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quarta-feira, 13 de março de 2019

"Ganhar uma estrela Michelin é muito fixe. Mantê-la é que é o caralho"




















Com pouquíssima atenção da crítica, a trabalharem com produtos que conhecem desde miúdos e a ajudarem os pais a servir almoços no restaurante da família, os irmãos Óscar e António Gonçalves conseguiram levar o mais alto galardão da gastronomia mundial a Trás-os-Montes. Têm direito a falar da maneira que bem entenderem. 

Na semana a seguir ao anúncio, Óscar Gonçalves, 42 anos, nem conseguia entrar na cozinha. "Uma pessoa fica assustada com o peso da responsabilidade", diz o chef do G Pousada, restaurante de Bragança que ganhou em novembro de 2018 a primeira estrela Michelin para Trás-os-Montes. "Fartei-me de trabalhar para chegar aqui, sim, não vou mentir e dizer que não era isto que queria. Mas depois, quando aconteceu, fiquei paralisado. Ganhar é muito fixe", diz com o sotaque e a convicção do Nordeste, "manter é que é o caralho".

O que Óscar conseguiu fazer não é nada menos do que uma improbabilidade. "Há um eixo da alta-gastronomia em Portugal que está concentrado ao longo do litoral do país. E agora há um representante do interior menos acessível, do interior mesmo a sério", diz o irmão António Gonçalves, 33, que dirige a sala e gere toda a Pousada de São Bartolomeu, restaurante incluído. De facto, das 32 estrelas Michelin portuguesas, dez estão na Área Metropolitana de Lisboa, dez no Algarve, seis na região do Porto e três na Madeira. Há depois uma estrela em Montemor-o-Novo e outra em Guimarães. "E a nossa, aqui no fim do mundo."

Numa terça-feira do final de fevereiro, um casal de japoneses provava as bolas-de-berlim com presunto de porco bísaro e elogiava a versão da casa de um bombom Rocher - com alheira, castanha e amêndoa. Atrás jantava um grupo de espanhóis, mais adiante dois casais de franceses. E portugueses, vários, quase nenhum transmontano. "Quando se toma uma decisão destas, de abrir um restaurante de fine dinning num lugar isolado, temos de ter consciência de que o mercado local não vai conseguir sustentá-lo. Portanto, o desafio é criar um plano que funcione e seja sustentável."

Então aqui há uma história que não é tanto sobre pratos ou receitas. É sobretudo sobre o plano que os irmãos Gonçalves traçaram para conseguir materializar esta improbabilidade. É sobre como, durante anos, trabalharam em restaurantes de topo e depois de virem abrir o G Pousada continuam a dar uma mão aos pais no estabelecimento da família.

Usam os produtos que conhecem desde miúdos, recrutam o talento dos amigos com quem cresceram e assim criaram algo francamente autêntico. Algo que, mesmo fora dos circuitos, é tão especial que consegue convocar o mundo inteiro para junto deles. Então a conversa tem de ser tão autêntica quanto os irmãos Gonçalves. Estes rapazes têm direito a falar como quiserem.

O melhor que conhecem
Às duas da manhã sai a primeira fornada de pão. Óscar e António vão ver se a bola de carnes está crocante - e está, claro que está. "Hoje, na alta-gastronomia, há uma grande preocupação com o pão", diz o cozinheiro. "E nós também a temos, claro. Para nós, este é o melhor pão que existe." O que é surpreendente é que não são eles a fazê-lo. Antes vão buscá-lo à Carragosa, uma aldeia a meia dúzia de quilómetros de Bragança, onde Abel Gonçalves, 60 anos, o prepara há quatro décadas.

"O truque é o tempo que se deixa a massa fermentar e é cozê-lo em carvalho francês", esclarece o padeiro, que conhece os rapazes desde que eles jogavam ao guelas. "Mas olhe que nunca mudei a receita por causa deles, o que faço para eles é o que faço para toda a gente." Notou um aumento nas vendas e pedidos de distribuição para outras zonas do país, isso sim, e sobretudo desde que os Gonçalves ganharam a estrela. "Mas não tenho mãos para distribuir mais, já me chegam os 600 pães que tenho de cozer todas as noites aqui para a nossa região."

As memórias de Óscar, primeiro, e de António, uns anos mais tarde, são sobretudo de invadir a padaria "do Abel" no final de uma noite de copos, quando a fome apertava depois de andarem na farra com os amigos. "Saía o pão quentinho e nós a pedirmos manteiga ao Abel, que refilava mas tinha lá sempre um bocado guardado para nós", conta o irmão mais velho. "E isto não era só para encharcar a cerveja, era o ritual delicioso que fazia parte da nossa vida - e isso também nos define. Então é este pão que temos de servir no nosso restaurante. Este e mais nada."

E o facto curioso é que esses amigos da gandulagem são quem hoje lhes fornece uma boa parte dos produtos que usam no restaurante. O Beto, por exemplo, tinha sempre os melhores presuntos porque os pais criavam porcos bísaros. E hoje é ele - que modernizou a produção e a levou aos mercados internacionais - quem abastece a cozinha do G Pousada. Beto, que na verdade é Alberto Fernandes, diz que este é um dos melhores cartões-de-visita que o fumeiro transmontano poderia ter.

"Vendemos para o país todo, vendemos para fora de Portugal e vendemos para vários restaurantes com estrelas Michelin", diz o empresário. "Mas nada bate a frescura de apresentar o produto aqui, na nossa terra, e fazê-lo num ambiente de altíssima qualidade. É assim que valorizamos a nossa terra, que é o que queremos todos." Então hoje, Beto, aliás Alberto, decidiu contratar um cortador de presunto espanhol para vir ensinar aos funcionários do G Pousada a técnica certeira de criação de lascas. "Não é que eu ganhe mais por isso", replica. "Ganha Bragança, ganha Trás-os-Montes - e com isso ganhamos todos."

Há outros exemplos mais simples desta união de esforços. Quando Gilberto Ferreira se decidiu pela cutelaria, os Gonçalves ficaram atentos. Vive na Aveleda, aldeia do Montesinho, foi colega de escola de António. "Eu gostava desta coisa de fazer facas e eles um dia pediram-me que as fizesse para o restaurante deles." Facas de carne com cabos de freixo, primeiro. "Se todo o transmontano anda sempre com uma navalha para cortar o fumeiro, nós arranjámo-las personalizadas, feitas na aldeia, por alguém da terra", explica Óscar.

Entretanto acrescentaram à mesa facas de manteiga feitas aqui. Há umas semanas, têm também umas com cabos de hastes de veado, que Gilberto vai apanhar à serra depois da brama, o período em que os machos emitem um canto de combate para lutar pelo direito à reprodução. "A faca com que cozinho é feita por ele, e já ofereci algumas a outros chefs", conta Óscar, que também as vende na pousada. O sucesso dos irmãos Gonçalves tornou-se aos poucos o de Gilberto - desde que os amigos ganharam uma estrela, chovem-lhe encomendas do mundo inteiro. É esta a Bragança moderna - está a ser feita pelos que foram para fora ver o mundo e, quando voltaram, perceberam que afinal o mundo estava já inteirinho aqui. 
O caminho para casa
A mais pura das verdades é que Óscar Gonçalves não sabia muito bem o que queria fazer da vida. Depois de acabar o secundário, foi estudar Engenharia do Ambiente para a Universidade Lusíada, no Porto. Ficou dois anos, depois decidiu mudar de universidade e foi fazer o mesmo curso na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, em Vila Real. Mais dois anos e nova mudança, desta vez pa ra Bragança. "Aquilo não tinha nada que ver comigo, e a verdade é que eu tinha de tomar decisões sobre a vida e só estava a adiá-las."

Tinha quase 30 anos, acabara de casar e conversou com a mulher. "A coisa que eu gostava mesmo de fazer era cozinhar. E ela apoiou-me em ir tirar um curso na Escola de Hotelaria de Turismo de Mirandela." O irmão António, que tinha tirado Gestão Hoteleira no Algarve, estava na altura a trabalhar como escanção no Feitoria, restaurante com uma estrela Michelin em Lisboa (comandado primeiro por José Cordeiro e atualmente por João Rodrigues, dois chefs por quem os rapazes têm ainda hoje uma quase-devoção). E conseguiu trazer Óscar para perto dele.

Durante três anos, António, e um ano, Óscar, tentaram aprender tudo o que conseguiam no Feitoria. Mas na cabeça começaram a formar uma ideia que era uma ousadia: levar uma estrela Michelin a Bragança. Era projeto para a velhice, mas em 2014 as coisas precipitaram-se.
O pai telefonou-lhes com uma novidade: tinha a oportunidade de ficar com a gestão da Pousada de São Bartolomeu e perguntou aos rapazes se não queriam ajudá-lo. Adérito Gonçalves abrira em 1978 com a mulher, Iracema, o Geadas, um restaurante que nasceu em Vinhais, migrou para Bragança e tornou-se um dos templos da gastronomia transmontana. "Para mim era todo um projeto de vida, porque foi na Pousada que comecei a trabalhar aos 11 anos - e lá fiquei até à tropa."

Óscar já tinha entretanto regressado a casa, António fez as malas e aceitou o repto. Na cozinha da mãe encontravam toda a tradição, no pai todo o rigor. Agora era a vez de eles fazerem qualquer coisa de diferente. "Criámos um plano a dez anos - cinco anos para a primeira estrela, outros cinco para a segunda", diz o irmão mais novo. E conseguiram a entrada no restrito clube Michelin ao cabo de quatro anos.

"Quando começámos avisámos os inspetores do Guia Michelin que estávamos interessados em caminhar nesta direção. E eles vieram cá." Para o resto do país, mantinham-se relativamente discretos. A revista Evasões fez artigos sobre eles, e o guia Boa Cama, Boa Mesa, do Expresso, recomendou-os. Mas dos críticos gastronómicos do país não receberam visitas. Eles, que tinham andado a aprender as técnicas mais requintadas, perceberam então que só haveria uma fórmula para contornarem a interioridade. Serem absolutamente transmontanos, usarem o que conheciam e achavam bom.

O G Pousada só serve refeições à noite. Tem menus de três pratos a 65 euros, de cinco pratos a 87,50, de oito pratos a 150. Os irmãos Gonçalves mudam de ementa três a quatro vezes por ano, para aproveitar os produtos das estações e as épocas de caça. Servem lebre e javali, veado e perdizes, por exemplo. Tal como os pais servem esses mesmo pratos, em versão de tacho, no restaurante onde se construiu a história da família.

Então Óscar e António vão lá todos os dias dar uma mão na cozinha. Grelham alheiras, estrelam ovos e salteiam couves ao almoço, e ao jantar atualizam a sabedoria que a mãe lhes ofereceu, daquele tempero certeiro que ela tem para uma cabidela de lebre - e que eles sabem ser imbatível.

No meio de Bragança, os irmãos Gonçalves descobrem todos os dias a salvação do interior do país. Serem eles próprios, sem imitar ninguém. Sem vergonha de dizerem e fazerem as coisas como elas são.



Texto de Ricardo J. Rodrigues

quinta-feira, 7 de março de 2019

Há 1200 razões para a doutora Elisa não se reformar


















"Sabe porque é que os loucos foram desaparecendo das aldeias", perguntou-me a determinada altura o diretor do hospital de Bragança. "Porque a doutora Elisa os tratou."

Elisa Vieira é há 24 anos a única pedopsiquiatra deste distrito transmontano. Ao seu consultório desaguam por ano 1200 problemas da infância - é esse o número de consultas que ela atende.

Vêm miúdos hiperativos e vêm miúdos que se tentam suicidar, vêm vítimas de abusos sexuais e vêm recém-nascidos com dependência de heroína. Sozinha, a doutora Elisa desdobra-se para resolver a inquietação da canalha toda.

No final do ano meteu os papéis para a reforma. Tem afinal 68 anos, ainda por cima está prestes a ser avó, já não pode continuar a adiar o inevitável. Mas o problema é que não há ninguém para substituí-la.

Na última década abriram seis concursos para pedopsiquiatras em Bragança. Ninguém concorreu. Então, mesmo que não lhe possa ser imputada qualquer culpa, a doutora Elisa está cheia de problemas de consciência.

É que agora as crianças terão de ser seguidas a partir do Porto, e ela sabe que para muitas famílias são três horas de estrada para cada lado e uma despesa que não podem sequer pagar.

Há 170 pedopsiquiatras no SNS. Mas, além de Bragança, os distritos da Guarda, Portalegre e Évora não têm qualquer profissional ao seu serviço. Em Castelo Branco há apenas um, outro em Beja, e outro em Faro. Metade do território está sem cuidados de saúde mental infantil.



por Ricardo J. Rodrigues

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Afinal, os estrangeiros são a melhor coisa que nos podia ter acontecido

























"Quando vais ao Google e começas a pesquisar a cidade, o caso das Mães de Bragança aparece sempre nas primeiras páginas. E, quando lês aquilo, assustas-te", diz Rúbia Corrêa, 32, que é natural do Paraná e se mudou para Trás-os-Montes em 2015. É mulher e brasileira, como os alvos da fúria do manifesto de 2003. "Mas depois chegas e percebes que não há qualquer razão para ter medo. Antes pelo contrário, é uma cidade que está repleta de estrangeiros. E de estrangeiros bem acolhidos, como eu."

Os seus planos, aliás, são para ficar muitos anos. Rúbia veio do Brasil com um doutoramento no bolso para fazer investigação no Centro de Investigação da Montanha. "É uma das mais reputadas instituições mundiais na área agroalimentar. Tem uma equipa de topo a nível global e foi por isso que vim." Nunca, por mais duro que seja mudar de país, se arrependeu da sua decisão.

Quem hoje atravessa Bragança dificilmente reconhece a cidade que há 15 convocou para si atenções globais - sobretudo depois de a revista Time ter colocado na capa uma fotografia de uma prostituta brasileira no centro da cidade com a manchete"Europe's new Redlight District". Bragança, aos olhos do mundo, tinha-se tornado um novo centro de comércio sexual. E isso causou a fúria de um grupo de mulheres, que acusavam as brasileiras de lhes roubarem os maridos - as Mães de Bragança.

Há dois anos, aliás, o sociólogo José Machado Pais estudou este tema no livro Enredos Sexuais, Tradição e Mudança. "Aos olhos locais, o perigo vinha de fora", diria o investigador do Instituto de Ciências Sociais numa entrevista ao DN em 2016. "Os maridos traidores foram poupados, diria mesmo desculpabilizados. As imigrantes brasileiras apareceram então como o bode expiatório." Nos meses seguintes, uma série de rusgas policiais encerraria quase todas as casas de alterne e expulsaria muitas mulheres da cidade. A ameaça moral que vinha de fora era assim eliminada.

Hoje, no entanto, circulam pela cidade grupos de todas as etnias, as casas de uma terra cada vez mais envelhecida enchem-se de novos sotaques, criam-se negócios para receber toda esta gente que vem de fora. "Os estrangeiros são afinal a melhor coisa que nos podia ter acontecido e os brigantinos sabem-no hoje bem", diz Hernâni Dias, presidente da câmara municipal. "Estão a revelar-se um novo motor de desenvolvimento e estão a compensar muitas falhas causadas pelo despovoamento que a nossa região sofre." Em muitos casos, garante o autarca, passaram até a ser o orgulho da cidade.

A equipa com que Rúbia trabalha, por exemplo, estuda exaustivamente plantas e cogumelos na serra de Montesinho e encontra aplicações para a sua utilização na indústria alimentar - criando, nomeadamente, corantes e conservantes naturais. Isso vale que o Politécnico da cidade esteja entre os 50 mais reputados no mundo na área da biotecnologia alimentar, segundo o ranking de Xangai. "Todos os habitantes de Bragança sabem isso. Se alguém ousar olhar-me de alto a baixo, se alguém comentar com desdém a minha nacionalidade, eu arranjo maneira de explicar o que faço. E, nesse momento, troco qualquer possibilidade de discriminação por admiração." Mulher, brasileira - e uma honra para Bragança.

A revolução nos prados
O foco mediático de 2003 marcou a povoação transmontana. A maioria dos brigantinos acha ainda hoje que houve uma generalização injusta da população. "Eu sou de cá, vivia cá na cidade, e nunca me tinha apercebido de grande coisa naquela época", conta a cientista Isabel Ferreira, diretora do Centro de Investigação da Montanha. "Aquele manifesto foi assinado por duas ou três pessoas, mas subitamente parecia que éramos todos discriminatórios para os estrangeiros."

O presidente da câmara concorda. "Foi um exagero, Bragança não era diferente de outras cidades do país que tinham igualmente casas de alterne e com luzes vermelhas. O que o caso das Mães de Bragança realmente causou foi que hoje, ao contrário do resto do país, deixámos de ter estes estabelecimentos." De facto, quem percorre hoje os cenários que há 15 anos foram de polémica - casas de alterne e "cafés de cima", com porta para a rua mas instalados nos primeiros pisos dos edifícios - encontra hoje lojas renovadas e cafés onde se vendem muffins, crepes, cappuccini. Ou bares de estudantes onde se ouve música do mundo inteiro.

A revolução de Bragança começou em 2012, e um largo consenso entre as autoridades locais e os habitantes da cidade diz que a culpa é do Instituto Politécnico de Bragança (IPB). Não há hoje em Portugal nenhum estabelecimento de ensino superior mais internacional no país do que este. Um terço dos seus 7500 alunos são estrangeiros e provêm de 70 nacionalidades. As maiores comunidades estudantis são de Cabo Verde e do Brasil, mas aqui também estudam turcomanos e canadianos, etíopes e sul-coreanos, sauditas, colombianos, cazaques, argelinos, peruanos, guatemaltecos.

"Quando aqui cheguei, lembro-me de comentar muitas vezes que aqui não se via um único africano nas ruas", conta Lilian Barros, que juntamente com Isabel Ferreira foi nomeada uma das mais proeminentes cientistas agroalimentares do mundo pela agência de indexação Thomson Reuters. Nasceu no Porto, veio estudar para a cidade em 1998 e foi ficando. "Hoje, se pensarmos em escala, há muito mais gente de pele negra em Bragança do que no Porto."

Foi precisamente a falta de alunos que obrigou o IPB a ir procurá-los fora. "Quem não tem cão caça com gato", diz Orlando Rodrigues, presidente da instituição. "Quando começámos a perceber que a falta de crianças na região nos iria obrigar a abandonar cursos e reduzir a investigação, tivemos de criar uma alternativa que mantivesse o IPB relevante. Acho que a missão foi cumprida, tendo em conta que há cinco anos somos considerados pela Comissão Europeia o melhor politécnico do país."

Em junho, o Diário de Trás-os-Montes noticiava um número alarmante. De uma população escolar a frequentar o ensino básico e secundário de 7028 alunos em 2011, Bragança não tinha mais de 3944 no ano passado. Uma quebra de 44% em seis anos. "Quando nascemos, em 1983, os nossos alunos eram essencialmente da região. Hoje, um terço vem do distrito, outro terço da região Norte e quase outro é estrangeiro", explicam os vice-presidentes da instituição, Albano Alves e Anabela Martins.

Há três licenciaturas e cinco mestrados lecionados exclusivamente em inglês. As cantinas não servem vaca e porco nos mesmos dias, para que toda a gente possa manter os seus hábitos alimentares. A antiga casa dos caseiros da Quinta de Santa Apolónia, onde está hoje instalado o campus universitário, foi convertida em centro intercultural e acolhe orações de diferentes religiões. As bibliotecas estão equipadas com traduções dos principais livros.

Por ano, há cerca de 20 viagens não científicas da direção do politécnico ao estrangeiro. "Vamos em comissões de dois visitar feiras, escolas secundárias e liceus, universidades. Celebramos protocolos e convidamos os alunos para virem estudar para cá", explica Anabela Martins. "Estas iniciativas começaram em 2012, mas de há dois anos para cá começámos mesmo a colher os frutos e o número de alunos estrangeiros explodiu." A improvável Bragança, assim, tornou-se cosmopolita.

Isto é nacional, e é estrangeiro
Às quintas-feiras, depois dos treinos dos iniciados do clube local, sobe ao campo a equipa da Associação dos Estudantes Africanos de Bragança (AEAB). Às oito da noite, há uma série de pais que vêm buscar os filhos ao campo sintético do Politécnico e quase todos ficam ali uns minutos à conversa com os adolescentes de pele negra que esperam pela sua vez. "Bom jogo no domingo", atiram a Alex. E Alex responde, num sotaque cabo-verdiano mas já com expressões transmontanas: "Ainda ireis ver-me no Benfica."

São na maioria cabo-verdianos, mas também há brasileiros, guineenses, são-tomenses e um português. "Somos uma equipa da CPLP", diz na brincadeira o treinador Óscar Monteiro, que nasceu no Mindelo e chegou a Bragança em 2012 - foi um dos primeiros a vir estudar para o Politécnico. "E as pessoas aqui gostam da nossa equipa, vêm aos jogos e apoiam-nos. Os clubes da região, no fim do ano, vêm sempre cá buscar os melhores talentos. Por ano, sai sempre uma dúzia para os campeonatos nacionais."

A AEAB milita na primeira divisão distrital. Foram vice-campeões do campeonato em 2016 e no ano passado perderam a final da Taça. "O nosso principal problema é a adaptação ao clima", diz o treinador. "Quando está calor ninguém nos para e todos sonhamos com a subida. Mas depois vem o frio e malta começa a ficar com anginas, com gripe, com febre e vamos abaixo."

A estrela da companhia é Alex Soares, tem 22 anos, veio da ilha do Sal. Estuda música no Politécnico, e tem três paixões na vida: "a bola, a guitarra e o surf, mas esse fica difícil de praticar aqui." Bragança já é casa e o rapaz diz que a cidade sabe acolher, "tem morabeza". "Os transmontanos têm curiosidade pela tua cultura e também gostam de mostrar a deles. Ao fim de semana fazem cachupa aí num restaurante da cidade. E, quando eu convido os meus amigos portugueses, eles passado uns dias levam-me a comer a feijoada daqui." Para ele não há dúvidas: se puder, ficará cá a viver, mesmo que isso signifique reformar a prancha de surf.

Muitos ficam, e ajudam a explicar porque é que nos últimos anos Bragança é o distrito do país onde mais cresce a taxa de residentes estrangeiros, segundo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Os sinais dessa multiculturalidade veem-se um pouco por toda a parte, como nesta equipa de futebol. Mas aqui também se instalou a sede da Associação dos Estudantes e Pesquisadores Brasileiros em Portugal, que tem sede num antigo edifício do centro da cidade. Organizam aulas de capoeira e bailes de forró.

Os bombeiros recebem voluntários de Cabo Verde e do Brasil. Os artigos científicos que colocam agora a cidade no mundo são assinados por apelidos estranhos. A partir do próximo mês haverá aulas de mandarim na escola secundária, porque Qi Zheng, que aqui todos tratam por Júlia, as vai lecionar. Tem 28 anos, é tradutora e intérprete de português na ilha de Zuhai, perto de Macau. "Vim para aqui especializar-me, porque há muitas empresas chinesas a quererem investir no mundo lusófono e precisam de quem fale a língua."

Júlia era intérprete numa empresa automóvel com fábrica em Porto Alegre, no Brasil, agora decidiu dar aulas de português na universidade do lugar onde nasceu e o número de inscrições não para de aumentar. "Os negócios da eletricidade em Portugal, da construção civil em Angola ou da indústria automóvel no Brasil precisam de muita gente que fale a língua." Ela veio para Bragança para aprofundar os seus conhecimentos. "Mas, se ensinar chinês aqui, vai haver mais gente a poder conversar. E a fazer mais negócios."

O novo motor da cidade
A avenida Sá Carneiro é a mais cosmopolita de Bragança. Liga o centro histórico ao Politécnico e é daqui que se percebe toda a diversidade cultural que tomou conta da terra transmontana. Há restaurantes que oferecem menus internacionais, lojas de produtos informáticos que antes não teriam a mesma clientela, a semana passada abriu um McDonald"s que tem estado à pinha até às duas da manhã.

Mesmo no meio da estrada fica o Namasté Bragança, primeiro restaurante de comida nepalesa e indiana da cidade. Abriu portas em fevereiro e os donos tiveram de escalar os sabores em três categorias, para adaptá-los ao paladar local: doce, picante ou muito picante. 80% da clientela é portuguesa, o restante são universitários de países asiáticos e anglófonos, na maioria. Mas a verdadeira história que este sítio carrega é a de Saurabh Poudel, 20 anos.

O rapaz é aluno do terceiro ano de engenharia informática e rumou a Trás-os-Montes depois de viver um ano no bairro do Intendente, em Lisboa. "O meu pai trabalhava numa loja da capital e conseguiu trazer-me para aqui através do programa de reunificação familiar. E eu vim sozinho para Bragança. Quando cheguei aqui, apaixonei-me imediatamente pela cidade. E pensei: é aqui que a minha família tem de viver."

Saurabh tinha uma amiga da mesma idade, da mesma nacionalidade, que também viera para o Nordeste. "E se trouxéssemos para cá as nossas famílias e eles abrissem aqui um restaurante", propôs-lhe. Durante um ano, andaram os dois a convencer os pais a abrir aqui negócio. E, no início de 2018, a coisa deu-se. "Os nossos pais vieram cá, alugaram uma casa para vivermos e outra para fazermos o restaurante." As coisas têm corrido bem, às vezes há fila à porta para comer caril e pastéis de momo. "E agora os nossos irmãos mais novos entraram nas escolas de cá e isto será sempre casa. Sou do Nepal, sim, mas sou de Bragança."

Acolher milhares de estrangeiros significa inevitavelmente isto, um fomento do negócio. Na incubadora do IPB, por exemplo, nasceram duas empresas onde 99% da clientela é estrangeira - e não param de crescer. A mais antiga nasceu em 2012 com a chegada dos primeiros estudantes internacionais. Chama-se Risky Vector, tem uma dezena de funcionários e o que faz é alugar casas que estão ao abandono, recuperá-las e equipa-las para receber os alunos que vêm de outros países.

"Neste momento temos 90 apartamentos e mais de 400 inquilinos", diz Vítor Laranjeira, o proprietário. "Depois de anos em que Bragança se tornou uma cidade de casas vazias, hoje torna-se cada vez mais difícil arranjar onde acolher esta gente toda." Nenhuma das habitações é propriedade da empresa, são maioritariamente de emigrantes que estão fora, ou de famílias que viram os filhos partir para o litoral.

Um quarto individual custa 130 euros, um duplo fica a 100 por pessoa. A internet está incluída. "Tentamos sempre que um apartamento tenha o máximo de diversidade de nacionalidades possível, para que haja convívio." Numa casa da Avenida Sá Carneiro, por exemplo, uma polaca partilha casa com uma georgiana, um brasileiro e dois paquistaneses. E todos estão a adorar a experiência, principalmente à hora das refeições. "Tentamos mostrar as nossas culturas uns aos outros e não há melhor forma de fazer isso do que à mesa", explica Kazim Ahmad, do Paquistão. "Mesmo que as casas aqui sejam estranhas, hás de explicar-me porque é que vocês em Portugal fazem a cozinha num sítio e a sala noutro."

Em Bragança nasceu também a Student Traveller, uma agência de viagens especializada em estudantes internacionais. Começou a funcionar em 2013. No ano seguinte compraram o primeiro autocarro - hoje têm três. "A maior parte das viagens que organizamos são ao Algarve. Saímos quinta à noite e voltamos segunda antes das aulas começarem", explicam o português Dário Couto e a ucraniana Khrystyna Nykolaychuk, que todos os dias recebem no seu escritório em Bragança "miúdos que vieram para aqui estudar e nos tempos livres têm sede de se fazerem à estrada”.

Dez dias em Marrocos ou 23 a viajar pela Europa de autocarro são outros dos programas que oferecem, e para todos esgotam a lotação. "A ideia revelou-se um sucesso tão grande nos últimos anos que expandimo-nos para outras cidades universitárias", explica Dário. Agora a empresa, cuja sede continua a ser em Bragança, opera também a partir de Braga, Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria e Lisboa. "E, desde o ano passado, internacionalizámos a companhia e estamos a sair de Salamanca, Valladolid, León, Corunha e Vigo. Por ano, vendemos dez mil viagens. Agora vamos contratar motoristas. Não vai ser difícil, o negócio da camionagem anda há anos em recessão."

Anna Kattel, 22, gostava mesmo era que houvesse uma viagem até à Estónia, mas a Student Travellers, por enquanto, só tem roteiros até à Polónia. "Seria espetacular, aparecer um dia em casa da minha família de surpresa", ri-se. É alta, loira, mais uma lufada de ar fresco na imagem de diversidade da cidade. Há dias contaram-lhe o caso do Manifesto das Mães de Bragança, e ela ficou muito espantada. "Bragança é muito pequena, mas ao mesmo tempo é tão acolhedora que me custa acreditar que um dia houve aqui estrangeiros que não foram bem recebidos."

Veio para Trás-os-Montes pela qualidade de ensino de Biotecnologia e até aqui chegar acreditava que o sítio onde podia ser mais feliz era dentro de um laboratório. "Mas depois começas a sair em Bragança e vês africanos que estão sempre a cantar, indianos que querem saber coisas da tua terra, brasileiros que fazem festa em toda a parte. É uma espécie de Babel minúscula. E sabes, eu sinto-me mesmo bem aqui." Isso explica muito bem o que aconteceu em 15 anos. É como se as postas de vitela, prato típico da região, pudessem vir agora acompanhadas de feijão preto.






Texto: Ricardo J. Rodrigues