicam tudo em redor. "Isto são mais 13 volts", diz, referindo-se ao incentivo que acabou de dar.
Fábio, Zé, David. Os nomes variam, mas o gesto é repetido por quase todos os que assistem à prova. E, para que o apoio aos atletas de eleição não falhe, há até quem leve sinetas e megafones.
Só que, ao contrário do que o empenho na corrida possa dar a entender, entre os ciclistas quase não há quem viva disto. Há-os advogados, serralheiros, até talhantes, mas profissionalização é uma palavra que mal tem lugar aqui.
David Rosa é uma das poucas exceções, ele que, há quatro anos, em Londres, se tornou no primeiro português a competir nuns Jogos Olímpicos, em BTT. Tem 22 anos, mas não parece. Tem a compleição física de um catraio. E isso é tudo menos mau. A teoria diz que, quanto mais leves, mais fácil se torna trepar a montanha.
Ele faz questão de o mostrar a cada subida, enquanto exibe as pernas negras de tanta lama. Mas, neste domingo, nem isso lhe permitiu ir além do segundo lugar, atrás de Mário Costa. Depois de uma primeira volta equilibrada, o atleta da ASC/Focus Team Vila do Conde descolou e nunca mais foi apanhado.
"Foi a segunda vitória mais importante da minha carreira, a seguir ao título nacional de elite (2012). É ver o trabalho de todo o inverno recompensado", conta o vencedor, ao JN, minutos depois de cruzar a meta, sem esconder que o grande objetivo é chegar os Jogos Olímpicos deste ano.
Neste momento, uma parte da missão está bem encaminhada. Com os 130 pontos conquistados ontem, graças a um pódio inteiramente nacional, Portugal consolidou o 10.º lugar do ranking internacional e está portanto bem colocado para apurar dois atletas para o Rio. Depois, caberá ao selecionador decidir quem serão os felizardos.
Voltando ao herói do dia. "E então, recuperado?", perguntamos-lhe. "Ui, não. Isto agora só lá para quarta-feira", garante Mário, entre risos. Mas já diz o ditado: quem corre por gosto...
Texto por Ana Tulha