segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Bombeiro de Ferro






















Vinte e sete equipas, num total de 257 voluntários e profissionais, animaram, este fim de semana, a Ribeira do Porto, na 6.ª edição da prova Bombeiro de Ferro, que bateu o recorde de participantes.

A competição destinada aos bombeiros de todo o país, teve como vencedores os Sapadores do Porto, em masculinos, e os Bombeiros Voluntários de Freamunde, em femininos.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

A tragédia da Venezuela está a tornar-se a riqueza de Estarreja















Crispim Rodrigues anda numa roda-viva. Todos os dias o seu telefone toca com notícia de que há mais gente a chegar no avião de Caracas. Na maioria dos casos, trazem uma mão à frente, outra atrás, mais uma mala com a vida que conseguiram encaixotar na fuga. "Que venham cá, então", anuncia para o outro lado da linha. "Um dia, dois no máximo. É esse em média o tempo que demoro a arranjar-lhes emprego."

Em teoria, Crispim é o responsável de relações exteriores da SEMA, uma associação que reúne três mil empresas de cinco concelhos do norte do distrito de Aveiro: Albergaria-a-Velha, Estarreja, Ovar, Murtosa e Sever do Vouga. Mas, desde que arrancou 2018, tornou-se uma espécie de salva-vidas para os que desaguam numa terra estranha. "Desde janeiro já arranjei trabalho a pelo menos 300 pessoas. Todos os dias chegam mais e ainda bem. Precisamos deles como de pão para a boca.”

Nos últimos meses, o regresso de portugueses emigrados na Venezuela e lusodescendentes tem crescido exponencialmente. "Quantificar um número rigoroso é complexo, a grande maioria tem passaporte português e não é sujeita a controlo à entrada", admite o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

As estimativas apontam para quatro mil pessoas na Madeira e 1500 no continente, mas o governo sabe que esses números pecam por escassez. "Só os registos de saúde madeirense contam já seis mil nomes. No continente, sabemos que há cada vez mais gente a fixar-se, sobretudo no distrito de Aveiro." A Estarreja, garante a câmara, chegaram neste ano 500 pessoas. Mas também aqui as contas são por baixo: desde o início do verão, o ritmo das chegadas tem triplicado.

Diamantino Sabina, presidente do município, não podia estar mais satisfeito: o retorno dos emigrantes está a ter um impacto tremendo na economia local, garante. "Chegam com uma enorme vontade de trabalhar e colmatam as necessidades de mão-de-obra do município. Além disso, como estão a fixar-se, potenciam a recuperação das casas desabitadas nas freguesias, e até as novas construções. Tudo isto está a mexer muito com a nossa terra."

Na Madeira, onde há o dobro dos regressos, não acontece o que se vê aqui. "Claro que também há muita gente competente no Funchal, mas nas ilhas vive-se muito do turismo, enquanto este é o coração industrial do país", diz José Valente, presidente da SEMA. "Ao longo dos anos de crise, a juventude emigrou e deixou-nos com um sério problema de falta de mão-de-obra, ao ponto de termos empresas que não se desenvolviam mais por falta de trabalhadores. Estes venezuelanos e luso-venezuelanos vêm fazer os trabalhos que os portugueses não querem. São um balão de oxigénio extraordinário para o motor industrial português. Estão a resolver uma falha."

Crispim ouve e concorda, ele anda a salvar vidas e essas vidas andam a salvar a sua terra. Tem 67 anos, foi aos 5 para Caracas e regressou passados 40. Nunca perdeu o sotaque. "Fui camarada do Hugo Chávez no exército", afiança, "fiz juramento de bandeira e amo tanto a Venezuela como Portugal." À porta da sua casa há um mastro onde todos os dias hasteia as bandeiras dos dois países.

Pertence à geração dos que partiram sem nada e é ver a história a repetir-se no sentido contrário que o faz passar horas a distribuir empregos, tratar de certidões, inscrever os que chegam no SEF, no consulado, no centro de saúde. Há amigos que lhe dizem que ele é o rio que se desviou do centro de Estarreja: mais cedo ou mais tarde, os caminhos dos que chegam acabam todos por desaguar nele. Encolhe os ombros, tem outra teoria. "Sou só o homem do meio. Estou entre as pessoas que começam a vida de novo e uma cidade que está a nascer outra vez."

Venezuelíssimo trabalho
Snack-Bar Kanayma. Café Venezuela. Caracas Grill. Edifício Maracay. Confeitaria Miranda. Charcutaria Bolívar. Quem percorre hoje as ruas de Estarreja encontra constantemente as marcas de uma fuga antiga. Nas décadas de 1950 e 1960, milhares de habitantes saíram desta região para a Venezuela. Se neste lado do Atlântico sobrava fome e ditadura, do outro havia a promessa de um novíssimo eldorado.

Estes estabelecimentos são dos primeiros que partiram, e depois, com os bolsos cheios, quiseram voltar. Os que agora regressam são os seus filhos, netos, às vezes bisnetos. Em regra não trazem grande coisa consigo além da amargura de uma saída forçada.

Vítor está a aprender a chamar-se Santos, porque até aqui sempre foi de los Santos. Aos 58 anos, a vida começou do início. A sua história é a de toda a gente, pais que emigraram para fugir do campo, ele com oportunidade de estudar e compor a vida. Fez-se designer gráfico, tinha uma empresa com quatro funcionários. "Vendi tudo há um ano, convencido de que daria para trazer a minha mulher e os meus filhos comigo. Mas tudo o que tínhamos só valia uma passagem de avião." Então veio ele, que já tinha passaporte português, tentar refazer a vida e ganhar dinheiro para puxar a família para Portugal. Chegou há três meses.

No dia em que chegou encontrou emprego na Prozinco, um dos maiores empregadores do concelho. Estarreja acolhe um dos maiores parques industriais do país - petroquímicas, fábricas de transformação, indústria de plásticos e farmacêutica. Esta empresa em particular tem 600 funcionários e trabalha em duas áreas essenciais, que exporta para todo o mundo: metalomecânica e recuperação de bilhas de gás.

Manuel Matos, dono da empresa, já deu emprego a uma vintena de luso-venezuelanos desde que o ano começou. "Mais viessem. Temos uma necessidade tremenda de mão-de-obra, sobretudo especializada. Estes trabalhadores têm um nível de educação superior à média e, mesmo quando esta não é esta a sua área, aprendem-na com facilidade.”

Vítor ouve-o e agradece a oportunidade, se não fosse aquele emprego, conseguia lá mandar dinheiro à família. Fá-lo pelo mercado negro, como todos, depositando dinheiro em contas de quem tem euros e bolívares - quase ninguém.

"Estás a viver onde?", pergunta o filho do dono, Paulo. "Numa pensão aqui a dois quilómetros, venho a pé. Mas sabe, estou muito agradecido por esta vida. Não tenha pena de mim, patrão, a minha família está viva e agora pode comer." Naquele momento, numa fábrica onde o trabalho é duro e os homens de ferro, toda a gente dá por si a agarrar as lágrimas. Paulo Matos limpa o rosto e atira: "Tenho ali uma bicicleta que ninguém usa. Leva-a tu, anda.”

A meia dúzia de quilómetros fica Salreu, que os habitantes locais gostam de dizer que é a terra mais venezuelana de Portugal e normalmente utilizam este argumento: o Funchal pode ter mais gente em quantidade mas, aqui, casa sim casa não é albergue latino. É também o lugar onde nasceu Manuel Augusto, 55, que aos 17 emigrou para a Venezuela e voltou no final do ano passado.

Trouxe consigo a mulher, Judith, e os dois filhos - João Manuel, 27, que já saiu de casa para viver com a namorada, e Manuel Augusto, 11, aluno exemplar. A mãe era professora de espanhol, o pai era dono de uma padaria. Agora ela trabalha com idosos na Santa Casa e ele é padeiro. "Nos últimos meses já não trabalhava porque tinha medo dos assaltos quando ia para a escola", diz ela. "Além disso, tínhamos de passar horas nas filas de racionamento se queríamos comida. A vida estava a tornar-se insuportável."

Manuel ainda estranha o pão, que aqui é feito sem manteiga nos tabuleiros. "Mas há pão, e eu lá já não o conseguia produzir porque deixámos de ter acesso a farinha." Ao longo dos últimos cinco anos, foram minguando o conforto. "Tínhamos uma fazenda em Santa Teresa, com 200 hectares e criação de gado. Primeiro vendemos os animais, depois a terra, no fim já só tínhamos uma parcela da casa. Foi quando decidimos sair."

Vieram para casa dos pais dele, para onde também tinham vindo parar primos que andavam emigrados, eram dez almas numa vivenda com dois quartos. Lá arranjaram retiro próprio num edifício há muito desabitado, dizem que hoje já não sobram casas por alugar na aldeia. "Tudo o que aqui vê - móveis, eletromésticos, até a cama - foi-nos oferecido pelas pessoas da aldeia", e Judith comove-se com a generosidade. "Sinto que nos querem cá, dizem sempre que nos querem cá, e eu às vezes até me sinto mal por ter tantas saudades de casa."

Manuel ouve a mulher e baixa o rosto, também ele tem saudades daquele calor todo. É por isso que naquela casa se cumpre todos os dias uma viagem a um país que, diz ele, já não existe. "Eu trabalho de noite, a minha mulher de dia, o miúdo está na escola. Só temos a hora de jantar para voltarmos à nossa Venezuela, e é isso que fazemos todos os dias. Aquele país que foi o meu sonho. A Venezuela foi isso, foi o meu sonho. E Portugal, pronto, foi a minha salvação." Judith olha para o marido e dá-lhe um beijo na testa. Depois, pega no tacho e traz o guisado para a mesa. Estão tristes. E estão felizes.

Como se fosse em casa
Sexta-feira é dia de arepas na Pastelaria Avenida, estabelecimento de Salreu que é ponto de encontro da comunidade luso-venezuelana. O café tem uma bandeira do país por cima do balcão, cerveja Polar dentro do frigorífico e sotaque caribenho nas mesas. Há dois meses começaram a fazer ali as tradicionais sanduíches venezuelanas, e hoje servem mais de 50 por dia, além de empanadas e tequeños, queijo enrolado em massa.

Fátima Tavares, dona do estabelecimento, replica quando se lhe pergunta se são iguais às de Caracas: "Sabe o que me dizem todos os que aqui estão a chegar? Que pelo menos em Portugal há farinha para fazer arepas."

O verão trouxe uma leva de gente dos trópicos e isso nota-se no comércio local. O Supermercado Couto, no centro de Estarreja, é hoje um ponto de peregrinação para quem mata no estômago as saudades da Venezuela. "Eu há já uns anos que introduzi aqui estes produtos. Agora que a procura aumentou o meu problema é arranjar quem me abasteça as necessidades", diz António Couto, dono da casa desde 1985.

É homem daquela geração que emigrou e voltou para montar negócio. "No início não havia onde arranjar nada venezuelano, mas de há dez anos para cá conseguimos importar muita coisa, sobretudo via Colômbia. As restrições do Chávez, primeiro, e do Maduro, depois, criam muitas dificuldades em irmos diretos à fonte."

Nada vende mais ali do que a harina arena, farinha de milho com que se cozinham as arepas. Mas também há folhas de bananeira congeladas para quem quiser fazer a hallaca, um refrigerante chamado maltín e uns canudos de chocolate chamados pirulín. Aqui não se vendem bananas, vendem-se plátanos. Não há rum, há ron. E se o rum tiver escrito no rótulo que se chama Pampero, no expositor está identificado como caballito frenado, que é como toda a gente o conhece na Venezuela.

Os portugueses da Venezuela costumam dizer que a vida económica da comunidade do país se dividia em duas categorias. Os madeirenses tornaram-se sobretudo donos de minimercados, supermercados e hipermercados. Às gentes do continente estava reservado o negócio da padaria. E elas florescem hoje na região, acrescentando cachitos à montra de salgados e florestas negras à dos doces.

"Às vezes sinto que esta terra começa a tornar-se um território misto, metade Venezuela, metade Portugal", diz Crispim Rodrigues, o angariador de empregos da comunidade. "E isso é muito bonito, é uma lição de que as coisas não precisam de ser branco ou preto, uma coisa ou outra." Para um minuto para pensar enquanto ajeita o bigode. "Sabe como é que se mata a dor de ter de fugir de um país?" - e deixa o silêncio cimentar a solenidade da sua teoria. "Construindo outro."

Hoje, na secundária de Estarreja, é dia da primeira aula de Português - língua não materna. Todos os miúdos sabiam de antemão que ali estaria a imprensa, e todos pediram autorização aos pais para dar cara e voz às suas questões. Num universo de 2877 alunos inscritos, 26 já foram encaminhados para aqui. São venezuelanos. "Mas sabemos que são mais, porque ainda falta despistar muita gente. E há os adultos, também abrimos uma turma à noite," diz Etelvina Soares, a professora.

Aquela aula não é só uma aula. No quadro todos escreveram aquilo de que sentiam mais falta, e se Jorge tinha saudades da praia de los Roques, Andrea ainda não sabia lidar com a falta que o seu amigo Simón lhe faz. Elizabeth sente falta do calor da sua gente, Fabíola da Laedy, o café onde se encontrava com os amigos.

Quando chegaram, o diretor da escola, Jorge Ventura, deu-lhes as boas vindas e disse-lhes que tinham direitos iguais a toda a gente. "Mas temos de ter muito cuidado para que não se fechem num gueto", diz a professora Etelvina, que pela primeira vez este ano vai ter de desenvolver um programa para misturar toda a gente. Mas é quando falam dos pais que se desfazem. "O meu pai era cirurgião, agora está numa fábrica", conta Andrea. Todos contam histórias idênticas. Numa fuga de infância, é preciso crescer depressa.


Texto Ricardo J. Rodrigues

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Na Bulgária, caçar refugiados é um desporto





























Viagem à fronteira mais ignorada da Europa, onde há grupos paramilitares de patrulha, campos de refugiados que são um desespero, deportações e detenções inexplicáveis. Do sul da Bulgária, percebe-se um continente inteiro. Os refugiados são para manter longe de vista. Custe o que custar.


A cinco minutos de Yambol, uma pequena cidade búlgara 300 quilómetros a sudeste de Sofia, e a 60 da fronteira turca, há uma estrada esburacada que não liga nem atravessa quaisquer localidades, nem sequer serve de atalho para nada, muito menos alberga casas, fábricas ou armazéns.
Ao longo de quase três quilómetros de caminho, a única coisa que aqui se vê é um grande cemitério de camiões TIR, onde uma dezena de homens passa o dia a desmontar para-choques e peças de motor. Uma sucata. E no entanto não é só uma sucata.
“Hoje é um bom dia para ir à caça”, e Dinko Valev, 31 anos, avalia o céu – está mais limpo do que uma rua escandinava. É ele o dono deste ferro-velho e é com o dinheiro que aqui fatura que financia o exército paramilitar de que é líder – e que denominou de Movimento Nacionalista Búlgaro.
“Comecei sozinho há três anos a vigiar a fronteira de moto todo o terreno. Agora somos 50 homens, temos sete tanques e um helicóptero.” O que é que fazem exatamente? “Caçamos refugiados, na Bulgária é um desporto”, diz ao DN. “Chamem-lhe migrantes, chamem-lhe refugiados, chamem-lhe o que quiserem, que para mim eles são potenciais terroristas que colocam a Europa em perigo. Não os podemos, nem vamos, deixar entrar.”
Dinko tornou-se famoso no seu país há dois anos quando, depois de entregar 12 sírios às autoridades, o canal de televisão bTV o apresentou como “o super-herói que está a lutar pela pátria.” Dias depois, o primeiro-ministro veio agradecer publicamente a ajuda dos civis que apoiam a polícia na monitorização da fronteira: “O vosso contributo é bem-vindo”, disse então Boyto Borisov.
Em 2016, Bruxelas pagou seis mil milhões de Turquia para travar o fluxo de refugiados para a Europa, depois de quase dois milhões de pessoas terem entrado na União no ano anterior. E foi neste momento que os grupos paramilitares ganharam espaço para crescer. “A Bulgária construiu um muro e passou a impedir entradas sem atender a causas humanitárias nem
pedidos de asilo”, diz Martin Dimitrov, jornalista do diário búlgaro 24 horas e especialista em questões de imigração. “A palavra de ordem agora é expulsar, doa a quem doer.”
Dinko Valev e o seu exército têm hoje carta branca para caçarem os refugiados que quiserem. Na sucata que também é centro de operações, o homem apressa-se nos contactos, amanhã é dia de ir ter com as patrulhas. Um bom dia para a caça, como ele disse antes. Há hoje menos gente a passar a fronteira? “Há cada vez mais.” Mesmo com o muro? “Eles cortam o arame, mas nós não os deixamos entrar.” O que fazem aos refugiados que encontram? “Entregamos à polícia, mas se resistirem damos-lhes uma sova.” Já mataram alguém? Uma pausa, Dinko não responde. A conversa acaba aqui.

A fronteira mais esquecida


Rezovo não tem mais de uma vintena de casas, mas tem mais de uma centena de bandeiras búlgaras penduradas nas janelas, nos postes elétricos, nas árvores. A aldeia tem um monumento que assinala onde estamos: no extremo sudeste da União Europeia. Um pequeno ribeiro, altamente vigiado pela polícia marítima, separa a Bulgária da Turquia. Na margem
norte, mesmo encostada à água, há uma enorme vedação, e essa é uma imagem estranha – um curso de água murado, para que ninguém o atravesse.
“Temos a fronteira mais bem guardada da Europa”, orgulhava-se em junho deste ano o primeiro-ministro búlgaro no Parlamento Europeu. “Proponho que a Europa feche todas as suas fronteiras como nós fechámos, para que mais nenhum refugiado possa entrar.” Estes 267 quilómetros de raia com a Turquia estão vedados por arame farpado, de três a quatro metros de altura. Há unidades policiais em todas as aldeias do sul e há as milícias civis, toleradas pelo governo de Sófia.
Quando toda a gente estava a olhar para os refugiados que atravessavam o Mediterrâneo pela Itália e sobretudo pela Grécia, ou que eram travados por terra na Croácia e na Hungria, a Bulgária foi-se mantendo debaixo do radar – apesar de lhe pertencer a maior fronteira terrestre com a Turquia. Entre os refugiados, no entanto, aquela passagem era conhecida
como a mais cruel.
Keyhan Yusefi, um jornalista curdo de 37 anos, decidiu há três anos que só tinha uma hipótese de se manter vivo: chegar à Europa. “Quando o Daesh chegou ao Iraque, os jornalistas tinham a cabeça a prémio e eu não era exceção”, conta agora ao DN. “No dia em que fui à escola buscar o filho de um colega meu que tinha sido assassinado, tomei uma decisão. Tinha
chegado a hora.”
Largou a pé de Duhok e atravessou a fronteira com a Turquia – 12 horas, sem problemas de maior. “Depois meti-me num autocarro para Istambul e acabei por ficar lá um mês, a preparar o salto.” Na noite de 28 para 29 de dezembro de 2015 chegou ao norte do país, tentou entrar por Rezopo. “Lembro-me que nevava intensamente e que fui perdendo de vista as pessoas que tentavam passar comigo. Muitas foram apanhadas na fronteira e mandadas voltar para trás. Morreram de frio na floresta.”
Ele e mais três rapazes conseguiram passar a rede. Começaram a subir os montes quando lhes apareceu um grupo de homens mal encarados – era os guardas do Movimento Nacionalista de Dinko Valev. “Eu só gritava que era jornalista, mas fui espancado até não ter forças para resistir. Depois entregaram-me à polícia.” Durante três noites não o deixaram dormir, mantinham-no acordado à base de murros e pontapés.

“Depois prenderam-me dez dias num campo de refugiados, de onde não podia sair.” Lembra-se que as casas de banho estavam imundas, que os chuveiros não funcionavam, nada. “Eu queria salvar-me na Europa e afinal a Europa tratava-me como se eu nem sequer fosse humano.” No primeiro dia em que lhe foi dada permissão de saída do campo, fugiu.
Durante três meses percorreu o continente oculto até chegar à Suécia, onde tinha família. Aí, entregou-se às autoridades. “Mandaram-me de volta para a Bulgária porque era aqui que tinha o primeiro registo. Então voltaram a espancar-me e torturar-me. Mas o facto de ir para a Suécia permitiu que eu tivesse uma oportunidade de pedir de asilo.” Se receber resposta positiva, garante, sairá imediatamente do país.
Em março deste ano, a comissão parlamentar europeia de Liberdades Civis visitou a fronteira da Bulgária com a Turquia. O relatório final é bastante claro: “Os abusos dos direitos humanos mantêm-se persistentes.” Além dos casos de espancamento e tortura, “agora os refugiados veem-se empurrados para trás sem oportunidade sequer de fazer um pedido de asilo.” Martin Dimitrov, jornalista búlgaro, resume o estado das coisas neste momento: “Batemos nuns quantos refugiados e deixamos que muitos morram. Os outros, simplesmente, tratamo-los mal.”

Um campo para fantasmas


Muros altos com vedações eletrificadas. Três blocos de edifícios robustos, com as paredes descascadas. Um posto de vigia com vista para o enorme terreiro onde um rapaz sírio, vestido com uma camisola de Cristiano Ronaldo, e esta ainda é do Real Madrid, se torna todas as tardes estrela local de futebol. Isto é o campo de refugiados de Harmanli, o maior do país, a 40 quilómetros da fronteira turca. Isto também é uma antiga prisão, convertida em albergue improvisado em 2015. Isto continua a ser uma prisão, dizem os que lá vivem. Até ao final de 2016 a Bulgária tinha acolhido oficialmente 60 mil refugiados (o governo calcula que um número 10 vezes superior tenha atravessado o país sem registo) e mais de 25 mil pessoas foram colocadas aqui, apesar das instalações não terem capacidade para mais de sete mil. Na vila de Harmanli, que não tem mais de 10 mil habitantes, as tensões começaram a notar-se. Uma das medidas mais simbólicas foi o facto de os búlgaros proibirem os refugiados de pendurarem publicamente – em árvores e estações de autocarro –o anúncio dos seus mortos.
No outono de 2016 a extrema direita organizou uma série de manifestações a exigir o encerramento do campo e a deportação dos estrangeiros. Em novembro, houve um motim entre os refugiados, que se queixavam da falta de condições sanitárias e de estarem presos sem culpa formada. A polícia marchou sobre a multidão, centenas de estrangeiros foram detidos e, depois, deportados.
Saleha Naimi é um dos 264 fantasmas que sobram em Hamanli. É essa a alcunha que os habitantes da vila dão hoje aos poucos refugiados que ainda permanecem no campo – são sobretudo crianças que chegaram aqui sozinhas e gente à espera de resposta a pedidos de asilo e reunificações familiares. Na Bulgária, em 90 por cento dos casos, diz o relatório publicado no início de agosto pela Fundação de Acesso aos Direitos, uma ONG que defende os direitos civis dos refugiados, esses pedidos são recusados.
Afegã, 60 anos, Saleha era professora e, precisamente por ser mulher, instruída e ensinar outras mulheres a escrever, tinha a cabeça a prémio pelos Taliban. “Eu morava numa das zonas mais conservadoras do país e tive de mudar-me para Cabul. Nós chamamos-lhe Caboom, por causa das bombas e dos atentados.” Ali, apesar de tudo, podia dar aulas. Mas as coisas
complicaram-se no final de 2015, quando o marido quis casar a sua filha, de 16 anos, com um homem de 64.
Pegou imediatamente na rapariga e fez-se ao caminho. Com a ajuda de alguns trabalhadores internacionais chegou ao Irão e daí passou de autocarro a fronteira para a Turquia. “Depois estive quatro noites na floresta, sem qualquer comida e apenas um cantil de água, até conseguir entrar na Bulgária.” Foi apanhada pela polícia na fronteira e nem quiseram saber a sua história. “Fiquei presa, em total isolamento, durante 22 dias.” Só quando saiu percebeu que estava em Hamanli.
Como tinha uma filha menor pôde pedir asilo. Está há dois anos e meio à espera da resposta. No início de 2017, à medida que o campo se esvaziava, pediu para ocupar uma das salas livres e fazer ali uma escola para as crianças refugiadas. “Quando comecei tinha 200 alunos, agora não são mais de 20. Não tenho qualquer apoio ou materiais de trabalho. Mas, se não fizer este esforço, estas crianças – que estão sozinhas - não vão ter quaisquer ferramentas para se defender do mundo.” Ivan Cherescharov, presidente da Caritas búlgara, diz que não há hoje qualquer apoio para os três mil refugiados que sobram no país. “Somos nós que damos 100 por cento das ajudas, mas o governo deixou de nos dar qualquer financiamento.” O relatório da Fundação de Acesso aos Direitos também não deixa dúvidas: “Os refugiados não têm acesso a direitos básicos e estão a ser expulsos da Bulgária em total desrespeito pelos direitos europeus.” O Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados já condenou este abandono búlgaro. Ivan diz que está em marcha um plano europeu: “Se ninguém os vir, eles não existem.”


Não voltarás


Hoje houve várias pessoas a receber resposta aos seus pedidos de asilo e o desespero toma conta dos fantasmas de Hamanli. Ahmad Waheed e a sua mulher Shaimamuri estão preocupados. Têm ambos 70 anos e o seu pedido de estatuto foi rejeitado. “Voltar ao Afeganistão não é uma opção”, diz o homem num inglês sem mácula. “Mas também não temos forças para andar a tentar passar a fronteira outra vez.”
Muitos dos que são deportados tentam voltar a entrar na Europa, mas a maioria acaba por ficar na Turquia, onde há 3 milhões de refugiados. “O problema é que na Turquia entram grupos radicais que também nos perseguem”, diz o homem. O seu crime não foi seu, foi do filho: foi tradutor das tropas britânicas durante dois anos. O rapaz foi morto pelo Daesh e os velhotes fizeram-se à estrada. Pensaram que Londres podia acolhê-los, mas nem o Reino Unido, nem a Bulgária os querem. Agora não sabem o que fazer.

Num quarto ali ao lado há uma família que se abraça num longo choro. Hamid Mohammadi, um sírio de 35 anos, acabou de receber ordem de deportação para casa – consideraram a sua migração uma questão económica. Sumaya, 28, é a sua mulher. Ela vai poder ficar com os dois filhos do casal – Suhil, de 6, e Avshia, de 3. Mas agora hesita: “Volto contigo, a nossa família lutou demasiado para se manter unida.”
Vieram há dois anos, quando elementos do Daesh começaram a ameaçar Hamid por trabalhar para uma empresa de cimento ucraniana e, aos olhos do grupo terrorista, estava a compactuar com os infiéis. “Não foi fácil atravessar a Turquia com uma criança de um ano e outra de quatro. Mas o pior foi chegar à fronteira.” Pagaram três mil euros a um passador que os fez caminhar durante 10 horas até passarem a vedação. “Quando chegámos à Bulgária, ele disse que afinal o preço era de oito mil euros. Disse-lhe que não tinha dinheiro e ele disse que ia ficar com os meus filhos para os vender.” Ao seu lado, Sumaya chora e confirma tudo.
Hamid começou a gritar: “Help, help, help.” E diz que teve uma sorte danada porque, passados uns minutos, apareceu um grupo de vigilantes – o homem não consegue determinar se era o movimento de Dinko Valev ou qualquer outro. “Deram-me uns pontapés, fiquei preso um mês, mas pelo menos a minha família permaneceu junta.” Agora, a Europa que eles acreditaram poder mantê-los a salvo é a Europa que os obriga a separarem-se. “Há um provérbio no meu país que diz que, se gritares, alguém acabará por ter ouvir”, diz Sumaya. “Mas como é que podemos ser ouvidos se nos empurram de volta para o deserto?”


Texto de Ricardo J. Rodrigues