quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Fabrica de laticínios Marinhas




























Há 65 anos nasceu em Esposende a primeira fábrica de laticínios certificada em Portugal. A Marinhas é uma empresa familiar, onde o queijo e a manteiga são ainda produzidos de forma 100% artesanal.

É na estrada nacional 13, que liga Porto e Valença, que encontramos um edifício de pedra, com um moinho de vento na fachada, rodeado por campo e com vista para o mar. Na fabrica de laticínios Marinhas localizada na freguesia de Marinhas no concelho de Esposende, produz-se uma das melhores manteigas do mundo, segundo a revista inglesa Wallpaper, e um queijo magro como há poucos no país.

“O nosso queijo continua a ser único porque é magro, não leva corantes, conservantes, anti bolores, anti fúngicos ou revestimento externo. É feito tal e qual como em 1954 e, por isso, tem um prazo de validade muito curto”, explica Berta Castilho, ao leme do negócio de família.
Os lacticínios Marinhas são um dos tesouros da região e se para uns esta é uma marca perfeitamente desconhecida, para outros faz parte de uma memória gastronómica com carimbo nacional. A empresa familiar, que vai na quarta geração, mantém orgulhosamente os métodos de fabrico há 65 anos, é recomendada por médicos e consta que até a mulher de Belmiro de Azevedo é fã dos seus produtos.

O leite, a principal matéria prima, vem da Póvoa de Varzim, mas é de Esposende que saem queijos e manteiga feitos em máquinas antigas pela mão de 24 trabalhadores, a maioria mulheres, residentes naquela zona. Manuel Fernandes é um dos poucos homens que vemos literalmente com as mãos na massa. “Estou aqui há 36 anos, não sei fazer mais nada”, confidencia ao Observador. Com uma bata branca vestida e uma touca na cabeça, recorda que já partiu um pulso e se queimou numa máquina, mas nada que o assuste ou demova na arte de fazer queijo.
Uns metros ao seu lado está Fernanda Vale, a funcionaria mais antiga da fábrica, que faz queijo e manteiga há 44 anos. “Já passei por todas as secções, este foi o meu primeiro emprego e hei de morrer aqui”, diz. Sorridente, retira com uma faca os restos de queijo dos tecidos da máquina de prensa e garante que gosta de ensinar quem ali chega pela primeira vez.
A Marinhas sobreviveu à revolução de abril, resistiu a modas e a tendências e manteve-se fiel à sua origem e à sua história. Berta Castilho, a responsável, diz não cair na tentação de a reinventar ou modernizar, afinal, “há memórias que não podem ser atraiçoadas”.

A fábrica que dava emprego à região e era o 112 em caso de acidente

Tudo começou em 1939, quando pequenos fabricantes de manteiga da região se instalaram ali, criando a Lacticínios de Esposende, Lda, com quotas cedidas pela Junta Nacional de Produtos Pecuários. Anos mais tarde, a sociedade acabou por falir tendo sido vendida em hasta pública. Amílcar e Reinaldo Castilho, pai e filho naturais do Porto, compraram-na em 1954, dando-lhe o nome da freguesia. “O meu avô era advogado e só entrou com capital, quem realmente levou a empresa para a frente foi o meu pai, que era engenheiro civil”, conta Berta Castilho em entrevista ao Observador.
Berta é a mais velha de três irmãos e está há 28 anos à frente dos destinos da Marinhas, a primeira fábrica de lacticínios certificada em Portugal. “No início só tínhamos licença para o fabrico de manteiga, mas não era viável, não tinha expressão. Os lacticínios em Portugal estavam ainda no começo, as pessoas comiam margarina em vez de manteiga, usavam óleo em vez de azeite”, recorda. Reinaldo Castilho, o seu pai, viajou pela Europa para ver o que se fazia lá fora e dois anos depois aventurou-se na produção de queijo, apostando num produto diferente.

“Os portugueses têm a tendência a imitar bastante bem o que se faz lá fora, naquela altura toda a gente fabricava o queijo bola vermelho, tipo flamengo, um original holandês. Ora o meu pai resolveu fazer um queijo que não era bola, nem vermelho e ainda por cima era magro. As pessoas estranharam imenso, foi difícil colocá-lo no mercado.
Valeu a publicidade boca a boca e as indicações médicas, já que os especialistas da época o consideravam um queijo mais saudável e de fácil digestão, fazendo com que o produto se afirmasse assim, principalmente na zona norte. O sucesso obrigou a família Castilho e mudar-se para Esposende, numa década em que a cidade “era a estrada nacional e pouco mais”. A Marinhas era assim o principal emprego para a região, mas também um verdadeiro 112. “O meu pai chegava a emprestar gelo e carros da fábrica para transportar doentes quando havia um acidente”, recorda Berta, que cresceu entre aqueles corredores.
Quando em 1991 passou a tomar conta do negócio, certificou a empresa em segurança alimentar e preparou a gestão futura, mas sem nunca alterar o essencial. “A marca não se pode reinventar, tem que permanecer fiel, caso contrário não se aguenta de pé. Recebemos pessoas de todo o país que vêm buscar o que comiam em casa dos seus avós, essas memórias não podem ser atraiçoadas. O nosso público é fiel, não podemos mudar muito.”
O preço a pagar pela qualidade de um produto fabricado artesanalmente e em pequenas quantidades nem sempre é fácil de gerir. “Sentimos diariamente as consequências desta nossa opção. É difícil gerir a procura, há muita pressão para tentar modificar e levar o produto a um nível diferente, mas vamos manter-nos assim, pelo menos enquanto der e se conseguir viver disto”, realça Bárbara Castilho, filha de Berta e responsável pelo departamento de comunicação da marca.
Os produtos Marinhas vendem-se de norte a sul do país, mas dificilmente são enviados além-fronteiras. “Como não levam conservantes e o tempo de viagem dos transportes terrestres é elevado, quando chega ao destino tem metade do tempo útil. Outra das tentações é o vácuo, não o utilizamos porque quando se tira de lá o queijo sabe a plástico.” Quando em 2008 a revista inglesa Wallpaper considerou a manteiga Marinhas como uma das melhores do mundo, o produto esgotou até hoje. “Até aí tínhamos manteiga para dar e vender. Em 1991 existiam dez toneladas de manteiga no frigorífico armazenadas, mas de repente o produto esgotou.”

Embalados à mão, sem corantes nem conservantes

A fábrica recebe diariamente entre 15 a 20 mil litros de leite de vaca, que depois de ser devidamente analisado segue para uma máquina que retira parte da sua gordura. A nata retirada é colocada em bilhas de metal de 50 litros que vão para uma câmara frigorífica durante 16 horas para acidificar. Posteriormente a nata é batida durante duas horas, adiciona-se sal e transforma-se em manteiga, que depois é embalada à mão com papel vegetal.
“Não compramos nata, fazemos a manteiga a partir da nata que retiramos do leite para fazer o queijo magro. Se fizermos mais queijo temos mais manteiga, se fizermos menos queijo temos menos manteiga”, garante Berta Castilho, acrescentando que, apesar de a manteiga ter sido o primeiro produto a ser comercializado pela marca, atualmente é o queijo magro o rei das encomendas.
O leite é pasteurizado a 78 graus, arrefece a 30 para depois ser centrifugado e homogeneizado. Após ser coagulado, são adicionados fermentos, cloreto de cálcio e, por fim, o coalho. O preparado repousa durante 35 minutos até se tornar numa espécie de gel. Esta massa é laminada e escorrida para retirar o soro, que serve depois para alimentar gado, nomeadamente porcos. Quando atinge uma textura mais consistente, o queijo é colocado em formas de plástico de vários tamanhos para ser disposta numa máquina de prensa, entre 18 a 20 horas, e assim retirar o soro que resta. “Utilizamos um tecido em cada forma para depois ser mais fácil retirar o produto”, explica Sílvia Abreu, responsável pela produção.
Chega a hora de salgar o queijo e, para isso, há que mergulhá-lo numa solução de água fria com sal entre duas a seis horas, dependendo do tipo de queijo que se pretende: bola, barra, magro, gordo ou amanteigado. Quando já tem o sabor salgado que conhecemos, o produto é distribuído em cestos de plástico e colocado numa câmara de cura a 10 graus. O queijo magro permanece ali oito dias, já o gordo fica o dobro. “Cada um deles tem um lote escrito à mão com o dia, o mês e o tempo de cura”, revela Sílvia Abreu.
No caso do queijo sápido, mais salgado, a cura pode durar um mês e o bolor natural é lavado à mão com uma escova própria, já o queijo bola é pintado à mão, depois de seco, com uma esponja embebida em tinta vermelha alimentar. “Começamos a fazer queijo de cabra há um ano, mas ainda temos alguma dificuldade em encontrar leite de cabra nesta região”, justifica a responsável pela produção da fábrica, acrescentando que a novidade é mesmo o queijo cremoso fundido com menos 10% de gordura, cuja embalagem em forma de bisnaga faz lembrar uma pasta para os dentes.
É na zona de embalamento que são retirados os bolores naturais e se coloca o produto num tapete de secagem. Há caixas, rótulos e embalagens para todos os gostos, das mais pequenas que seguem para os restaurantes às maiores em forma de barra. Para fazer um quilo de queijo magro são necessários 13 litros de leite e o prazo de validade pode ir até aos três meses, já a manteiga com sal deve ser consumida em dois meses e a sem sal em apenas um mês.

A publicidade polémica no jornal e a preferência da mulher de Belmiro de Azevedo

O queijo Marinhas era presença assídua nas prateleiras dos hipermercados do grupo Sonae desde o ano em que foi fundado, em 1959. No entanto, o cenário mudou na década 1990. “Fomos chamados para uma reunião em Lisboa em que nos foi dito que o nosso produto era muito caro, não tinha procura e não lhes interessava mais”, recorda Berta Castilho, admitindo que com estas grandes empresas “não há forma de negociar”, pois “as vendas não são efetivamente expressivas, comparativamente à oferta que eles têm”.
Chegada a Esposende, a responsável decidiu comprar uma página de publicidade em dois jornais – “não tínhamos dinheiro para ir à televisão”- informando os clientes que a marca já não estava à venda na Sonae, mas que podiam procurar os seus produtos na morada indicada ou através dos respeitos contactos. “Não tínhamos outra maneira de comunicar com as pessoas, muitas já pensavam que a marca tinha acabado, o que não era de todo verdade.”
Quando a publicidade sai, a marca é acusada de enfrentar um grupo gigante, “mas lá diz o ditado: perdidos por cem, perdidos por mil”. Dois meses depois, Berta foi chamada a ir novamente a Lisboa para uma reunião, mas recusou. “Vieram eles à fábrica, inclusive a pessoa que nos tinha dito que o nosso queijo não interessava. Disseram-nos que tinha sido um mal entendido, que realmente havia muita gente a procurar o produto e a perguntar se podíamos voltar a fornecer.” O queijo Marinhas voltou, assim, às prateleiras dos hipermercados da Sonae, onde permanece até hoje.
A família Castilho soube, através de alguém que trabalhava no grupo, que Maria Carvalhais, a mulher de Belmiro de Azevedo, era paciente do médico Fernando Póvoas e que este lhe recomendava consumir o queijo Marinhas. “Contaram-nos que quando ela se apercebeu que o produto já não estava à venda deve ter ido falar com alguém superior. Pelos vistos deu resultado, pois foi tudo no mesmo timing”, revela Bárbara Castilho, responsável pela comunicação da marca.

Texto por Maria Martinho

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

O bebé deitado fora e como ele se salvou


























João e Rui, sem-abrigo, reconstituíram o salvamento do recém-nascido abandonado num ecoponto.

Quando João viu aquilo retraiu imediatamente a cabeça para fora da moldura amarela do ecoponto. Tinha os olhos muito abertos. Vira uma coisa que não era suposto estar ali, que não parecia verdadeira, uma coisa irreal, uma coisa que parecia errada, ou pior, e quando olhou a segunda vez já foi à cautela, de tronco inclinado para trás.
Varejou o olhar lá para dentro a ver o que podia ver, esquadrinhou, viu o bafo da própria respiração e não viu nada daquilo que imaginava ver. Ficou ali ainda uns segundos, confuso, a hesitar, sem saber o que fazer. Como aquilo não lhe passava, uma estranheza, inquietação, contradição, uma sensação de fogo a deslizar no gelo, a subir-lhe ao peito, pôs-se subitamente a correr, alucinado como o Bolton, e foi chamar o Rui.
Eram 9.30 da manhã. O Rui estava ainda no quiosque abandonado por trás da discoteca lisboeta Lux, na calçada onde se esticavam as cinco tendas verde-musgo, a sua, a do João, a do Sidnei e da Sara, que dormiam, a do Bangla e a do Xavier, que já não estavam, Rui arrumava cenas e trincava uma maçã. "Ele chegou esbaforido, todo desorientado, vinha do outro lado da rua, é estranho, parecia que chorava sem chorar, todo a tremer. Ó pá, ó Rui, eu vi um bebé, pá!, anda comigo lá, é um bebé, pá!, estou a alucinar", disse o Rui que disse o João sem perceber patavina do que ele estava a dizer. "Mas viste o quê?, e viste aonde?, perguntei eu que já me estava a passar. Estás-me a assustar, João, viste o quê? E fomos os dois, ele nervoso, eu ansioso, e fomos a abrir".
Percorreram os 400 metros da calçada marginal à Avenida Infante D. Henrique, entre a linha dos comboios da CP, o terminal de cruzeiros do Tejo, as gruas grandes, os vagões e os contentores da EMEF, do outro lado da Estação de Santa Apolónia, vão acelerados, vão a ventar, e chegam os dois ao grande caixote do ecoponto a arfar. "O caixote estava cheio de tampas de garrafas e plásticos, eu espreitei, enfiei a cabeça, olhei, tornei a olhar, nada. Mas que bebé?", diz o Rui a olhar semicerrado para o João, "não está aqui nada!". Vasculharam outros caixotes, viram os contentores de metal, reviram, nada. "Eu fiquei a duvidar do João", diz o Rui, "ele tem psicoses, mete metadona, desorienta-se, ele sabe (João concorda silencioso), ele estava com uma onda marada, pá, a anhar". Mas o João jurava e repetia baixinho: "Eu vi. Era um bebé...". E saem os dois desalentados dali.
Pelo caminho encontram o Vítor que vinha lá do fundo onde dormia, nas tendas onde dormem 11 pessoas debaixo do viaduto, contam-lhe tudo e o Vítor só diz: "É pá, se é um bebé é porque está morto. Afastem-se. É melhor".
Mas aquilo continuava a comer-lhes as cabeças e os dois decidem o contrário, vão à polícia turística da estação. Entram de rompante, atropelam as palavras, esbracejam, mas os polícias, que eram dois, não acreditam neles, gracejam, troçam deles, dizem que têm é que se internar. "E saímos os dois chateados dali", diz o Rui. "Contamos os trocos, eu comprei sangria, voltei para a tenda e o João, ó João tu és mas é maluco, foi à vida dele para o lado da estação".
João arrumou uns carros e uns trocos, cirandou no átrio de Santa Apolónia que já se enchia de fumo azul das castanhas lá fora a assar, encontrou Arlindo, o pregador - há uns tempos o Arlindo estava atolado nas trevas em Espanha, viu uma luz a rasgar e retornou a Portugal, "foi uma coisa a descer sobre mim, foi como um êxtase", e agora anda sempre a pregar, pede moedas, dá a palavra, diz que "temos todos ainda salvação" -, almoçaram um frango comido à mão, beberam vinho de pacote e continuaram a arrumar.

João chora: "É um bebé!"

Mas aquilo não saía da cabeça do João. "Nem da cabeça, nem do coração. Era um peso aqui no peito, atrás dos olhos, não sei bem dizer, uma coisa que se meteu em mim, que não me deixava pensar, mas, raios, eu vi ou não vi um bebé?!".
Vai passar uma meia dúzia de horas de roldão até que João torne ao ecoponto. Foi às 4.30 da tarde. "Tinha que saber, dava em maluco, vi ou não vi o que vi?". João vai, chega, deita as mãos ao bojo do ecoponto, espreita para lá com a orelha, ouve o pranto baixinho, chorinho, aterra-se outra vez e desata outra vez a correr, "ó Rui!, ó Rui!".
Contrariado, afobado, Rui segue atrás do João a resmungar mas vai. Vê umas calças de fato de treino pelo caminho caídas no chão, sacode-as, dobra-as depois de as cheirar, chegam e põem-se os dois de atalaia. "E então ouvimos! Era um choro pequenino, era estranho, parecia mecânico, parecia um choro daqueles bonecos a pilhas de brincar", diz o Rui um tanto alterado. Tremebundo, mete a cabeça no ecoponto e vê no mar de tampinhas cor de anil uma perna e um braço gordinhos de bebé a despontar. Grita com a cara lá dentro: "É um bebé!". João chora, ataranta-se, diz que não parou de tremer mas que se sentia a ferver, pontapeia o contentor de ferro, está eufórico. "Vês! Não estou maluco!". Os dois rebentam impetuosos a moldura amarela do ecoponto, gritam como tolos, disparatam, João mete os dois braços lá dentro de uma vez, pega no bebé por uma perna, "era a esquerda", e iça-o cá para fora, protegido na palma da mão, as perninhas a rabear no ar.
"Ele chorava e nós chorávamos também", diz o Rui atrapalhado a mostrar como fez para o embalar. "E assim que o encostei ao peito, ele sossegou logo, calou-se logo, parou imediatamente de chorar, parecia um anjinho, meu Deus, os olhos ainda fechadinhos, como é que isto está aqui a acontecer?!".
O anjinho estava nu, sujo de sangue, exangue, arroxeava - e "estava duro, a cabeça não tombava, reparei logo", diz o João, "e ainda tinha o toquinho do cordão umbilical a sair, coitadinho", diz o Rui, "e o cordão estava mal cortado, foi traçado com os dentes, se calhar ".

Xavier entra em cena a mentir

O que aconteceu a seguir foi confuso porque já ali se juntara muita gente inquietada, a perguntar, a sacar de telemóveis, a vozear, braços no ar. Já o Rui embrulhara o bebé nas calças de fato de treino que pousara em cima do ecoponto, ele o João procuram-se nos olhos, encontram-se, olham os dois para uma mulher acabada de chegar - e depositam-lhe o bebé nos braços emudecidos. A mulher é logo ladeada por dois homens saídos da parte oculta de trás da Lux e internam-se os três, mais o bebé, na discoteca. E essa foi a última vez que o Rui e o João viram o bebé que acabavam de salvar.
Ababelados, meios zonzos, sem saber outra vez o que fazer, João repara que o Rui tinha a cara subitamente fechada e olhava-o de olhos selados, muito sério. Ele aproxima-se, diz-lhe algo que vai ter que repetir - "temos que agradecer, João" - porque a voz se lhe engasgou e seguem os dois em direção à Igreja de Santa Apolónia.
Quando voltaram minutos depois - "Agradecemos a Deus ter-nos posto ali. Foi um ato de confiança d'Ele, com isto Deus disse-nos que conta com nós os dois", relata depois o Rui -, já estava tudo mudado. Já havia televisões, focos agitados, polícias, gente ao redor a ver. E no meio daquele torvelinho reparam em Manuel Xavier, "o que dormia ao nosso lado nas tendas do quiosque, mas com quem nem nos damos assim tão bem", ele era o centro das atenções e falava para as televisões. Pasmados, a boca à banda, retraem-se. Rui procura os olhos do Xavier, Xavier repara, ignora-o num olhar, e continua a acaudilhar os jornalistas que fazem fila para o entrevistar. "E nós vazamos dali, claro", diz o João chateado, "não ia ficar ali a ouvi-lo a mentir". Diz agora o Rui e o seu olhar é mau: "Ele não encontrou nada, não salvou ninguém. É mentiroso. Roubou-nos a história. Roubou! E porquê?".
Manuel Xavier não foi mais visto na rua. "Soubemos que lhe deram uma casa em Cascais, no dia a seguir às televisões, depois apareceu com Marcelo, mentiu a toda a gente, mentiu ao Presidente, armou-se que era o salvador", dizem o Rui e o João. E isto sucedeu a 5 de novembro, faz hoje 50 dias, a história esteve sempre mal contada.

Mãe foi presa e confessou logo

A mãe do bebé é Sara Patrícia, o pai diz não saber quem é. Tem 22 anos, é cabo-verdiana, vivia sem abrigo, usava drogas, prostituía-se, escondeu de todos a gravidez, inclusive do namorado, o Sidnei, com quem dormia na tenda ao lado do Rui e do João. Foi detida pela Polícia Judiciária 72 horas depois. E confessou. Teve o bebé sozinha na rua, não lhe deu nome, não o quis, nunca o quis, deitou-o fora aflita no ecoponto na noite da desesperação. E continua presa em Tires, indiciada pela forma tentada de homicídio qualificado. O Supremo Tribunal negou-lhe a saída da prisão preventiva. Aguarda conclusão de investigação da PJ e acusação do Ministério Público.

O bebé agora está bem

O bebé esteve hospitalizado de 5 a 21 de novembro. Dia 22, a Santa da Misericórdia de Lisboa, cumprindo ordem do Tribunal de Menores, revelou: o bebé "teve alta da Maternidade Alfredo da Costa", "saiu clinicamente bem", "estará com família de acolhimento", "até que se decida o seu projeto de vida".
João Paulo Saraiva, 52 anos, que agora tem os olhos sempre espantados, mesmo se os fecha, continua na rua. Já mudou várias vezes de poiso. Esta semana estava incrustado no viaduto, numa tenda emparelhada com a de Arlindo, o pregador - Arlindo espichou no betão, acima das suas cabeças: "O fim está próximo. De que lado queres estar?". Rui Machado, 54 anos, também largou dali. Dormirá para lá de Xabregas, num condomínio abandonado, os olhos cerrados no frio, e sentia-se a ruir. Ontem terão comido os dois bacalhau. Hoje não sabem se haverá.



Por José Miguel Gaspar

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Nova Póvoa





























O edifício Nova Póvoa, na Av. Repatriamento dos Poveiros, é o prédio com mais habitantes em Portugal. Tem 28 pisos e quase 300 apartamentos, distribuídos por 90 metros de altura.
no verão, chegam a morar mais de mil pessoas. Foi, durante muitos anos, o edifício mais alto da Península Ibérica. Uma cidade dentro da cidade