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terça-feira, 13 de março de 2018

O fogo não sai da cabeça dos bombeiros
















O inverno está a chegar ao fim e há bombeiros que ainda não ultrapassaram o trauma dos incêndios do ano passado. Viram o que ninguém devia ter visto, experimentam sentimentos de culpa e impotência, sofrem com a perspetiva de regresso do fogo. O número de pedidos de apoio psicológico disparou, mas as autoridades não têm meios de resposta. Quem cuida de quem cuida de nós?

Quando saiu de casa na manhã de 15 de outubro, Paulo Rodrigues, 31 anos, não imaginava que naquele dia ia ver o inferno. As desgraças não lhe são propriamente novas – afinal é bombeiro desde os 14 e não houve verão nos últimos anos em que não tivesse de se fazer ao fogo. Ainda para mais presta serviço em Penacova, onde o IP3 se veste demasiadas vezes de estrada de morte.

«O problema é que, quando cheguei ao quartel, as equipas de combate já tinham todas partido. Então eu tive de ir numa ambulância para os incêndios e isso levou-me aos sítios onde não havia mais nada, só morte e destruição. E aquilo que vi não consigo esquecer. Vão ser muitos anos para tirar isto cá de dentro.»

Paulo tem uma banda que anima procissões e festas religiosas. Nesse dia ia tocar na romaria de Nossa Senhora da Conceição numa pequena aldeia da freguesia de Friúmes, mas não chegou a abrir a mala do clarinete. «Quando ia na estrada vi o fogo a avançar tão rápido que decidi logo voltar para trás. Ainda estava a virar o carro quando recebi uma mensagem do comandante.» Acelerou até Penacova, dez equipas já andavam no fogo.

À central chegavam notícias de vítimas em várias aldeias. «Nesse dia morreram cinco pessoas. Eu fiquei com a ambulância e tive de recolher quatro desses cadáveres.»

Na memória traz pormenores demasiado arrepiantes – e reproduzi-los agora seria um atentado gratuito à dignidade das vítimas. Mas Paulo tem ali coisas que precisa de deitar para fora. «Primeiro estive em Vale Maior, e quando cheguei a única coisa que sabia era que havia dois mortos.» A aldeia ainda em chamas e depois um homem aos gritos.

Acabara de ver os seus dois filhos ficarem presos numa arrecadação que as chamas engoliram. «Eu tinha acabado de ser pai, sabe? Agora, diga-me lá, como é que se acalma
alguém numa situação daquelas? O que é que se diz? O que é que eu podia fazer? Como é que me posso esquecer daquilo?»

A Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) está preocupada com casos como o de Paulo Rodrigues. «Sabemos que há muitos bombeiros que viveram situações aflitivas no ano passado», diz o psicólogo Rui Ângelo, líder das equipas de apoio psicossocial da ANPC. «E o nosso receio é o impacto que os próximos incêndios vão desencadear nestas pessoas.

Se em 2017 vimos gente com muitos anos de tarimba a ultrapassar o seu limite de resistência psicológica, é preciso ter consciência de que, quando se depararem novamente com as chamas, podem bloquear, reviver episódios de grande ansiedade, pôr-se a si mesmos e às suas equipas em risco.» E é por isso que é tão importante pegar neste assunto agora, antes de o fogo recomeçar.

O fogo nos meus sonhos
Os sinais de potencial trauma são identificáveis: flashbacks, irritabilidade, isolamento, pesadelos, insónias. Normalmente, dissipam-se em seis semanas, mas, quando isso não acontece, podem desenvolver-se patologias psiquiátricas mais graves. No ano passado, as equipas de apoio da Proteção Civil intervieram 843 vezes, quando nos cinco anos anteriores não auxiliaram em média mais de 300 bombeiros.

«Prestamos apoio psicológico imediato a quem necessitar e encaminhamos os casos psiquiátricos mais graves para o Serviço Nacional de Saúde», diz Rui Ângelo.
Uma grande parte dos bombeiros, no entanto, não teve com quem falar. Apesar de o sistema de socorro português estar baseado no voluntariado, faltam recursos para tratar da quebra e da recuperação psicológica dos bombeiros.

Os números falam por si: as equipas da ANPC contam hoje com cinquenta técnicos – 39 psicólogos e 11 assistentes sociais – para apoiar os 30 448 operacionais no ativo. Também eles trabalham em regime de voluntariado.

«E depois há um fator que torna tudo mais difícil. Nós só vamos ao terreno quando o comandante de uma corporação nos convoca. Um bombeiro que sinta problemas não pode contactar-nos diretamente. Então, muitas vezes dou por mim a ligar às corporações para insistir na nossa ida.»

Mesmo sendo poucos, os técnicos nunca foram convocados a Penacova, onde Paulo Rodrigues, o rapaz que toca clarinete nas procissões, viu o inferno. «Temos dois psicólogos do centro de saúde que se disponibilizaram para nos ajudar», explica António Simões, comandante da corporação. «Quem quisesse podia ir ter com eles.»

É bombeiro experimentado, um homem duro, também ele viu muito mais do que deveria naquele fatídico domingo de outubro. «Uma semana ou duas depois, ao assistir a uma conversa entre o meu segundo e uma das nossas bombeiras, é que caí em mim e percebi que tinha aqui gente muito afetada.»

Lídia Mira tem 36 anos, veio para os bombeiros arrastada pela irmã aos 18, mas fez do socorro ao próximo uma missão tão pessoal que hoje, além de voluntária em Penacova, trabalha também como socorrista no INEM. Estava na primeira equipa que chegou a Vale Maior, foi a ela que um homem em absoluto desespero se dirigiu primeiro: «Salve os meus filhos, salve os meus filhos.»

Estava um fogo danado a subir a colina, mas a mulher agarrou na mangueira e fez-se às chamas. «Eu tinha de ir. Sabia que não devia, que o fogo podia virar, mas a angústia daquele pai fez-me avançar.»

Não podia, as chamas já tomavam conta do armazém onde ambos acabariam por perecer. Um tinha 41, outro 43 – morreram abraçados. «De um lado ouvia os gritos do pai, do outro o silvo das vidas a extinguir-se. E eu não conseguia fazer nada. Nada.» Lágrimas ainda, tanto tempo depois. «Sinto uma raiva que não sai de mim, a raiva de não ter conseguido salvá-los, a raiva da impotência.»

No momento em que desistiu de lutar, agarrou-se ao colar que usa sempre consigo. Ali está inscrito o seu nome e o do filho. Assim que chegou a casa, acordou o rapaz e abraçou-se a ele. Pediu-lhe desculpa, uma e outra vez, não sabe muito bem porquê.

«Nunca voltei ali, nem sei se consigo voltar. Sinto uma culpa tremenda, estou sempre a pensar que se tivesse chegado meia hora antes a história seria diferente.» Foi isso que disse ao segundo comandante dos bombeiros de Penacova, semanas depois, quando o encontrou à porta do quartel.

Vasco Viseu, 49, estava do outro lado da colina a ver o fogo subir o vale. Chegou à aldeia de Vale Maior minutos antes da morte, num carro de comando equipado com uma pequena cisterna, mas que já não tinha gota de água.

«Tinha passado a manhã na Lousã, em combate, e agora já não sobrava nada.» Assim que percebeu que o fogo estava a entrar em Penacova ligou para a central e pediu para lhe levarem os filhos para o centro da vila. «Depois fiz-me à estrada, cada metro que passava parecia que uma árvore em chamas caía atrás de mim, a impedir-me de voltar para trás.» Era ele contra o monstro.

É isto com que sonha agora: o povo a insultá-lo por ser incapaz de salvar sequer uma casa, a perceção de um pai a pedir que lhe resgatassem os filhos e ele nada poder fazer, as labaredas a dançar à sua volta e a nítida sensação de que ia morrer nesse dia. Sentia-se fraco e inútil – logo ele, que sempre tinha sido um exemplo para os homens.

«Quando finalmente chegou a primeira equipa de combate, escondi-me atrás do carro e fiquei ali uns bons dez minutos a chorar.» Meses depois, repete as lágrimas, as mãos a passearem pelo rosto, já não aguenta este desespero. «Nunca mais dormi nada de jeito. Fui ao psicólogo do centro de saúde para ver se me receitava comprimidos, mas sei que estes pesadelos, estas memórias já duram há tempo demais. Houve alguma coisa em mim que mudou. Não sou o mesmo homem.»

Semanas depois do trauma, quando Lídia se virou para ele e disse «segundo comandante, isto não está nada bem», os dois desataram num pranto que o comandante Simões pensou estar já ultrapassado. Foi então que Paulo Rodrigues lhe contou o resto da história. De como depois de ir resgatar os cadáveres dos dois irmãos socorreu uma família que tinha tido um acidente quando fugia do incêndio. De como uma mulher lhe contou que o pai ainda estava preso numa aldeia e ele correu com uma motosserra a abrir caminho pelo mato incandescente para resgatar um homem carbonizado que lhe morreu nos braços. E de como, no fim disto tudo, fora buscar a uma adega o corpo de uma mulher que tinha sucumbido nas chamas e a achara tão pequena, tão pequena, que por momentos teve dúvidas se aquele não seria o cadáver de um animal doméstico.

O comandante António Simões percebeu nessa altura, semanas depois da tragédia, que os seus bombeiros estavam em desespero. Pode não ter chamado as equipas de apoio psicossocial da ANPC logo depois da tragédia, mas convocou ao quartel João Rosado, chefe da unidade de psiquiatria e diretor do centro de tratamento de trauma dos Hospitais da Universidade de Coimbra.

«Um bombeiro está continuamente exposto a situações traumáticas, mas é essencial perceber o impacto desse trauma em cada indivíduo», diz agora o investigador à Notícias Magazine. «Estamos a fazer um estudo sobre os fatores de risco – antes, durante e depois de os traumas acontecerem. Com isso vamos preparar uma resposta, que não pode passar só pela terapêutica, também tem de passar pela prevenção.»

Lídia está a receber apoio de uma psicóloga do INEM, Vasco decidiu voltar às consultas no centro de saúde, Paulo diz que a família tem conseguido ser o suporte para desviar os pesadelos. Mas continua a ser preciso criar uma estratégia nacional para que os operacionais do terreno aprendam a lidar com as catástrofes.

Rui Ângelo, da Proteção Civil, percebe a iniciativa da Universidade de Coimbra e confessa: «Idealmente, as nossas equipas deviam estar agora no terreno a dar ferramentas de resiliência aos operacionais, a prepará-los para os próximos incêndios.» Diz que há um projeto-piloto a ser testado no distrito de Santarém. Aconteceu por iniciativa de uma corporação, não do governo central. «Se funcionar talvez consigamos aplicá-lo no resto do país.»

«Tu não podes morrer»
Horas depois de atravessar Penacova, no dia 15 de outubro de 2017, o fogo chegou a Santa Comba Dão «com a força de um touro e a velocidade de um galgo». A frase é de Rui Leitão Morais, 29 anos, bombeiro desde que se lembra de ser gente.

Ele, o pai e dois irmãos são todos voluntários – e quando foi dado o alerta vermelho prepararam-se todos para o combate. «Foi um dia muito duro que nenhum de nós pode esquecer. O mais difícil de tudo foi perceber que o meu pai estava encurralado pelo fogo, a pedir ajuda. Nunca lhe tinha ouvido aquele pânico na voz e foi aí que me faltou o chão.»

Rui percorria o concelho num carro de comando para avaliar o que se passava. Era ele que estava à frente das comunicações com o comando da ANPC. De repente a voz do pai no rádio: «Está tudo completamente em chamas, casas e tudo, não temos hipóteses.» O leitor é capaz de se lembrar deste relato, ele foi transmitido dois dias depois da tragédia na TVI.

Do outro lado da linha perguntam a chefe Morais onde está. E João Morais, 58 anos e um dos bombeiros mais experientes da corporação, responde num tom aflitivo: «Povoação do Coval, povoação do Coval. Isto está uma calamidade. Isto está uma calamidade. Precisava aqui de mais um carro, isto vai arder tudo.» A resposta é frustrante: «Não tenho, João. Não tenho.» Depois o silêncio. As duas horas seguintes passou-as Rui com um nó na garganta, sem saber se o pai estava vivo.

Entretanto o centro da cidade enchera-se. O IP3 tivera de ser fechado e Santa Comba Dão tornara-se o abrigo improvisado para centenas de automobilistas. O mesmo na linha de comboio, trezentos passageiros nas imediações do quartel. O fogo começou a chegar ao centro urbano e Rui fez-se a ele.

«Passava por pessoas que se punham à frente do jipe porque queriam que lhes salvássemos a casa, ou que fôssemos buscar alguém à aldeia, e nós tínhamos de contorná-las, continuar caminho. Não lhes podíamos valer.» No Coval, João Morais parou a comunicação quando ouviu um camião explodir. «As línguas da chama tinham sete metros, eu nunca visto uma coisa assim. Quando ouvi aquele estrondo pensei: vou agora. Deixei-me cair de joelhos no chão e pensei nos meus filhos, que também andavam no fogo. Não sei como sobrevivi, mas sei que, assim que pude passar a estrada, fui ao quartel ver se os rapazes estavam bem.»

Tinham passado duas horas desde a última comunicação. O aparelho de rádio caíra ao chão e fora devorado pelo fogo – Rui foi um dia depois ao terreno recuperá-lo e guarda-o agora como uma relíquia. Quando se viram no quartel, pai e filho não se abraçaram nem trocaram uma palavra. «Olhámos um para o outro e estava tudo dito.»

Falaram sim dois dias depois, quando o comandante Hélder Mota convocou os seus homens para um plenário em que cada bombeiro partilhou com os demais o que tinha vivido naquele dia. «Foi muito duro ouvir tudo aquilo, às tantas tive de sair para dar uns pontapés numa parede», diz o líder dos bombeiros de Santa Comba. Custou-lhe particularmente ouvir o trauma na voz do chefe Morais, «um homem que nunca vi quebrar».

No final do plenário, pediu a todos que falassem com as equipas de apoio psicossocial da Proteção Civil. E todos falaram. Rui diz que está bem, o pai diz que ainda lhe vem à memória aquela angústia. Agora as coisas estão calmas, quando o fogo voltar logo se vê.

Para muitos dos bombeiros que viveram experiências traumáticas, o pânico maior é voltar ao lugar onde experimentaram o inferno. Mas assim que Rui Rosinha, 40 anos, saiu do hospital, pediu para a ambulância que o levava a casa parar no cruzamento onde o fogo lhe mudou a vida. Acabara de passar quatro meses internado, dois dos quais em coma. No dia 17 de junho de 2017 o camião de bombeiros onde viajava teve um acidente na EN236 – que liga Figueiró dos Vinhos a Castanheira de Pera e onde nesse dia morreram 47 pessoas.

«Quando entrámos na estrada fez-se noite, um calor inacreditável, e de repente o chefe Tomé, que ia ao volante, grita que vamos bater.» Um Mercedes que fugia do incêndio embateu de frente no veículo. «Saí e vi logo as labaredas à nossa frente. Ainda tentámos aproximar-nos do outro carro, percebemos que havia gente lá dentro mas ninguém respondia. Era a gasolina, podia explodir a qualquer momento, então recuámos para um cruzamento onde havia uma nesga de céu.»

Ainda procurou as luvas de proteção e o capacete, mas com o acidente não conseguia encontrar nada. Tinha o telemóvel no bolso, ligou à mulher. «Estava um calor terrível e telefonei para me despedir dela. Disse-lhe que íamos morrer todos. Depois disse que a amava muito e que amava muito os nossos filhos. E desliguei.»

O calor apertava e da estrada apareceram quatro pessoas a correr, provavelmente fugidas dos carros. Rosinha e os outros bombeiros formaram um cordão à volta destas pessoas, abriram os braços e envolveram-nas numa redoma, à espera que o fogo passasse. Uma hora depois chegava ajuda, os cinco bombeiros caídos por terra mas vivos.

Um deles, Gonçalo Conceição, acabaria por não resistir aos ferimentos – mas isso Rui só soube meses mais tarde, quando acordou do coma induzido. Ele estava num estado lastimável, queimaduras de terceiro grau em vinte por cento do corpo e os pulmões à beira do colapso. Mesmo durante aquele tempo em que esteve inconsciente diz que se lembra do que lhe disse o filho na noite de dia 17, quando esperava ainda consciente a transferência para o hospital: «Tu não vais morrer. Tu não podes morrer.»

Desde que acordou, os pesadelos tornaram-se piores do que as dores. «Estou sempre a sonhar que vou pelo mato a andar com pessoas que não conheço e não chego a lado nenhum. É o fogo nos meus sonhos. E depois acordo constantemente suado. Também não consigo dormir.»

Pediu apoio e está a ser acompanhado semanalmente no Hospital Sobral Cid, consultas de psicologia e psiquiatria. «Mas sabe, quando pedi para a ambulância parar naquele cruzamento, eu comecei a fazer o meu luto. Agora sinto-me um jogador lesionado que não pode ir a jogo, mas a coisa que mais quero é poder voltar a salvar vidas. Amo o meu país e é isso que me motiva. Não sei como reagirei quando voltar a ver fogo, mas sei que é falando sobre isso que vou ultrapassar o trauma. Tenho muito medo dos meus companheiros que não falam com ninguém e podem estar a desenvolver stress pós-traumático. Por isso eu apelo para que eles vão, falem, contactem psicólogos, peçam ajuda às famílias. Não se armem em fortes porque isso pode estragar-vos a vida.»

Nuno Pereira, 44 anos, é dos que precisaram de umas boas semanas até se decidir a falar. Entrou para os bombeiros aos 14, seguindo as passadas do pai e do tio, aos 18 fez o curso na Escola Nacional, era daquela adrenalina que ele gostava. «No dia 16 de outubro, pela primeira vez em 30 anos, pensei desistir disto.»

O segundo comandante dos Bombeiros Voluntários de Tondela estava na aldeia do Tarrastal quando o muro de chamas tomou conta da aldeia. «As mangueiras derretiam com o calor, os vidros pareciam querer derreter, chovia fogo do ar, às tantas vi um caixote do lixo de 800 litros voar e embater contra o carro.»

Na aldeia estavam dois velhotes, e ele tinha ido com uma equipa socorrê-los. A água da cisterna acabou quando o fogo se fez mais bravo. «Eu e um companheiro conseguimos esconder-nos num casebre de tijolo quando as chamas passaram por nós. Nessa altura tive a nítida sensação de que a minha vida ia terminar. Lembro-me de pensar que os meus filhos iam crescer sem pai no meio de um lugar que se tinha tornado um cemitério. Mas ainda não foi desta que Deus quis vir buscar-me.»

Um mês depois de quase ter morrido percebeu que a ansiedade e irritabilidade por que estava a passar não era normal. «Então fui ao psicólogo, que me tem ajudado bastante. Sabe, aquilo que está a ser mais difícil para mim é conseguir perdoar-me. Não consegui ajudar as pessoas, não consegui salvar-lhes as vidas nem as casas – e era para isso que eu vivia.»

À sua volta tem um mundo de cinza a lembrar-lhe o fracasso. Em dezembro, a sua cidade voltou a viver uma tragédia, quando oito dos seus conterrâneos pereceram num incêndio numa associação recreativa em Vila Nova da Rainha, durante um torneio de sueca. «Voltei a confrontar-me com o fogo e percebi que o apoio psicológico que recebi foi essencial para conseguir desbloquear. Hei de continuar a salvar vidas. É só isso que sei fazer.»

O inverno está a chegar ao fim e só quando chegar novamente o fogo se conhecerá a verdadeira dimensão do trauma nos bombeiros portugueses. As equipas de apoio psicossocial da ANPC aconselham que, quando um carro partir para combate, mesmo que não seja para enfrentar mais do que um fogacho, os chefes das equipas sejam pormenorizados na descrição daquilo que vão encontrar e que revejam o plano de ataque, para reforçar a sensação de controlo a quem eventualmente o possa perder. E continuar a falar, ventilar, deitar cá para fora. Os verdadeiros heróis, afinal, são os que têm coragem de expor a sua fragilidade.




Texto Ricardo J. Rodrigues

sábado, 23 de dezembro de 2017

Vouzela: natal entre as cinzas no vale onde tudo ardeu


































O dia amanheceu soalheiro, mas não deixam de estar dois graus negativos no vale da Ventosa. É dezembro e em Vouzela respira­‑se aquele ar limpo que só existe nas manhãs de inverno. Dois meses antes, a 16 de outubro, o fumo era tanto que tudo se tinha tornado amarelo, e espesso, e irrespirável.

O monstro tinha chegado na noite anterior, queimara tudo, matara homens e esperança. E agora é difícil esquecê­‑lo: o bosque permanece apocalíptico, o arvoredo retorcido em carvão, as aldeias em escombros. Como nas cumeadas de São Macário já caiu neve, a natureza parece ter tirado um retrato a preto e branco. E isso é desarmante: não há um assomo de verde para descansar os olhos e no entanto o ar respira­‑se limpo, como se prometesse que a primavera há de voltar.

Na noite de 15 de outubro morreram oito pessoas no concelho de Vouzela, a maioria das quais neste vale. Na manhã seguinte, a Notícias Magazine estava aqui para perceber a decisão terrível que o povo teve de tomar no meio das chamas: fugir e abandonar tudo ou ficar para lutar contra o monstro? Dois meses depois, o cenário é igualmente trágico, mas alguma coisa mudou.

A tragédia trouxe uma união sem precedentes ao vale da Ventosa. Houve vizinhos a acolher em casa os que estavam desalojados, a compartilhar o pouco que lhes sobrava, houve desconhecidos que apareceram com roupa, comida, dinheiro e abraços. No meio dos despojos do fogo, também há esta história de humanidade.

Veja­‑se Alcinda Santos, que nem com forças se sentia para celebrar o Natal. Na manhã de 16 de outubro encontrámo­‑la em desespero. Acordara de noite com barulho de chuva e afinal era o lume. Correra a acordar o povo da aldeia de Ânsara – e a maioria abalou, mas ela decidiu ficar para salvar o que pudesse. Não salvou quase nada.

Perdeu a casa e o gado todo, só lhe sobrou uma vaca e um vitelo que conseguiram escapar­‑se do curral. «A mãe morreu umas horas depois de vocês estarem aqui, tinha respirado muito fumo. Então fiquei só com o vitelinho, que agora é órfão, por isso eu digo que ele é o meu menino.»

A ruína da casa deixa­‑a de coração partido, mas quando se agarra ao bicho a mulher é toda sentimento. «Anda cá meu lindo, anda cá meu amor.» Mudou­‑se para outra casa que tinha na aldeia, que é dela e de mais irmãos. «Isto tem muitos herdeiros e sempre tinha havido discussão sobre quem tinha direito a ocupar a casa. Mas assim que aconteceu isto toda a gente disse que a casa era nossa, veja lá se não é bonito?» Vai afagando o dorso do animal e depois atira: «Desde que aconteceu a tragédia aconteceram muitas coisas bonitas.»

Faltam­‑lhe palavras para agradecer às vizinhas. Foi Maria Rodrigues que veio trazer­‑lhe uma pipa de vinho e um presunto quando percebeu que os tonéis tinham ardido todos, e que os porcos que estavam reservados para o fumeiro tinham morrido no incêndio. Foi Glória Moita, a quem arderam os currais todos, a partilhar com ela as batatas que o monstro se esquecera de queimar. «E depois houve muita gente a ver a reportagem que vocês fizeram e a vir cá trazer­‑me coisas. Roupas, loiças, dinheiro.» Gente que não a conhecia mas que soube ler­‑lhe o desespero.

Da Alemanha chegaram cem euros por transferência bancária, e ela não sabe a quem os agradecer. Veio gente de Aveiro e Setúbal, de Águeda e Santo Tirso. «Há esta senhora que veio trazer-me um cachorrinho porque os meus morreram todos queimados. É o Jamel.»

Ao ouvir o nome, o cão corre para a dona e salta­‑lhe para o colo. Ela ri­‑se – e aquele riso é uma sinfonia inteira no meio do carvão. «Há dias apareceu­‑me aqui com uma árvore de Natal de plástico. Eu não a ia fazer porque os pinheiros estão todos queimados, mas ela insistiu e eu trouxe cá a minha neta para montá­‑la comigo.» É à volta dela que a família vai juntar­‑se na noite da consoada. Bacalhau com batatas e vinho da vizinha Maria «E sabe, vou fazer sonhos de abóbora para oferecer a toda a gente. É para ver se deixamos de ter pesadelos com o incêndio.»

O centro de saúde local tem uma psicóloga que anda de aldeia em aldeia a falar com as pessoas, a confortá­‑las e a avaliar sintomas de stress pós­‑traumático. Fernando Correia, 43, ainda anda em sobressalto, as chamas a atormentarem­‑lhe as noites, a memória da pele a queimar. «A psicóloga tem ajudado muito e os irmãos também.» Como perdeu a casa onde vivia na aldeia de Adamo, também no vale da Ventosa, foi acolhido num colégio religioso de maristas que existe na vila. Também lá vivem Piedade e Fernando Fernandes – ela 77, ele 47. São mãe e filho, ficaram igualmente desalojados.

Para Correia, a noite de 15 de outubro foi particularmente cruel. Estava a dormir em casa quando o vizinho lhe veio bater à porta: «Sai senão morres.» E ele bem tentava escapar, mas as labaredas já tinham tomado conta da habitação. Pensou que ou tentava a sorte pelo meio das chamas ou se despedia deste mundo, e então avançou. As roupas pegaram fogo, mas conseguiu passar.

Despiu­‑se, as fagulhas a continuara queimar­‑lhe a pele, mas conseguiu chegar vivo a casa do vizinho. Tinha o corpo com queimaduras de terceiro grau e precisava de assistência médica urgente. «O meu vizinho ligava para os bombeiros, mas eles não conseguiam passar. Ao fim de duas horas veio o genro dele buscar­‑me. Atravessou o fogo e correu risco de vida para salvar a minha. Não sei como poderei algum dia agradecer-lhe.»

Primeiro foi para o hospital de Viseu, mas o caso era grave e teve de ser transferido para o Hospital de São João, no Porto. No dia seguinte, era reencaminhado para Santa Maria, em Lisboa, cidade onde só tinha estado uma vez e onde não conhecia ninguém.

«Então as pessoas da minha aldeia que tinham familiares na capital contactaram­‑nos para que eles viessem prestar assistência enquanto eu estava na unidade de queimados. Todos os dias tive visitas. Encheram­‑me de doces e fruta.» Emociona­‑se: «Durante a noite não conseguia dormir porque sonhava sempre com o fogo, mas de dia estava sempre distraído e isso ajudou­‑me muito. Estou sem ninguém há tantos anos e naquele mês que passei no hospital nunca me senti sozinho.»

Há uma história de solidariedade para contar no vale da Ventosa, mas também é preciso dizer que, para a maioria dos seus habitantes, a recuperação é demasiado lenta. Só no concelho de Vouzela uma centena de casas foram consumidas pelas chamas – e sessenta eram primeiras habitações. Depois houve o gado, morreram centenas de cabeças. «Isto para não falar dos prejuízos em alfaias agrícolas, tratores, armazéns e celeiros. Numa única noite mais de quinhentas pessoas ficaram afetadas e 73 por cento do território do município foi completamente destruído», diz Rui Ladeira, presidente da câmara municipal.

Os trabalhos de reconstrução ainda não começaram, mas o município decidiu adiantar­‑se ao Estado e criar um programa de recuperação de currais para quem teve prejuízos inferiores a cinco mil euros. «Há muita gente que teve estragos superiores a vinte mil mas prefere aderir ao nosso projeto, porque tem pressa de retomar a vida.»

Para Beatriz Augusto, o seu primeiríssimo desejo não é a casa, é um porco. E isso não é pouco quando se sabe que, aos 70 anos, viu arder a habitação onde tinha nascido – e onde, meses antes do incêndio, tinha instalado todo um novo telhado. «Naquela noite fiquei muito aflita por causa dos animais e por causa dos medicamentos para o coração, que tenho de tomar todos os dias.

As paredes são as paredes, mas consegui trazer a coisa mais preciosa que tinha lá dentro, que era uma fotografia da minha mãe.» Como quase todos, viu­‑se na rua aflita, de camisa de dormir e pantufas. «Eu não tinha forças para combater o fogo, mas se Deus me tivesse dado tempo de abrir a porta da pocilga para o meu porquinho poder fugir, não vivia com esta dor no coração.»

Enterrou o animal no dia seguinte à tragédia, quando a terra ainda fumegava. A sua vida era aquele bicho, mais as quatro galinhas que lhe davam ovos. Sobrou uma, e agarra­‑se a ela como uma criança protege uma boneca. «No início queriam pôr­‑me num lar, mas eu não deixei, então quem é que vinha dar de comer à galinha?»

Acolheu­‑a Paula Ferreira, que mora no outro lado da aldeia de Santa Comba, e prometeu­‑lhe que poderia ali ficar o tempo que fosse necessário. «Agora durmo no quarto da sogra da Paula e até estou mais acompanhada.» Não tem descendência, tinha só o gado.

Beatriz ainda não sabe isto, mas Paula, que perdeu um chibo, 14 cabras e 19 cabritos para o fogo, ainda tem três porcos e é bem capaz de oferecer um deles à vizinha, «para ela não se pôr tão triste». Também arranjou uma árvore de Natal pequenina – pode não haver crianças em casa que os filhos já estão crescidos, mas há uma amiga que tem de esquecer as tristezas por uma noite.

O gesto é bonito, mas talvez não seja preciso cumpri­‑lo. O presidente da câmara diz que tem um fundo preparado para quem perdeu animais. «Abrimos uma conta solidária no concelho e temos lá oitenta mil euros. O resto eu comprometo­‑me a utilizar do nosso orçamento, porque sei o afeto com que estas pessoas lidam com o gado, e sei que a espera só ajuda a desmotivar mais a nossa gente.»

Passaram afinal dois meses sem que houvesse ainda uma intervenção digna desse nome. «O problema é que esperamos pelas diretivas da direção regional do centro para poder reflorestar as matas, para organizar as obras nos currais e nas casas», diz Rui Ladeira, que antes de ser autarca era engenheiro florestal.

«E está certo que assim seja, temos de requalificar a paisagem em toda a região, não apenas no município. Mas o processo tem de ser célere, porque não tarda nada é altura de plantar os fenos, e se isso não acontecer vai ser um ano inteiro perdido para o gado.»

Foi lá no fundo do vale que o monstro provocou a maior infâmia. No cruzamento que dá acesso a Vila Nova de Ventosa foram retiradas as placas que identificam as aldeias mais próximas – em outubro elas estavam todas queimadas, algumas caídas, e agora pura e simplesmente não estão.

Mas o caminho preserva­‑se intacto e a primeira imagem que se vê agora quando se entra na povoação é a do casario queimado, ruínas de pedra e carvão. Só aqui morreram quatro pessoas, uma quando tentava salvar o gado, três que dormiam em casa e não conseguiram sair. À porta do que resta da habitação há um vaso de flores e uma vela com uma imagem do Sagrado Coração de Jesus.

Emília Marques, que na manhã do dia 16 tinha vindo mostrar o palco da desgraça, é quem vai todos os dias regar as plantas – e não é que elas precisem assim tanto, porque os dias têm amanhecido húmidos. «Mas sempre fico aqui a pensar um bocadinho.» Dá uma volta por aquele extremo da aldeia, está tudo igualzinho ao que estava há um par de meses.

«Sou eu que faço isto porque sou a única que consegue cá vir. Ninguém quer cá pôr os pés, muito menos a Camila.» Camila Duarte, 62 anos, perdeu ali dois irmãos e a cunhada – e pediu a Emília que fosse lá a casa, todos os dias, rezar um bocadinho na vez dela. A solidariedade dos vizinhos também se estabelece assim, no alívio da carga que retiram uns aos outros.

«Limpar tudo e reconstruir tudo, é só isso que precisamos», diz agora Camila. «Enquanto estiver tudo em ruínas não conseguimos avançar com a nossa vida.» A ideia é repetida, aldeia a aldeia, até à exaustão. E o presidente da câmara dá razão ao povo. Diz que é urgente intervir nos povoados, mas também nos matos.

«Temos de cortar esta madeira toda que está queimada, e ainda não o fizemos porque não temos para onde escoá­‑la. A maioria das serrações ardeu.» Precisam que o Estado os ajude a despachar tanto carvão dali para fora. Urgentemente.

Apesar da morosidade nas intervenções, o autarca acredita que esta tragédia trouxe uma oportunidade. «Temos de repensar todo o conceito da distribuição da riqueza em Portugal. O Estado tem de garantir serviços públicos nas regiões menos povoadas, tem de incentivar a captação de empresas, tem de proteger e compensar os proprietários para que se crie uma floresta saudável e se ponha termo, de uma vez por toda, a esta calamidade.»

Propõe que as novas medidas sejam pagas com impostos das indústrias poluidoras ou com a fatia do IMI do litoral, por exemplo. «Se não mudarmos nada, estamos simplesmente a fazer xeque­‑mate ao interior do país.»

Mabilde Santos sente­‑o na pele. Ela, que chegou há dois anos de Bragança ao vale da Ventosa, ainda matuta se não é luta demasiada ficar a trabalhar a terra. Depois daquela noite de outubro, a mulher considerou voltar à cidade. «Foi o Miguel, o meu homem, que me disse que tínhamos de arranjar forças onde não as tínhamos, que havíamos de lutar juntos pelos nossos animais e pelo nosso pedaço de terra.» Só se têm um ao outro, afinal, e agora que ardeu o seu pequeno paraíso, estão a arranjar formas de torná­‑lo paraíso outra vez.

A casa sobreviveu, mas as persianas e algumas janelas arderam, por isso chove­‑lhes dentro de casa. Vão­‑se remediando com plástico a tapar a água, o mesmo que têm para cobrir o pouco feno que lhes sobra.

«Da última vez que vocês estiveram aqui eu estava feita num oito, foi o culminar de uma depressão de vários meses», conta ela, enquanto vai arrumando a roupa que ficou a secar na sala. «E sabe que o incêndio me fez levantar outra vez. É como se tivesse batido no fundo e fosse obrigada a reagir.»

O casebre onde costumavam secar o fumeiro ardeu, neste ano não vão poder fazer presunto nem chouriças. E no entanto, assim que se sentam à mesa, Mabilde vai buscar umas que trouxe do supermercado para servir as visitas. Não o querem guardar para o Natal? «Na consoada somos só os dois, havemos de ter o bacalhau e rabanadas», diz ela.

Miguel olha embevecido para a mulher: «Vais fazer rabanadas, amor?» E ela responde que vai, porque sabe que ele gosta, e ele pousa a sua mão na dela. Até ao fim do ano ainda contam recuperar um dos currais que o fogo levou, e tal como combateram as chamas juntos, também é juntos que vão construí­‑lo.

Depois do incêndio, Mabilde e Miguel perceberam um bocadinho melhor que a vida não os tinha deixado sozinhos. Que se tinham um ao outro, e que isso era a única coisa que o monstro não podia levar. A história deles é a história de um vale inteiro que se fez cinza. Do meio de um pedaço de terra negra nasceu uma humanidade que agora permite a sobrevivência.

Mas falta fazer tudo, reconstruir casas e currais, limpar matos e trazer animais para a terra. Está na hora de pôr termo ao luto e arregaçar as mangas. «Voltem, venham cá ver como as coisas vão andando», pede a mulher na despedida. Voltaremos, sim.





Texto de Ricardo J. Rodrigues

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Ficar para enfrentar as chamas








































Alcinda Santos acordou com o monstro. Pouco passava da meia-noite e o vento assobiava bravo, ao fundo parecia-lhe ouvir o crepitar das árvores mas, que raio, o bosque estava tão longe. Levantou-se, foi à porta e quando a abriu lançou um grito: «Ai que morremos aqui todos, ai os meus ricos filhos.»

As labaredas tinham galgado o pinhal e engoliam livres as casas, a sua estava já tomada num canto. O marido e o filho despertaram com o pânico, tudo para a rua de pijama, descalço, tentar contornar o fogo enquanto ele deixasse.

Alcinda e o filho, Nuno, correram a bater às portas dos vizinhos, o monstro tinha chegado de mansinho e ninguém dera por ele.

Na aldeia de Ânsara, em pleno vale da Ventosa, vivem 19 pessoas, quase todos fugiram de carro. Ela teve um minuto para decidir se ia ou ficava. Ficaram oito braços para tanto fogo. Ela, o filho, dois vizinhos. Chamaram uma outra vez os bombeiros, ninguém podia acudir-lhes.

As condutas de água tinham rebentado, com os poços sedentos pela seca não havia nada para combater o incêndio. Um quilómetro abaixo do povo havia uma cisterna, então começaram a encher baldes e galgar a colina para tentar pelo menos salvar a sua casa. Quando amanheceu, ainda andavam naquilo, a carregar baldes e enxotar as chamas.

Foi só quando parou que a mulher de 60 anos percebeu tudo o que perdera. Chorou pelo sofrimento dos seus bichos, quase todos carbonizados no curral. E pela ingratidão do verão mais trabalhoso de que tinha memória, a concluir jornas ao calor, e que afinal não lhe valera de nada. Mas aquele minuto em que decidira ficar tinha-lhe salvo a casa. E, no fim de tudo, estava viva. «Foi Deus.»

O mesmo não se pode dizer da aldeia de Vila Nova, uns quilómetros abaixo, onde quatro pessoas perderam a vida para o mesmo incêndio. Ainda há um desaparecido. Os vizinhos bem tentaram salvá-los, mas o monstro era demasiado forte e enfrentá-lo ali era sentença de morte.

E fugiram, que mais podiam fazer? «Acha que abandonar a minha casa é fácil? É a minha vida toda naquelas paredes», diz Emília Marques, 73. «O fogo obriga-nos a tomar uma decisão muito rápida: ou fugimos e tentamos salvar a vida, ou arriscamos a morte para salvar o que demorámos uma vida inteira a construir.» Como num jogo de poker, arrisca-se – e às vezes perde-se.

Horas antes do anúncio das primeiras mortes, o secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, pedia proatividade às comunidades rurais: «Não podemos ficar todos à espera que apareçam os bombeiros e os aviões para resolver o problema. Temos que proteger-nos.»

Rui Ladeira, presidente da câmara de Vouzela, gostaria que Jorge Gomes viesse dizer isso às gentes do vale da Ventosa: «A população do interior é envelhecida, não tem grandes condições de mobilidade nem formação para o combate aos incêndios.»

Muitas vezes, acrescenta, o fogo é tão rápido que nem sequer tem a decisão de ficar ou partir. «O que os bombeiros fizeram ontem à noite foi tentar garantir que as populações de Vouzela tivessem pelo menos uma opção.»

No terreno não estiveram mais de 50 homens para combater um fogo com três frentes e progressão rápida. «Às tantas percebemos que tínhamos dois vales com várias aldeias a ficar completamente rodeadas e tivemos de concentrar esforços ali para que pelo menos fosse possível sair», diz Joaquim Tavares, comandante dos bombeiros de Vouzela.

À Ventosa os carros já não podiam chegar, ficou entregue à sua sorte. Arderam casas em todas as aldeias, perderam-se vidas e das estradas a única paisagem que se alcança agora é um fim de mundo negro e fumegante.

Às vezes a decisão tem tempo para ser tomada. É isso que está a acontecer na aldeia de Paços de Ariz, também em Vouzela. Às duas da manhã apareceu a GNR, o incêndio estava bravo e não tardaria a chegar à povoação. Foi dada ordem de evacuação, quem ficasse fá-lo-ia por sua conta e risco.

«Metemos os mais velhos e os que não se podem mexer nos carros, toda a gente tem família aqui à volta», diz António Carvalho, 68 anos, nascido e criado na terra. Ele, a mulher e o sobrinho ficaram, mais uma mão cheia de vizinhos. Agora estão ali, a ver o mostro beijar-lhes os calcanhares.

Durante a noite, começaram a atar a urze em ramadas largas, caso falhe a água ainda podem dar vassourada aos pequenos focos. Ligaram mangueiras a todas as torneiras, disponíveis e viraram-nas para o ribeiro seco, de onde sabem que chegarão as chamas.

Os telhados molhados, panos encharcados na cabeça e máscaras a tapar narizes e bocas. «Se correr para o torto resta-nos fugir para os carros.» Estão todos apontados à estrada, para que ninguém precise de perder tempo em manobras.

«Quem fica para lutar e ganha nunca ganha verdadeiramente», diz Mabilde Santos, que não consegue parar de chorar. A sua casa é uma das mais isoladas que há na Ventosa – e esta noite o marido, sapador florestal, foi-lhe ensinando as táticas da guerra. «Dá-lhe mangueirada aqui, agora varre dali».

A habitação resistiu, apesar de ter ardido todo o piso térreo onde armazenavam lenha e das persianas das janelas terem derretido com o calor. Os animais foram-se, «e o carro só se salvou porque fui estacioná-lo no largo onde está a estátua de Fátima e Nossa Senhora quis protegê-la».

Mudaram-se para Vouzela há dois anos, depois de se conhecerem numa plantação de mirtilos em Bragança e se apaixonarem à primeira vista. São jovens, fartos da cidade, aquela casa no meio do pinhal era todo um projeto de vida.


«Lutámos tanto por isto e ontem à noite, quando o fogo chegou à escada, eu só pensava se valia a pena salvá-la.» Que paraíso sobra quando o sonho em volta ardeu? Ficar para lutar contra o monstro, mesmo que se ganhe a batalha, não significa vitória na guerra.

Texto de Ricardo J. Rodrigues