segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

A terra prometida dos judeus pode bem estar nas montanhas portuguesas

















Há um novo fenómeno no interior português. Milhares de turistas judeus estão a invadir lugares como Castelo de Vide, Belmonte ou Trancoso para conhecer o património judaico nacional. No último ano, o número de visitantes aumentou exponencialmente. Há novas linhas aéreas entre Portugal e Israel, novas agências especializadas, novos hotéis e lojas kosher. História de um retorno.
Nas cozinhas dos hotéis que vão nascendo junto à raia, toda a gente sabe para que lado fica Jerusalém. «Essa foi uma das primeiras coisas que tivemos de aprender quando os turistas judeus começaram a chegar», diz António Lopes, proprietário do hotel Monte Filipe, um quatro estrelas com 50 quartos nos arredores de Castelo de Vide. Até 2015 acolhiam em média 150 hóspedes hebreus por ano, gente que vinha à procura das suas raízes no interior português. Mas em 2017 esse número subiu para mil, e este ano esperam dobrar o milhar de dormidas em junho. «Há um verdadeiro boom no turismo judaico e isso está a revelar-se um balão de oxigénio para nós. Neste momento, estamos a treinar todos os nossos empregados para nos adaptarmos às necessidades desta nova clientela. Sobretudo na cozinha, onde a comida tem de ser confecionada sob os preceitos kosher. A carne, por exemplo, tem de ser cortada na direção de Israel.»
A semana passada, a Secretária de Estado do Turismo fez uma digressão pelas comunidades semitas dos Estados Unidos para promover o país como destino religioso judeu. «A ideia é mostrar Portugal como lugar tolerante e seguro e com uma herança judaica muito forte», dizia Ana Mendes Godinho à Notícias Magazine na véspera da partida. «O número de israelitas a visitarem-nos explodiu e queremos que este nicho convoque gente também do outro lado do Atlântico. Portugal pode ser visitado enquanto destino final mas também pode ser um stopover [paragem por uns dias] para quem viaja para Israel» Depois desta ação em território americano, aliás, o governo planeia estender a promoção ao Canadá e ao Brasil, onde também existem comunidades relevantes. «Este mercado interessa-nos. É um turismo que vai descobrir o país, que vai descobrir o interior, que traz investimento e empreendedorismo aos territórios mais deprimidos.»
Os números do INE são esclarecedores. Se no início desta década contavam-se em média cinco mil hóspedes israelitas por ano nos hotéis nacionais, em 2017 o número disparou para 105 mil, um aumento de mais de 2000 por cento. Este boom teve efeitos diretos na aviação civil. Em novembro último, a TAP e a EL AL – Air Israel abriram um acordo de codeshare para simplificar as conexões entre os dois países nos aeroportos para onde ambas voassem. Mas, um mês depois, a companhia de bandeira israelita percebeu o interesse nos voos para Portugal e decidiu reforçar uma linha com sete ligações semanais diretas entre a capital portuguesa e Telavive – que entra em funcionamento em março.
Não há dados que digam quantos destes turistas viajam por vocação religiosa, mas nas pequenas cidades e vilas do interior, onde resistem os traços mais emblemáticos da presença judaica em Portugal, está a acontecer uma revolução. «O mercado israelita tornou-se em 2017 a segunda nacionalidade estrangeira a visitar o concelho, atrás apenas de Espanha, que fica aqui a 15 quilómetros, e ultrapassando países como Inglaterra, Alemanha, França ou Itália», diz António Pina, presidente da câmara de Castelo de Vide. «Há três anos, o nicho judaico representava menos de 3 por cento do nosso turismo, agora ultrapassa largamente os 20 por cento. Isto está a criar um dinamismo como há muito não víamos no município. Temos casais israelitas a mudarem-se para aqui para abrirem turismos rurais especializados, temos os hotéis da região a adaptarem-se às novas exigências, vamos abrir um cinco estrelas na cidade até ao fim do ano. Numa zona completamente abandonada, escondida atrás da serra,  isto é o melhor que nos podia ter acontecido.»
A hotelaria é a face mais visível da mudança que os judeus estão a trazer à raia. Em abril de 2016 abriu o Belmonte Sinai Hotel, a primeira unidade do país criada propositadamente com foco no turismo judaico. Está classificada com quatro estrelas e tem 27 quartos. «Das 16 mil dormidas que recebemos anualmente, mais de metade são judeus», diz o diretor, Ricardo Abreu. Sobretudo israelitas, americanos, brasileiros e argentinos. «Além da comida, dedicamos grande atenção ao sabbath, que começa no por do sol de sexta feira e só termina no sábado à noite. É um dia sagrado de descanso em que não se pode por exemplo tocar em dinheiro ou tecnologia. Então desligamos as televisões, entregamos chaves manuais em vez das eletrónicas, os quartos ficam apenas equipados com luzes de presença.» Os elevadores, da marca Schindler, o industrial alemão que salvou 1200 judeus do Holocausto, também não são usados em dia santo.
A história repete-se 65 quilómetros acima, no Hotel Turismo de Trancoso, também de quatro estrelas. «Abrimos há oito anos, mas de há dois para cá começámos a receber excursões atrás de excursões e agora decidimos instalar duas cozinhas, uma delas vocacionada exclusivamente para alimentação kosher», diz Júlio Sarmento, o proprietário. «Em dois anos, o mercado judeu, que não existia, passou a representar 25 por cento da nossa faturação e temos tido aumentos de lucro na casa dos 10 por cento. Em 2017 as contas fecharam nos 440 mil euros, o que é extraordinário numa região desertificada como a nossa.» Esse sucesso tem efeitos colaterais, diz. Para abastecer as refeições, criaram acordos com fornecedores especializados em toda a Beira Interior. «Nos distritos da Guarda e de Castelo Branco estão a aparecer cada vez mais produtores de carne, queijo e azeite que seguem as leis da Tora. Isto está a mexer muito com a nossa economia.»
Mas porque é que, 500 anos depois de serem expulsos do país, os judeus estão a regressar agora, precisamente agora, a Portugal? «Há dois motivos essenciais para as coisas terem mudado», diz a historiadora Carla Santos, que a partir de Trancoso investiga a presença judaica no país. «O primeiro é o real funcionamento de uma Rede Nacional de Judiarias a partir de 2015. O segundo é a lei do mesmo ano que garante dupla nacionalidade a quem provar ter como ascendentes judeus sefraditas, que foram expulsos de Portugal no século XV.»
Vamos por partes. A Rede Nacional de Judiarias foi criada em 2011 por iniciativa da Região de Turismo da Serra da Estrela e integra 37 municípios portugueses. Tem sede em Belmonte e tem feito um trabalho notável de catalogação do património material judaico que existe no país. No final de 2014, a EEA, uma instituição norueguesa que financia projetos que reduzam a disparidade entre o Norte e o Sul da Europa, decidiu atribuir uma bolsa de cinco milhões de euros à rede portuguesa para que se pudessem recuperar edifícios e criar centros interpretativos. A partir daí, abriram-se museus, recuperaram-se sinagogas, colocaram-se placas sinaléticas onde elas não existiam. A organização tremeu em novembro do ano passado, quando o seu secretário-geral, Marco Baptista, acabado de perder as eleições autárquicas na Covilhã, desapareceu levando alegadamente consigo 115 mil euros dos cofres da instituição. Ainda assim, um mês depois, a EEA anunciou novo investimento de cinco milhões de euros nas judiarias portuguesas.
A lei que concede nacionalidade portuguesa aos descendentes de judeus expulsos de Portugal nos séculos XV e XVI foi iniciativa do governo de Passos Coelho. Entrou em vigor em março de 2015 e, desde então, o interesse forasteiro pelo país é inegável. Há 12 mil pedidos de cidadania de estrangeiros e 1800 deles já foram aprovados. Um dos problemas da concessão é encontrar o rasto genealógico – afinal, todos os documentos da Inquisição foram queimados. Mas até isso está a abrir um novo nicho de mercado no país. «Desde que a lei foi aprovada, não há semana em que não tenha investigadores licenciados em História, contratados por judeus de Israel, Estados Unidos ou Brasil, a virem para a nossa biblioteca e o nosso centro de arquivo», diz Carla Santos. A secretária de estado do turismo concorda: «Há todo um mercado na investigação genealógica que se está a desenvolver paralelamente ao turismo judaico.»
Para Elisha Salas, rabino de Belmonte, este interesse renovado por Portugal é puramente emocional.  «Veja a história deste povo. Desde Moisés ao Holocausto, passando pela Inquisição, a história dos judeus é uma história de perseguição constante. A partir do momento em que tornamos a ser aceites, temos uma grande obsessão por descobrir as nossas raízes, perceber de onde vimos.» Na vila onde mora, há aliás a última comunidade criptojudaica conhecida do mundo. Os judeus de Belmonte viveram em total sigilo durante cinco séculos, até aos anos oitenta do século passado. Nas suas casas ainda há sinagogas secretas, ladaínhas aprendidas em surdina, rituais que insistem fazer à porta fechada. «Na televisão israelita passam constantemente reportagens sobre Belmonte», diz ele. «E eu sempre tive a sensação que a história deste povo, destas 25 famílias que resistiram durante tanto tempo, que pagaram cara perseverança de se manterem unidos, nomeadamente com os problemas de saúde decorrentes da consanguinidade, é mais conhecida em Telavive do que em Lisboa ou no Porto. Agora que os turistas hebraicos chegaram, é claro que eles querem vir aqui.»
Apesar das duas principais cidades do país terem também assistido a um enorme incremento no fluxo do turismo judaico, é aqui que, nas terras esquecidas pelos portugueses, que ele tem maior impacto. «O turismo representa cinco milhões de euros para o nosso concelho, é um dos vetores essenciais da nossa economia. E hoje posso dizer que a fatia mais importante vem precisamente deste nicho», diz o presidente da câmara de Trancoso, Amílcar Salvador. «Pense no que isto representa para um concelho como o nosso. Todos os meses entram no centro de interpretação judaico 800 pessoas, este ano o número ainda aumentou 30 por cento. São pelo menos 25 mil visitas numa cidade que não tem mais de três mil habitantes. Agora, uma coisa é certa, temos de estar preparados para acolhê-los.»
Na faixa onde a presença judaica foi mais forte – a linha montanhosa do interior centro – as câmaras apostam forte em melhorar a oferta. Em Belmonte foi criado em 2005 um espetacular museu judaico que conta a história dos hábitos religiosos da comunidade local, e que em 2017 aumentou as visitas em 33 por cento, apesar de ter estado fechado quatro meses para remodelação. Em Trancoso, o centro de interpretação judaico Isaac Cardoso está a ser renovado, tem uma sinagoga para acolher cerimónias religiosas dos judeus que a visitam, e em março do ano passado abriu portas o Museu Bandarra, dedicado ao profeta medieval acusado de judeu pela Inquisição. Em Castelo de Vide, está prestes a abrir a Casa da Inquisição, num antigo palacete na judiaria da cidade, onde há alçapões que dão acesso a esconderijos secretos e mobiliário que se abre para garantir acesso a uma secretíssima sinagoga. Também terá um centro de genealogia, para ajudar judeus e investigadores a encontrarem as origens das suas famílias. 
«É realmente a estes sítios que as pessoas querem ir», diz Isaac Assor, diretor geral da Alegretur, uma agência turística portuguesa especializada neste nicho de mercado. «Os circuitos começam por norma na capital e terminam no Porto, mas as experiências mais marcantes acontecem sempre na Cova da Beira.» Há cinco anos, diz ele, não acolhia mais de dez grupos por ano, agora o número quintuplicou. «Vêm normalmente excursões de 30 a 40 pessoas, maiores de 50 anos, de classe média-alta. E o seu interesse está concentrado precisamente na faixa onde se fixou a população de Sefarad, que é o nome hebreu da Península.» As viagens duram em média uma semana. Também podem ir a Tomar, onde existe uma sinagoga sefradita, a Castelo Branco, Idanha-a-Nova ou Covilhã, onde há marcas judaicas bem preservadas, mas o facto é que Castelo de Vide, Belmonte e Trancoso são as paragens obrigatórias, a alma dos milhares que se esconderam, foram convertidos e acabaram por se converter em cristãos-novos.
No centro de uma das judiarias mais intactas do país, a de Castelo de Vide, Carolino Tapadejo criou um museu para homenagear o legado familiar. Presidente da câmara durante toda a década de 1980, descendente de ferreiros judeus e ele próprio escultor de ferro, é uma autoridade na história sefradita da cidade. Quando terminou a carreira autárquica, decidiu tirar o curso de turismo cultural – e foi aí que começou verdadeiramente a explorar aquele legado esquecido durante séculos. Hoje, os seus dias são passados a dar palestras sobre a história judaica da cidade. «Vou constantemente a Israel, sou professor na univiersidade da Extremadura, em Espanha, tenho viajado pelo mundo todo a falar da nossa Sefarad», atira. «Depois acolho grupos estrangeiros que vêm aqui. Falo hebraico e isso ajuda.»
Acompanhá-lo pelas ruas da judiaria é toda uma lição de História. «Os primeiros relatos da presença judaica vêm de 1320, quando sete famílias de Gibraltar se instalam aqui para desenvolver o negócio das tinturarias. Mas é no século XV, claro, que as coisas mudam de figura.» Em 1492, os reis católicos expulsam toda a comunidade de Espanha e muitos rumam a Portugal, onde D. João II aceita acolhê-los. «De repente, Castelo de Vide, que na altura tinha 800 habitantes, vê-se com um acampamento com quatro mil judeus à porta da cidade. O país na altura não tinha mais de um milhão de pessoas e pelo menos 100 mil hebreus dão entrada nesse ano nas nossas fronteiras. Há de ter sido uma revolução.»
Ao contrário da população católica, os sefraditas tinham um nível elevado de educação. Isso ameaçava o grupo que detinha o monopólio da cultura – o Clero. «É por isso e pelo poder económico crescente dos judeus que D. João III cria em 1536 a Inquisição e o povo sefradita recebe ordem de expulsão.» Abrem-se tribunais em Lisboa, Coimbra e Évora, que até à abolição dos autos de fé pelo Marquês de Pombal, em 1773, condenam à morte 40 mil pessoas. «Ou saíam, ou eram queimados vivo, ou se convertiam em cristãos-novos e eram expropriados de todos os seus bens. Mas muitos continuavam a praticar a sua religião em segredo e a cidade está apinhada de marcas dessas práticas secretas.»
Desde logo na arquitetura das casas. Os edifícios judeus têm sempre duas portas, uma para a habitação, outra para a loja. E depois há candelabros de sete velas esculpidos nas ombreiras das portas, ou cruzes a assinalar a nova cristandade. «Muitas tradições subsistem. Aqui, por exemplo, é comum ver as mulheres varrer a casa às sextas feiras e deixar uma vela acesa escondida dentro de um pote na noite de sexta para sábado, durante o sabbath.» A comida é outro sinal claro. Enchidos feitos de aves, como as alheiras do norte, ou de cabra, como os maranhos do centro, serviam para despistar as autoridades eclesiásticas. «Mas talvez o traço principal aconteça na semana da Páscoa, quando se mata o cabrito ou o borrego e se deixa o sangue do mesmo à janela, como fazia no primeiro testamento bíblico o povo de Israel.»
Foi durante uma das viagens a Israel em que contou estas mesmas histórias na televisão que Carolino Tapadejo viveu um dos momentos mais emocionantes da sua vida. Uma mulher contactou-o depois da sua aparição no canal israelita e contou-lhe que a sua família tinha fugido de Castelo de Vide no século XVI. «Era uma senhora de uma certa idade e com muito pouca mobilidade. Disse-me que a sua família passara de geração em geração a promessa de um dia aqui voltar. E, nisto, abre a mala e mostra-me uma chave muito antiga, de ferro.» Era a chave da casa daquela família na cidade alentejana, guardada durante mais de 400 anos à espera do retorno. Carolino tira a chave do bolso e mostra-a com um mar nos olhos. «Ela pediu-me que a guardasse. Nunca tinha estado em Portugal, mas esta era a terra dela.»
Essa ideia do retorno está a ser revivida uma e outra vez. Veja-se Arieh Hatchvel, um brasileiro de São Paulo descendente de judeus sefraditas que, depois de dez anos a viver em Israel, decidiu estabelecer-se em Belmonte. «Casei com uma judia portuguesa daqui e quando percebi esta história comecei a sentir um chamamento, como uma década antes tinha sentido o chamamento de viajar para Israel. É como se esta fosse uma nova terra prometida para mim.» Daniela Mourão, a sua mulher, viveu dois anos em Haifa com os pais, Moisés e Isabel, membros da comunidade criptojudaica da vila. «Eu estudei gestão hoteleira e, quando saí daqui, não havia oportunidades de trabalho. Mas isso está a mudar e é por isso que decidimos voltar.»
A casa da família Mourão fica num dos bairros novos da vila e tem uma enorme estrela de David em frente ao portão. Moisés construiu o monumento ainda antes de emigrar para a terra prometida. «Tínhamos aqui uma vida boa, mas a Tora diz que um judeu deve estar com o seu povo, e por isso decidimos emigrar.» Foram dois anos bons, mas Portugal continuava a bailar-lhes na cabeça. «Há duas semanas decidimos que era tempo de voltar. Este aumento do turismo dá-nos a possibilidade de construir aqui uma vida decente.»
Para mostrar o que fala, o homem decide abrir ir buscar o projeto arquitetónico que está a planear para o centro da vila. É mais um hotel de quatro estrelas, vocacionado exclusivamente para hóspedes judeus, mais uma vintena de quartos. «Concorremos a financiamentos europeus, mas ainda não tivemos sorte. Haveremos de construí-lo de outra forma», suspira. Enquanto isso nõ acontece, decidiram abrir uma loja de produtos kosher, que vai abrir portas esta semana em Belmonte. Produtos alimentares, artigos religiosos, tudo o que sirva para abastecer esta nova vaga de turismo que começou a chegar. Chama-se a Casa da Judiaria e abri-la é quase cumprir uma profecia. «Cinco séculos passou a minha família a esconder-se e agora, imagine, aquilo que andámos a esconder é o que toda a gente nos pede para mostrar.» Moisés ri e abana a cabeça. Às tantas as gargalhadas contagiam a mulher, a filha e o genro, está toda a gente numa alegria desbagada. Ali, nos montes do interior do país, os judeus estão em casa.


Há um grupo de turistas brasileiros a percorrer as ruas de Trancoso. Chegaram em dois autocarros de turismo e cumprem a excursão inevitável. Começaram em Lisboa, estiveram em Castelo de Vide e Belmonte, agora desaguaram ali. Andam acompanhados por uma guia local a ver os traços de judaísmo que enfeitam a arquitetura da cidade. Aqui o património é riquíssimo e as autoridades locais criaram guias dos principais pontos, em português e hebraico, para alimentar a curiosidade forasteira. Vitrais com candelabros, marcas cruciformes nas portas, até um Leão de Judah esculpido na parede de um edifício. Mas é quando entra na sinagoga do centro judaico que Fabiana Oliveira Bezerra se emociona verdadeiramente. Pernambucana do Recife, é descendente de judeus sefraditas que fugiram para a Holanda e daí para a América do Sul. Na sua cidade há uma das comunidades mais antigas do continente. A sua história não há de ser diferente dos milhares de judeus que estão a visitar o interior português. «É estranho», diz enquanto enxuga as lágrimas. «Vim ver um lugar onde nunca tinha estado e percebi que cheguei a casa. Podem passar quinhentos anos, podem até passar mil, mas quando uma terra se entranha no sangue de um povo, essa terra pertence a esse povo para sempre.»


Mesmo que o nome de Aristides de Sousa Mendes seja o mais conhecido, a promoção do turismo judaico em Portugal conta com quatro nomes de portugueses que se destacaram na resistência ao Holocausto. São os quatro cidadãos portugueses classificados como Justos entre as Nações pelo Memorial do Holocausto de Jerusalém – precisamente por terem resistido ao extermínio de judeus durante a II Guerra Mundial. O caso do cônsul de Bordéus é o mais conhecido. Ignorando as ordens de Salazar, passou vistos a 30 mil judeus que fugiam da perseguição nazi. Mesmo que tenha destruído a carreira e morrido na miséria, a história guarda-o como o homem que mais vidas salvou do Holocausto. Depois há Sampaio Garrido, embaixador português em Budapeste, que não só emitiu 70 passaportes para judeus em fuga como escondeu 12 pessoas na sua casa. José Brito Mendes, um emigrante português em França, foi declarado Justo entre as Nações por proteger uma criança judia cujos pais morreram em Auschwitz, assumindo-a como filha. E por fim um padre, Joaquim Carreira, reitor do Colégio Pontifício Português em Roma quando os alemães se instalaram na cidade. Ali acolheu, escondeu e alimentou pelo menos 40 pessoas que fugiam das autoridades nazis. Homens que arriscaram a vida para proteger outras. Portugueses. E justos.


Texto Ricardo J. Rodrigues

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Arte Sem Dono






























Através de cartazes, azulejos, esculturas ou do "stencil", o coletivo "Arte Sem Dono" exibe nas ruas do Porto o que há de bonito nesta cidade e no país. O coletivo espalha identidade nacional pelas ruas durante a noite, deixando as obras de arte espalhadas até alguém se apoderes delas

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Aleixo






























O Bairro do Aleixo, no Porto, é considerado um dos incontroláveis mercados de droga da cidade. Conhecido como o pior “bairro do Porto”, era composto por cinco torres, onde hoje já só restam três. São vulgarmente chamados por torres pela sua elevada altura comparativamente a outros bairros, de 13 andares cada, com 320 casas. Tendo a sua inauguração feita a 13 de Abril de 1974 sendo que apenas existia a primeira torre, a segunda torre foi "tomada de assalto" cerca um ano e meio depois sem se encontrar completa. Em 2011 deu-se inicio à demolição do bairro por considerar ser a melhor forma de acabar com os problemas de tráfico e consumo de droga, bem como as más condições de conservação dos edifícios. Depois de um braço de ferro com os moradores, a demolição acabou por parar, deixando o bairro sem condições e ainda pior do que já estava. Uns querem muito ficar no lar onde sempre viveram; outros lutam, dia após dia, por uma mudança de vida; todos sabem que a degradação do Bairro, já ultrapassou o limite do suportável. Cinco anos depois da primeira demolição, há mais de 300 moradores nas torres por demolir à espera de realojamento. entretanto na Torre 1, conhecida como a pior e a mais degradada estão vários moradores sem qualquer tipo de condições de habitabilidade. Que lidam com o desalento, que continua cravado no rosto dos residentes, cansados de encarar a humidade doentia, a falta de elevador que obriga os acamados a ficar fechados em casa anos a fio, o lixo espalhado pelo prédio, o frio devido à falta de janelas, viver em permanente terror