Mostrar mensagens com a etiqueta Lisboa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lisboa. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

O bebé deitado fora e como ele se salvou


























João e Rui, sem-abrigo, reconstituíram o salvamento do recém-nascido abandonado num ecoponto.

Quando João viu aquilo retraiu imediatamente a cabeça para fora da moldura amarela do ecoponto. Tinha os olhos muito abertos. Vira uma coisa que não era suposto estar ali, que não parecia verdadeira, uma coisa irreal, uma coisa que parecia errada, ou pior, e quando olhou a segunda vez já foi à cautela, de tronco inclinado para trás.
Varejou o olhar lá para dentro a ver o que podia ver, esquadrinhou, viu o bafo da própria respiração e não viu nada daquilo que imaginava ver. Ficou ali ainda uns segundos, confuso, a hesitar, sem saber o que fazer. Como aquilo não lhe passava, uma estranheza, inquietação, contradição, uma sensação de fogo a deslizar no gelo, a subir-lhe ao peito, pôs-se subitamente a correr, alucinado como o Bolton, e foi chamar o Rui.
Eram 9.30 da manhã. O Rui estava ainda no quiosque abandonado por trás da discoteca lisboeta Lux, na calçada onde se esticavam as cinco tendas verde-musgo, a sua, a do João, a do Sidnei e da Sara, que dormiam, a do Bangla e a do Xavier, que já não estavam, Rui arrumava cenas e trincava uma maçã. "Ele chegou esbaforido, todo desorientado, vinha do outro lado da rua, é estranho, parecia que chorava sem chorar, todo a tremer. Ó pá, ó Rui, eu vi um bebé, pá!, anda comigo lá, é um bebé, pá!, estou a alucinar", disse o Rui que disse o João sem perceber patavina do que ele estava a dizer. "Mas viste o quê?, e viste aonde?, perguntei eu que já me estava a passar. Estás-me a assustar, João, viste o quê? E fomos os dois, ele nervoso, eu ansioso, e fomos a abrir".
Percorreram os 400 metros da calçada marginal à Avenida Infante D. Henrique, entre a linha dos comboios da CP, o terminal de cruzeiros do Tejo, as gruas grandes, os vagões e os contentores da EMEF, do outro lado da Estação de Santa Apolónia, vão acelerados, vão a ventar, e chegam os dois ao grande caixote do ecoponto a arfar. "O caixote estava cheio de tampas de garrafas e plásticos, eu espreitei, enfiei a cabeça, olhei, tornei a olhar, nada. Mas que bebé?", diz o Rui a olhar semicerrado para o João, "não está aqui nada!". Vasculharam outros caixotes, viram os contentores de metal, reviram, nada. "Eu fiquei a duvidar do João", diz o Rui, "ele tem psicoses, mete metadona, desorienta-se, ele sabe (João concorda silencioso), ele estava com uma onda marada, pá, a anhar". Mas o João jurava e repetia baixinho: "Eu vi. Era um bebé...". E saem os dois desalentados dali.
Pelo caminho encontram o Vítor que vinha lá do fundo onde dormia, nas tendas onde dormem 11 pessoas debaixo do viaduto, contam-lhe tudo e o Vítor só diz: "É pá, se é um bebé é porque está morto. Afastem-se. É melhor".
Mas aquilo continuava a comer-lhes as cabeças e os dois decidem o contrário, vão à polícia turística da estação. Entram de rompante, atropelam as palavras, esbracejam, mas os polícias, que eram dois, não acreditam neles, gracejam, troçam deles, dizem que têm é que se internar. "E saímos os dois chateados dali", diz o Rui. "Contamos os trocos, eu comprei sangria, voltei para a tenda e o João, ó João tu és mas é maluco, foi à vida dele para o lado da estação".
João arrumou uns carros e uns trocos, cirandou no átrio de Santa Apolónia que já se enchia de fumo azul das castanhas lá fora a assar, encontrou Arlindo, o pregador - há uns tempos o Arlindo estava atolado nas trevas em Espanha, viu uma luz a rasgar e retornou a Portugal, "foi uma coisa a descer sobre mim, foi como um êxtase", e agora anda sempre a pregar, pede moedas, dá a palavra, diz que "temos todos ainda salvação" -, almoçaram um frango comido à mão, beberam vinho de pacote e continuaram a arrumar.

João chora: "É um bebé!"

Mas aquilo não saía da cabeça do João. "Nem da cabeça, nem do coração. Era um peso aqui no peito, atrás dos olhos, não sei bem dizer, uma coisa que se meteu em mim, que não me deixava pensar, mas, raios, eu vi ou não vi um bebé?!".
Vai passar uma meia dúzia de horas de roldão até que João torne ao ecoponto. Foi às 4.30 da tarde. "Tinha que saber, dava em maluco, vi ou não vi o que vi?". João vai, chega, deita as mãos ao bojo do ecoponto, espreita para lá com a orelha, ouve o pranto baixinho, chorinho, aterra-se outra vez e desata outra vez a correr, "ó Rui!, ó Rui!".
Contrariado, afobado, Rui segue atrás do João a resmungar mas vai. Vê umas calças de fato de treino pelo caminho caídas no chão, sacode-as, dobra-as depois de as cheirar, chegam e põem-se os dois de atalaia. "E então ouvimos! Era um choro pequenino, era estranho, parecia mecânico, parecia um choro daqueles bonecos a pilhas de brincar", diz o Rui um tanto alterado. Tremebundo, mete a cabeça no ecoponto e vê no mar de tampinhas cor de anil uma perna e um braço gordinhos de bebé a despontar. Grita com a cara lá dentro: "É um bebé!". João chora, ataranta-se, diz que não parou de tremer mas que se sentia a ferver, pontapeia o contentor de ferro, está eufórico. "Vês! Não estou maluco!". Os dois rebentam impetuosos a moldura amarela do ecoponto, gritam como tolos, disparatam, João mete os dois braços lá dentro de uma vez, pega no bebé por uma perna, "era a esquerda", e iça-o cá para fora, protegido na palma da mão, as perninhas a rabear no ar.
"Ele chorava e nós chorávamos também", diz o Rui atrapalhado a mostrar como fez para o embalar. "E assim que o encostei ao peito, ele sossegou logo, calou-se logo, parou imediatamente de chorar, parecia um anjinho, meu Deus, os olhos ainda fechadinhos, como é que isto está aqui a acontecer?!".
O anjinho estava nu, sujo de sangue, exangue, arroxeava - e "estava duro, a cabeça não tombava, reparei logo", diz o João, "e ainda tinha o toquinho do cordão umbilical a sair, coitadinho", diz o Rui, "e o cordão estava mal cortado, foi traçado com os dentes, se calhar ".

Xavier entra em cena a mentir

O que aconteceu a seguir foi confuso porque já ali se juntara muita gente inquietada, a perguntar, a sacar de telemóveis, a vozear, braços no ar. Já o Rui embrulhara o bebé nas calças de fato de treino que pousara em cima do ecoponto, ele o João procuram-se nos olhos, encontram-se, olham os dois para uma mulher acabada de chegar - e depositam-lhe o bebé nos braços emudecidos. A mulher é logo ladeada por dois homens saídos da parte oculta de trás da Lux e internam-se os três, mais o bebé, na discoteca. E essa foi a última vez que o Rui e o João viram o bebé que acabavam de salvar.
Ababelados, meios zonzos, sem saber outra vez o que fazer, João repara que o Rui tinha a cara subitamente fechada e olhava-o de olhos selados, muito sério. Ele aproxima-se, diz-lhe algo que vai ter que repetir - "temos que agradecer, João" - porque a voz se lhe engasgou e seguem os dois em direção à Igreja de Santa Apolónia.
Quando voltaram minutos depois - "Agradecemos a Deus ter-nos posto ali. Foi um ato de confiança d'Ele, com isto Deus disse-nos que conta com nós os dois", relata depois o Rui -, já estava tudo mudado. Já havia televisões, focos agitados, polícias, gente ao redor a ver. E no meio daquele torvelinho reparam em Manuel Xavier, "o que dormia ao nosso lado nas tendas do quiosque, mas com quem nem nos damos assim tão bem", ele era o centro das atenções e falava para as televisões. Pasmados, a boca à banda, retraem-se. Rui procura os olhos do Xavier, Xavier repara, ignora-o num olhar, e continua a acaudilhar os jornalistas que fazem fila para o entrevistar. "E nós vazamos dali, claro", diz o João chateado, "não ia ficar ali a ouvi-lo a mentir". Diz agora o Rui e o seu olhar é mau: "Ele não encontrou nada, não salvou ninguém. É mentiroso. Roubou-nos a história. Roubou! E porquê?".
Manuel Xavier não foi mais visto na rua. "Soubemos que lhe deram uma casa em Cascais, no dia a seguir às televisões, depois apareceu com Marcelo, mentiu a toda a gente, mentiu ao Presidente, armou-se que era o salvador", dizem o Rui e o João. E isto sucedeu a 5 de novembro, faz hoje 50 dias, a história esteve sempre mal contada.

Mãe foi presa e confessou logo

A mãe do bebé é Sara Patrícia, o pai diz não saber quem é. Tem 22 anos, é cabo-verdiana, vivia sem abrigo, usava drogas, prostituía-se, escondeu de todos a gravidez, inclusive do namorado, o Sidnei, com quem dormia na tenda ao lado do Rui e do João. Foi detida pela Polícia Judiciária 72 horas depois. E confessou. Teve o bebé sozinha na rua, não lhe deu nome, não o quis, nunca o quis, deitou-o fora aflita no ecoponto na noite da desesperação. E continua presa em Tires, indiciada pela forma tentada de homicídio qualificado. O Supremo Tribunal negou-lhe a saída da prisão preventiva. Aguarda conclusão de investigação da PJ e acusação do Ministério Público.

O bebé agora está bem

O bebé esteve hospitalizado de 5 a 21 de novembro. Dia 22, a Santa da Misericórdia de Lisboa, cumprindo ordem do Tribunal de Menores, revelou: o bebé "teve alta da Maternidade Alfredo da Costa", "saiu clinicamente bem", "estará com família de acolhimento", "até que se decida o seu projeto de vida".
João Paulo Saraiva, 52 anos, que agora tem os olhos sempre espantados, mesmo se os fecha, continua na rua. Já mudou várias vezes de poiso. Esta semana estava incrustado no viaduto, numa tenda emparelhada com a de Arlindo, o pregador - Arlindo espichou no betão, acima das suas cabeças: "O fim está próximo. De que lado queres estar?". Rui Machado, 54 anos, também largou dali. Dormirá para lá de Xabregas, num condomínio abandonado, os olhos cerrados no frio, e sentia-se a ruir. Ontem terão comido os dois bacalhau. Hoje não sabem se haverá.



Por José Miguel Gaspar

terça-feira, 13 de junho de 2017

Chef Ljubomir Stanisic: o furacão visto à lupa





















Nas últimas semanas, Ljubomir Stanisic andou nas bocas do mundo como protagonista de «Pesadelo na Cozinha», o programa que bateu recordes de audiência e pôs toda a gente a pensar no que se passa nos bastidores dos restaurantes onde comemos habitualmente. Agora, chega de holofotes. O chef jugoslavo diz-se farto de fama, por isso recusa dar entrevistas. «Aquilo que me importa, aquilo de que quero realmente falar, é de comida.» Seja. Esta é a história de um jantar desafiante, do amor por uma horta e de uma conversa há muito adiada com um dos maiores críticos gastronómicos do país, Fernando Melo. Com menos gritaria, mas nem por isso menos espetacular.

«Vem aí o furacão.» É esta a frase que se ouve na cozinha do Six Senses Douro Valley, o luxuoso hotel em Lamego onde Ljubomir Stanisic, 38 anos, presta consultoria gastronómica há ano e meio. Uma semana por mês, sai de Lisboa (onde dirige os tachos dos seus dois restaurantes no Bairro Alto – o 100 Maneiras e o Bistro 100 Maneiras) e instala-se aqui, a criar pratos novos e a orientar uma equipa de 23 cozinheiros jovens, mas – nas suas palavras – talentosos.

«Sempre que ele chega, alguém avisa que o chef está na cozinha e pomo-nos todos em sentido», diz Luís Borlido, número dois de Ljubomir no Douro. «Ele é duro, sim, mas também é justo. Quando sente que tu dás, ele dá de volta. É por isso, e pela sua criatividade, que saí de um hotel onde era chef executivo e quis vir trabalhar com ele. O Ljubo é um inventor e vive para cozinhar.»

Depois de 13 semanas a liderar audiências televisivas com o programa Pesadelo na Cozinha, transmitido pela TVI aos domingos à noite, Ljubomir Stanisic está cansado de atenção mediática. A série terminou na semana passada [4 de junho], com o cozinheiro a angariar críticas e elogios depois de visitar vários restaurantes em colapso – e tentar torná-los funcionais. Há quem lhe agradeça não ter papas na língua e quem o acuse de prejudicar estabelecimentos, quem diga que é preciso mais de três dias para mudar uma casa e quem aponte que as suas medidas não são só válidas, são essenciais.

Ele encolhe os ombros: «Só farei uma segunda série se me pagarem um milhão de euros», diz meio a sério, meio a brincar. «Aquilo que me importa, aquilo de que realmente quero falar, é de cozinha.» Nas últimas semanas, choveram pedidos de entrevistas e Ljubo recusou-os todos. Só aceitou esta reportagem por dois motivos: é para falar de comida e é para fazê-lo com Fernando Melo, «o crítico gastronómico que mais respeito em Portugal.»

Então hoje há prova de fogo no Six Senses. O chef de origem jugoslava decidiu instalar uma chef’s table na cozinha e convidou Fernando Melo para um jantar especial de degustação. Ao todo, servirá 16 pratos, desde uma sandes de atum e foie gras em beterraba até um corneto de truta fumada, com passagem por um robalo com couve-flor e alperce. A estrela da noite será no entanto uma gelatina com ostra, berbigão e creme de alho, que fará Melo saltar de entusiasmo. «É isto que mostra todo o talento culinário do Ljubomir. Há camadas e camadas de sabor ali, há muito trabalho. É um prato que podia ser emoldurado.» O chef ouve e sorri enquanto prepara o próximo.

Numa chef’s table, há uma proximidade pouco habitual no mundo da restauração. O crítico e o cozinheiro, mais do que frente a frente, estão em convívio. Podem trocar impressões e avaliar reações em direto. Percebem-se melhor os pratos e percebem-se melhor os homens.

Em boa verdade, ambos se conhecem de ginjeira – não fossem vozes essenciais da alta-cozinha portuguesa. «Mas a verdade é que o Fernando Melo nunca escreveu uma crítica sobre o meu trabalho», diz o jugoslavo. O crítico anui, é verdade. «Temos sempre essa questão pendente. E no entanto é um de dois cozinheiros que me fizeram chorar.»

O outro foi Jordi Roca, chef pasteleiro do El Celler de Can Roca, apontado várias vezes como o melhor restaurante do mundo na lista divulgada anualmente pela Academia San Pellegrino, que um dia lhe serviu um pacote de doces com vinho do Porto em que tudo o que parecia não era. «Mas depois houve este jantar vínico que o Ljubo fez com vinho da Madeira em que conseguiu extrair o sabor perfeito no molho que apresentou com uns camarões. Era algo tão difícil e tão surpreendente que me emocionei e fui às lágrimas.»

A primeira vez que estiveram juntos, aliás, Melo percebeu imediatamente o potencial daquele rapaz. Ljubomir Stanisic tinha chegado há pouco tempo da antiga Jugoslávia e ainda mal falava português. Foi no início do milénio. Dois jovens chefs iam preparar um almoço na Quinta de Carvalhais, uma propriedade no Dão que é da Sogrape e onde se realizavam encontros vinícolas para especialistas. Atrás dos tachos estava ele e José Avillez, hoje à frente do Belcanto e de outros seis restaurantes e um de dois chefs portugueses com duas estrelas Michelin (o outro é Ricardo Costa, do The Yeatman e depois há mais três estrangeiros a trabalhar em Portugal com a mesma classificação – Dieter Koschina e Hans Neuner, ambos austríacos, e Benoît Sinthon, francês).

«Achávamos que íamos ter um fogão, mas acabámos a ter de ir buscar dois bicos de Camping Gaz para poder servir o menu» lembra Ljubo. E foi isso que impressionou Melo, a desenvoltura com que os rapazes resolveram o problema e serviram um almoço de grande nível. A parceria entre os dois parecia promissora.

Quando se fala de alta-gastronomia em Portugal é simplesmente injusto ignorar o passado comum que estes dois homens partilharam. Stanisic começou como copeiro na Fortaleza do Guincho, onde o português já dava cartas na cozinha. Em 2004, abriram ambos o 100 Maneiras em Cascais, mas a sociedade só haveria de durar oito meses. Tinham feitios incompatíveis e deixaram de se falar, mas Ljubo seguiu com o projeto mais quatro anos, até que a casa faliu. Foi então que se mudou para o Bairro Alto, onde viria a abrir dois novos restaurantes com o mesmo nome, em 2009 e 2010 – e esses sim, casos de sucesso.

«Às vezes sinto que foi a competição com Ljubomir que fez Avillez chegar tão longe», diz Fernando Melo quando a conversa vem à baila. «Stanisic tem um pensamento mais livre, enquanto Avillez é mais organizado.» E a verdade é que estão de pazes feitas, são chefs que se respeitam. «Nunca vi Ljubo imitar ninguém, o que ele faz é genuíno. Mas depois tem aquela caraterística de estar sempre a medir forças consigo próprio e não conseguir parar.»

É na verdade por isso que Fernando Melo nunca escreveu uma crítica sobre a cozinha de Ljubomir Stanisic. «Quando falo de um restaurante tenho de ser honesto com o leitor. E, apesar de ver no Ljubo uma das mais inteligentes filosofias gastronómicas em Portugal, acho que ele nunca mostrou a estabilidade que me permita garantir que alguém vai chegar à mesa e provar o que eu provei.»

Na alta-cozinha há a invenção, sim, mas depois há a durabilidade. E, aos olhos de um crítico, Stanisic é simplesmente demasiado inquieto. Assim que atinge um ponto de perfeição, vai procurar qualquer coisa nova, qualquer coisa diferente. O próprio aceita a ideia sem mágoa. «Eu não quero estrelas Michelin. Quero que as pessoas se divirtam no meu restaurante e vivam uma experiência intensa.» Se ele se entusiasma, então os outros também podem entusiasmar-se. É essa a droga de Ljubomir Stanisic, a de descobrir a novidade e depois a novidade a seguir. Seja um corte de carne, um produto exótico ou uma horta de aromáticas.

No final de um jantar de 16 pratos, ainda assim, Fernando Melo achou-se maravilhado. E, mesmo que tenha defendido durante horas a necessidade de consistência – e até repetição – numa cozinha, não resistiu ao repto de escrever finalmente sobre um jantar desafiante. Mesmo que tenha sido um acontecimento único e inimitável. É a primeira crítica, sim, e segue nestas páginas. Talvez seja verdade que isto foi apenas uma refeição. Mas então também é verdade que isto não foi apenas uma refeição. Esta noite houve um chef farto de holofotes a dizer que o importante é o que se passa nos pratos. E um crítico que se deixou levar na aventura. Porque é verdade: um jantar pode ser uma aventura. Este, pelo visto, foi.

Há buracos escavados no chão do jardim do Six Senses Douro Valley. É preciso perceber que tudo neste hotel obedece a um rigor imaculado, e aquelas escavações são um curioso manifesto de desordem. Foi Ljubomir que os mandou abrir. Dentro da terra fermentam vegetais durante semanas, até conseguir pontos perfeitos de maturação.

«Ao longo de muitos anos rejeitei tudo o que fosse vegetariano e agora ando entusiasmado em cozinhar sem me preocupar com a primazia das proteínas.» O furacão tem andado a colocar dentro da terra frascos com couves, e depois despeja-lhes gengibre, lima, quatro tipos diferentes de malaguetas. Uma colherada daquela fermentação é um soco no estômago. E, quando o dá a provar, parece mais contente que Rocky Balboa depois de vencer um combate de boxe por knock-out a Ivan Drago.

Este ano e meio do Douro tem-lhe servido para muitas experiências. Há peixes de rio e caça de grande qualidade, e anda a trabalhá-los afincadamente nos dois restaurantes do hotel: o Vale Abraão, com menu à carta, e o Barbecue, onde serve carnes biológicas. Mas o que o deixa realmente empolgado é a enorme horta e o pomar de citrinos que ocupam uma parte significativa dos terrenos do hotel. São áreas inteiras de tomilho e alfazema, alcachofras e amores-perfeitos. Isto para não falar de couves e batatas e cenouras e abóboras que produz ali mesmo.

«Os sabores são tão incríveis que decidi abrir no resort um terceiro restaurante, este totalmente vegetariano.» Há uma semana, no Six Senses Douro Valley, abriu então portas o Terroir, onde as experiências de alta-cozinha não passam pela carne nem pelo peixe. Nessa carta, há por exemplo um falso cheesecake: pão na base, um creme espesso de queijo de cabra e tomate em vez de compota. Serviu-o como se fosse um bolo, até acendeu uma vela e cantou os parabéns. E depois tirou o tapete a quem pensava que ia adoçar a boca.

Ljubo diz sentir nos vegetais o mesmo desafio que os tempos de guerra na Jugoslávia representaram para ele em termos alimentares. «Durante um ano, só tínhamos batatas para comer. E então vi como a minha mãe tentava inventar todos os dias algo de novo e diferente, e às vezes conseguia fazer coisas deliciosas usando apenas ervas.» Isso fê-lo ter até hoje um respeito tremendo pela gastronomia mais pobre, seja ela portuguesa ou jugoslava.

Dá o exemplo da comida alentejana. Pão, azeite e ervas serviram para criar uma diversidade de pratos verdadeiramente rica, e isso impressiona-o. No verão, gosta de viajar para as ilhas da ria Formosa e cozinhar com os pescadores. «Aprende-se muito com esses saberes antigos das pessoas que têm poucos recursos. E, no dia que deixar de aprender, deixarei de ser um bom cozinheiro.»

Quando terminou as gravações do programa Papa-Quilómetros, decidiu fazer-se à estrada e testar-se a si mesmo. Entregou um currículo falso para poder estagiar no Noma, em Copenhaga, que foi várias vezes cotado como melhor restaurante do mundo. Se tivesse apresentado as suas verdadeiras credenciais nunca o teriam deixado entrar – era simplesmente demasiado competente.

E mesmo nestes dias durienses, fez-se acompanhar por um chef mais jovem – Rodrigo Castelo, que lidera a cozinha da Taberna Ó Balcão, em Santarém, e que conheceu durante as filmagens de Pesadelo na Cozinha. Precisava de algumas carnes para usar num dos restaurantes que queria salvar e Rodrigo ajudou-o a encontrar esses produtos. «Acredito que ele vai ser um dos rostos de uma geração nova e brilhante e por isso quero tê-lo aqui comigo, a partilhar o processo criativo», diz Stanisic. «Gosto sempre de trazer alguém comigo para o Douro, passar o dia na cozinha, ter ideias novas e inventar.»

Ljubo tinha 18 anos quando chegou a Portugal. A guerra tinha estalado quatro anos antes na cidade natal, Sarajevo, e à chegada não imaginava tornar-se referência gastronómica. «Fui viver para a Reboleira [Amadora] e lembro-me de sentir o cheiro de bacalhau a cozer nas escadas do prédio e achar aquilo insuportável.» Mas começou a provar a comida e deixou-se levar. Um peixe estupendo, ervas e mais ervas, carne de qualidade.

«Estamos na fase mais interessante da cozinha portuguesa. Temos chefs que saíram do país, foram ver o que de melhor se faz no mundo e percebem que há nos nossos produtos a qualidade necessária para levar a nossa gastronomia a um patamar mais elevado.» Fala dos nossos produtos, da nossa gastronomia.

«Mas eu sinto-me português», diz o chef, que tem dois filhos portugueses, de mães portuguesas. «Quando Portugal jogou os play-offs de apuramento para o Mundial de 2010 e o Euro 2012 [contra a Bósnia e Herzegovina] torci sempre pela Seleção das Quinas.»

Volte-se umas horas atrás no tempo, à tarde que antecipou o jantar com Fernando Melo. Sobre o balcão da cozinha do Six Senses o chef dispôs uma série de camarões, lagostins e carabineiros. E há uns bons vinte minutos que está a olhar para aqueles crustáceos. Estamos no Douro e aqueles produtos vêm seguramente de longe, mas é muito provável que Ljubomir queira servir marisco porque está a preparar a abertura de um novo restaurante na Comporta.

É provavelmente desta inquietação que o crítico gastronómico fala – a de um homem que em terra pensa no mar. Mas quem olha para Ljubo agora, só vê serenidade. «Estava a estudar o produto, ver o que ele me dizia que queria que lhe fizesse.» Acabaria por servi-lo quase cru, sobre pedras quentes, deixando a cada comensal a opção de escolher o ponto de cozedura. E, assim que percebeu o que queria fazer, virou-se para o staff da cozinha e gritou: «Vamos ao trabalho, não há tempo a perder.» O furacão voltou.

Fernando Melo, o crítico

É um dos mais importantes críticos gastronómicos do país e ouvi-lo falar de texturas e sabores não é nada menos que uma lição de sabedoria. Escreve sobre comida e vinhos desde 1995, depois de ter passado quatro anos a publicar artigos sobre ciência e tecnologia. A paixão pelas aguardentes levá-lo-ia aos vinhos, e daí aos pratos. Professor universitário, doutorado em Física, coordenou as operações em terra da equipa que lançou para o espaço o Po Sat, o primeiro satélite português. Hoje, escreve crítica gastronómica e vinícola para as revistas Evasões (publicada à sexta-feira com o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias) e Vinho – Grandes Escolhas, colaborando regularmente com a Notícias Magazine e a Epicur. Até agora, nunca tinha avaliado o trabalho de Ljubomir Stanisic.

E AGORA A CRÍTICA
NA MESA DO CHEF LJUBOMIR STANISIC, A RIBALTA É NOSSA
Por FERNANDO MELO

O à-vontade com que se movimenta, a liberdade que transmite e a forma única com que nos alimenta e ao mesmo tempo dá prazer, é espetáculo que só está ao alcance de quem priva no mesmo chão com o chef Stanisic.

Em primeiro lugar, gosta de comer, dá-lhe prazer, depois come a comida que faz, defende cada prato como a sua dama e explica. Surpreendeu-me o quanto enveredou pela sustentabilidade e o fervor militante com que aplica a lógica do produto inteiro, tão portuguesa e tão marítima.

Temos caldos, alguns de dupla fervura à maneira da bisque e uma concentração de sabor que só quem vive no limiar consegue de forma assim sistemática. Nas sementes a linhaça pontifica, consistências e envolvências diversas – de cabeça conto três – feita alternância crocante mas também a negociar lugares no pódio do sabor.

A competência central de Ljubo é a simplicidade que consegue mostrar em pratos da maior complexidade. O prato da noite foi a gelatina com ostra, berbigão e creme de alho, um cúmulo genial de trabalho, tempo e técnica. Com a colher explorava-se em profundidade e não havia uma investida igual à anterior. Brilhante.


Apresentou uma cavala – proteína que lhe é particularmente querida – curada, com sopa da mesma, de novo no registo simples que dá muito que falar. Emoção total. Gostei das pedras de xisto quentes para servir a cascaria, nuns casos para manter, noutros para afinar a gosto. A vénia para o robalo, couve-flor e alperce, a rendição para o leite queimado com beterraba. E os parabéns às harmonizações com vinho, inteiramente conseguidas, igualmente impossíveis.

Texto Ricardo J. Rodrigues

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

As muitas vidas de Isabel Batata Doce























Em 1965, em Angola, um grupo de soldados portugueses encontrou uma menina de dois anos no meio do mato. Acolheram-na no quartel e levaram-na depois para Portugal, onde cresceu sob o olhar do regime e o apoio dos militares. Esta é a extraordinária história de Isabel Batata Doce, da sua demanda pelo passado e de como conseguiu construir, no meio da incerteza, uma improvável felicidade.

O Batalhão 525 chegou a Angola a 27 de julho de 1963. Era constituído essencialmente por rapazes do Minho, que passaram o primeiro ano na zona quente dos Dembos e o segundo em Catete, 60 quilómetros a sudeste de Luanda. Aqui a presença portuguesa era cimento, somava séculos de colonização. «À primeira vista parecia muito mais calmo», conta agora Antonino Araújo, 75 anos, que tantas vezes patrulhou o terreno. «Mas na verdade aquela era uma zona pantanosa e de vegetação densa, onde os guerrilheiros atacavam quando menos se esperava. Era muito perigoso.» A guerra, que começara em fevereiro de 1961 em Luanda, e nos meses seguintes se tinha intensificado no norte do país, espalhava-se agora à região centro, terras quimbundas. Foi precisamente aí que as quatro companhias do 525 estacionaram – aquarteladas ao longo da estrada para Salazar, atual N'dalatando, capital do Cuanza Norte.
A Companhia 522, com mais de uma centena de homens, estava em Barraca, a 50 quilómetros do comando de Catete. «Uma manhã pediram-me para fazer o patrulhamento da zona inimiga, era alferes e liderava um pelotão com uma dúzia de soldados», lembra Antonino. Avançaram sem medo até à picada que abria caminho para a Fazenda Alegria, uma plantação de algodão no meio do lamaçal. Depois, atravessaram o rio Zenza, infestado de jacarés. A partir daí, o trilho cumpria-se com perspetiva de fogo. Ouvissem um restolhar nas árvores e os homens carregavam-lhe chumbo.
«Estávamos em terreno perigoso, tivemos de rastejar uma parte do caminho e fazer outra de cócoras», e Antonino diz que isso era o pão nosso de cada dia em terrenos ocupados pela guerrilha. «Não podíamos usar as catanas para abrir passagem, isso fazia demasiado barulho.» Então avançavam lentos, a conquistar arranhões. Duas horas depois, desembocaram numa clareira.
Antonino reparou logo numa mulher negra, de seios fartos, que carregava uma criança nas costas e outra nas mãos. Assim que a mulher viu os brancos, desatou a correr para o mato mais denso. O alferes ainda lhe gritou «não fujas que eu não te faço mal», mas ela sabia estar em zona de tiro aberto. Fugiu. E esta história começa aqui. Ao subir uma colina, o lenço soltou-se e o bebé que a mulher trazia no dorso caiu. A mulher prosseguiu a fuga, com a outra pela mão. Mas deixou um problema para os soldados. Um problema que, deitado no capim, chorava.
Perseguir a mulher era perda de tempo, já levava avanço na fuga e conhecia o terreno. Por isso os homens olharam para Antonino, à procura de direções. O alferes pegou na criança, nua, e enrolou-a no pano de onde tinha caído. O bebé calou-se logo e ficou, de olhos abertos, a observar os soldados, sem medo algum. Tinha uma cicatriz na virilha e várias feridas na cabeça, mas de resto parecia estar bem. Deixá-lo ali, à mercê dos animais, seria um crime. Antonino já vira demasiadas desgraças em Angola, esta não seria uma delas. «Levamo-la connosco», anunciou. Os outros respiraram de alívio. As guerras estão cheias de histórias assim, raios de dignidade no meio da escuridão.
Até Barraca os homens revezaram-se a transportar a criança. Mal chegaram, anunciaram o achado. «Se ficarmos com ela, alguém a tem de vir buscá-la», justificou-se perante os superiores. Assim poderiam sacar informações à mãe da criança, afinal aquela era uma zona onde a população apoiava o MPLA. «Se a mulher tinha fugido, era porque alguma coisa tinha a esconder», reflete Antonino, 50 anos depois. Contactaram o comando em Catete. E Manoel Junqueira, comandante do batalhão, perguntou pelo rádio: «É macho ou fêmea?» Era uma rapariga. «Então que venha para aqui», ordenou. A menina foi transportada de jipe para a sede do batalhão, a mais de 50 quilómetros do local onde os soldados a tinham resgatado ao capim.

NO DIA 29 DE SETEMBRO DE 2015, cinquenta anos depois deste episódio, uma mulher entrou no arquivo do Diário de Notícias para procurar um jornal antigo. Nos andares abaixo do chão da sede do DN, há um piso que encerra 150 anos de história da imprensa portuguesa, e uma caixa forte com as publicações mais antigas e valiosas, incluindo uma coleção de desenhos originais de Stuart de Carvalhais. Numa sala maior, dividida em dois pisos ocupados com prateleiras que vão do chão ao teto – e são paredes que medem seis metros –, está guardado o acervo do jornal. Todas as páginas de todas as edições, encadernadas em grossos dossiers cinzentos, um por cada mês de cada ano, ao longo de século e meio. Foi aí que se procurou aquilo que Isabel Jacinto pedia. A pesquisa durou um mês.
Os arquivistas acabaram por encontrar o jornal na prateleira A da estante 3. Em novembro de 1965, no dia 1, a primeira página do Diário de Notícias mostrava a fotografia de uma criança de uns três anos, rodeada de militares e religiosos. E este título: «Promessa cumprida: Os soldados encontraram a pretinha no mato e baptizaram-na no santuário do Sameiro.» Contactaram Isabel, que voltou ao edifício e pediu logo uma impressão. Simões Dias, diretor do arquivo, forneceu-lhe todas as informações. Depois ligou para o quinto piso, onde fica a redação da Notícias Magazine: «Acho que tenho aqui uma história para vocês». Daí a uns dias haveria um almoço do batalhão que a encontrara em Angola e a trouxe para Portugal, para celebrar os 50 anos do regresso. Isabel queria levar o jornal para mostrar aos antigos soldados. Mas também queria fazer perguntas, tentar reconstruir a memória do que não se lembra. «Eu sei tão pouco, e gostava tanto de saber mais.»
A história que Isabel sabe começou naquele momento inicial, quando uma mulher a deixou cair numa clareira em Angola e os soldados portugueses a apanharam. O resto, na verdade, é terreno pantanoso. Os dados pessoais são o primeiro indício de barafunda: acredita que tem 53 anos, mas não tem certeza. «Fui batizada em Braga e foi aí que escolheram a minha data de nascimento», explica. Dia de Nossa Senhora, 13 de maio de 1962. «Quando me encontraram, acharam que devia ter uns dois anos. Mas, vá lá, pelo menos não me chamaram Fátima». Não perdeu o humor. Apelidos, tem dois, um para cada vida. Para os soldados e a família que a acolheu em Portugal ela é Isabel Batata Doce, porque em Angola passava dias a comer o tubérculo que cresce em Angola. No bilhete de identidade é Isabel Manuel Jacinto, filha de Manuel Jacinto Diogo e Eva Manuel Adão – os pais biológicos que não se lembra de ter conhecido.
De há uns anos para cá, Isabel anda a tentar perceber o passado. É isso que faz, também, no quartel da serra do Pilar, em Gaia. Hoje é dia de celebrar 50 anos do regresso a salvo, há uma missa, um almoço de convívio e discursos que recuperam cinco décadas de saudade. Uma centena de homens aderiu ao encontro e Isabel conhece uma boa parte deles. A mulher já tinha participado no almoço dos 25 anos, e também num encontro na capital com os poucos militares – sobretudo oficiais – que viviam em Lisboa. Ao longo do dia, Isabel há de ser abraçada por duas boas dezenas desses veteranos, sobretudo os que estiveram em Catete. «Olha a Batata Doce», e muitas lágrimas. Ela não reconhece a maior parte dos rostos, era demasiado pequena para guardá-los na memória. Mas entrega-se aos abraços, há de dizer mais tarde que aqueles homens foram a sua família.
Toda a gente tem, no entanto, uma história para contar a Isabel. «Tantas vezes que brincavas comigo.» «Lembras-te de queres andar às minhas cavalitas?» «E quando me vinhas pedir batata doce?» Sobram recordações de afetos, mas faltam os factos – e são esses que Isabel quer saber. Nenhum daqueles homens tem sequer certeza da data em que Isabel foi apanhada. Contam-lhe outras coisas, mas isso ninguém consegue confirmar. A resposta está no Museu Militar, em Santa Apolónia. O Arquivo Histórico Militar do Exército, que guarda as ordens de serviço do Batalhão 525, diz que em janeiro de 1965, «foi capturada uma criança às tropas inimigas pela Companhia 522.» É a única captura infantil em mais de dois anos de comissão.

VISITAÇÃO TEIXEIRA DE CARVALHO TINHA CHEGADO POUCO ANTES A CATETE para se instalar com o marido no quartel. Marcelino era oficial miliciano, dirigia o setor de informações, e isso dava-lhe alguns privilégios como o de poder mandar vir da metrópole a mulher e a filha que tinha dois anos e se chamava Luísa. Tinham casa numa fazenda próxima, onde não corriam riscos de maior. «Todos os dias íamos de manhã para a messe, era lá que almoçávamos e jantávamos, e tornávamos antes de a noite cair.» Um dia, o Major Fiúza Álvares, segundo no comando do Batalhão, chegou-se ao pé das mulheres dos oficiais e as suas crianças que por ali andavam e anunciou: «Minhas senhoras, trago aqui um presente para vocês». Embrulhada num pano, vinha uma bébe negra.
A menina «estava toda suja e arranhada e trazia uns cordões presos aos pés, feitiços de proteção quimbundos», lembra Visitação que lhe deu os primeiros cuidados. Disse aos soldados que fossem dando banho à criança, e foi a casa buscar um vestido da filha. A criança não chorava, antes olhava com curiosidade para o admirável mundo novo. Tendas enormes, muitas. Movimento constante, ruídos de máquinas e metal, uma canção diferente do mato. «Nunca a ouvi perguntar pelos pais», diz Visitação, que tem uma teoria para o facto: o quartel, cheio de gente que lhe pegava ao colo e rodopiava pelo ar, era um tremendo parque de diversões.
Como seria de esperar, Luísa, a filha de Visitação, tornou-se a melhor amiga de Isabel Batata Doce. Passavam os dias juntas, tinham supostamente a mesma idade e decididamente as mesmas brincadeiras. «E quem é que a obrigava a usar cuecas ou sapatos?», recorda Visitação. «Nunca consegui convencê-la e não me lembro de os querer usar até chegar a Portugal.» Hoje, Luísa é madrinha de Joana, filha da amiga de infância. Há uma foto tirada em Catete há 50 anos que as duas repetem, agora, em Leça de Palmeira, onde vivem os Teixeira de Carvalho, e onde Isabel vai depois do encontro com os soldados. As duas mulheres são adultas e atualizam conversa noite dentro. Durante a infância, Isabel haveria de passar muitas vezes férias com a família, e esta é verdadeiramente a família de quem nunca se afastou. Ao longo de 50 anos, nunca perderam o contacto.
Apesar da amizade com a família de Luisa, foi na camarata das transmissões, com Manuel Cândido Ferreira, que Isabel ficou a morar em Catete. O aquartelamento em tijolo gozava de melhores condições que o resto das tropas. «Sabe, ela foi uma bênção para nós», diz o homem, comovido, ao recordar esse momento no encontro da serra do Pilar. «No meio da escuridão da guerra, tínhamos ali uma criança para tomar conta. Isso era um raio de luz, fazia-nos sentir outra vez humanos.»
A maior parte daqueles rapazes nunca tinha saído sequer da sua aldeia. Desembarcavam numa Angola em guerra e África era um outro mundo, estranho e hostil. Tudo ali lhes pedia dureza, menos Isabel. E eles retorquiam com os melhores cuidados que conseguiam oferecer. A menina dormia na cama de baixo do beliche, não fosse cair ao chão. De manhã Manuel lavava-a e novamente ao fim do dia. «Às vezes rodávamos entre nós quem a levava à messe para comer. Mas uma vez vi um soldado a dar-lhe vinho. Encostei-o a um canto e ia dar-lhe uma sova valente, só que os oficiais viram-me a ser agressivo e puseram-me de castigo.» A partir desse dia, no entanto, nunca a criança tornou a fazer uma refeição sem a vigilância de Manuel.

NO FINAL DE MARÇO, OS SOLDADOS CAPTURARAM JOÃO MANUEL JACINTO, um quimbundo que se acreditava ser do MPLA. O homem viu a menina negra, que no quartel dos brancos dava nas vistas, e disse: «É minha sobrinha». Manoel Junqueira, o comandante, duvidou: «E como é que tu provas isso?» O homem respondeu que não podia contactar o pai da criança, porque ele andava no mato. Mas podia falar com a avó, que vivia num musseque em Luanda. O comandante pediu então a Marcelino Teixeira de Carvalho que confirmasse a veracidade dos factos. «Meti-me com ele num jipe e fomos direitos a casa da senhora», conta o comandante da unidade de informações. «Ela confirmou o que o João dizia, que os pais dela eram Manuel Jacinto Diogo e Eva Manuel Adão.»
A partir desse momento, Isabel Batata Doce passava a ser Isabel Manuel Jacinto, com filiação certificada. João, como acontecia com muitos prisioneiros de guerra apanhados nas aldeias por suspeitas de colaborarem com a guerrilha, ficou a viver no quartel. Dava jeito aos portugueses ter gente que traduzisse para quimbundo as ordens do comando. O tio via à distância o crescimento, era o soldado Manuel Cândido quem continuava a tratar da menina. De dia, andava por ali, brincava com os filhos dos oficiais. À noite recolhia aos dormitórios da equipa de transmissões.
Em junho, chegou Margarida, mulher do comandante. Era pessoa de trabalho, em Lisboa fabricava terços para vender nas lojas da Baixa e, à chegada a Angola, descobrira que podia fazer bom negócio com colares de missangas. Isabel começou a passar os dias junto à senhora, ajudando com a destreza que a idade permitia. «Era fascinada pelas cores e pelos enfeites», lembra Visitação. «E a Margarida Junqueira afeiçoou-se a ela.» Quando a mulher voltou à metrópole em agosto – é provável que o tenha feito porque os filhos (Margarida, Gonçalo e Isabel) estavam prestes a começar a escola – já a decisão de levar a pequena africana lhe pairaria na cabeça.
A comissão aproximava-se do fim, o batalhão sairia de Catete em finais de setembro para embarcar no Vera Cruz, que atracaria em Lisboa a 6 de outubro de 1965. Manoel Junqueira perguntou ao quimbundo João se podia levar a criança com ele. Prometeu tomar conta dela. O tio de Isabel disse que sim, longe da guerra a miúda teria uma vida melhor. O comandante de batalhão teria de acompanhar os seus homens, uma viagem longa de barco era tudo menos indicada para uma gaiata daquela idade. O problema ficou resolvido quando o alferes Manuel Martins Duarte, comandante do pelotão de transmissões, anunciou o regresso a casa antecipado, de avião. «Levas-me a miúda?», perguntou-lhe o superior. E ele levou. Os documentos não seriam problema, bastaria uma carta de Junqueira. Contas feitas, o 525 voltaria à metrópole com menos sete homens, mas mais uma criança.

MÊS E MEIO DEPOIS DA CHEGADA, o batalhão reuniu-se no santuário do Sameiro, em Braga. O abade de Singeverga, Gabriel de Sousa, presidiu à missa. Estavam reunidas altas patentes oficiais, religiosas e militares na eucaristia. O resto da história conta-a o Diário de Notícias: «Como fecho da cerimónia litúrgica procedeu-se ao batismo de uma criança que os soldados, em pleno combate, encontraram abandonada na selva, de olhos vivos, linda e sorridente, indiferente ao perigo que a rodeava, como se mãos invisíveis a tivessem ali colocado para dizer aos homens para se aproximarem mais de Deus. A pequenita, que recebeu o nome de Isabel, vive em Lisboa em casa do próprio comandante do batalhão, o tenente-coronel Manoel Junqueira, cheia de carinho e confortos, pois este ilustre oficial tomou a seu cargo a educação da linda pretinha.»
Isabel tornara-se um trunfo de propaganda, o regime tentava colher os louros da generosidade dos soldados para mostrar a sua própria bondade em Áfica. Manuel Cândido Ferreira, o soldado que cuidara de Isabel em Catete, leu o artigo sobre o seu batismo e leu outro na revista Palavra, anos depois, que mostrava a «pretinha que os soldados portugueses salvaram» a dar uma volta pela praça de touros de Cascais ao colo do cavaleiro José Mestre Baptista. E irritou-se. «Afinal, a minha Isabelinha estava a ser usada para mostrar a suposta bondade dos portugueses para com os africanos. Isso mexia-me com as entranhas.»
Manuel foi quem ficou mais ligado à menina. «Eu sempre tinha pensado trazê-la comigo, mas quando percebi que o comandante do batalhão a ia trazer, não tive coragem de me impor», recorda. Isabel, no entanto, recorda a infância como um tempo verdadeiramente feliz. Lembra-se vagamente de aparecer nos jornais, mas isso não era o importante para ela. Repete uma e outra vez que era tratada como igual aos outros três filhos na casa dos Junqueira, para onde veio viver. Lembra-se de ter o seu próprio quarto no bairro de São Miguel, em Alvalade, Lisboa. Lembra-se de ir buscar o tenente-coronel, e depois coronel, ao aeroporto e ao cais Rocha Conde de Óbidos, sempre que este terminava mais uma comissão em Angola. Lembra-se dos lanches de família todos os domingos no hotel Ritz e dos fins de semana na casa de praia em Cascais. Lembra-se de ele a tratar por Batata Doce e prometer-lhe uma viagem a Catete no dia em que fizesse 18 anos, para conhecer a família de sangue. «Quem são os meus pais?», perguntou-lhe uma única vez. «A seu tempo saberás.» Esse tempo, no entanto, acabou por nunca vir. «Para mim a minha família eram eles, estava bem e não queria saber de nada. Só anos mais tarde é que me preocupei com o passado.» Manoel Junqueira morreu no final dos anos noventa. Os três filhos – Gonçalo, Margarida e Isabel – estão vivos. Foram contactados, mas não quiseram falar para esta reportagem.
Isabel nunca fala de se ter sentido diferente. Mas, a chegada de uma menina negra a uma família de classe média, em Lisboa, deu nas vistas. É o que conta Maria Emília Machado, que hoje tem 74 anos, e era empregada interna, uma espécie de governanta que cuidava dos tachos, da prole e das limpezas da casa dos Junqueira. «Eu antes trabalhava no prédio em frente, percebi logo que tinha chegado uma criança de África. Era a única do bairro inteiro.» Mal se mudou para a casa, Maria Emília tornou-se amiga de Isabel, que acabava por brincar com a sua situação. «Entrava-me cozinha dentro a fazer voz grossa. Dizia: chegou a escuridão, posso entrar? E ríamos que nem umas perdidas.»
À noite, a menina saía do seu quarto, que era contíguo à cozinha, e vinha enfiar-se na cama da empregada. Passava horas de sua roda a aprender a cozinhar – e isso acabaria por revelar-lhe o dom. Aos cinco anos, Isabel foi para a escola, e aí os hábitos mudaram. Dos cinco aos 12 estudou no colégio do Alvor, em Paiões, Sintra. Era aluna interna, só vinha a casa aos fins de semana. Terminado o ciclo preparatório mudou-se para uma escola mais perto de casa, as Filhas de Maria Imaculada, no bairro de São Miguel. Mais quatro anos de internato. Ao fim de semana vinha a casa, muitas vezes ia para a casa de Maria Emília, as férias fazia-as com a família que conhecera em Angola, os Teixeira de Carvalho. «O que ela queria era liberdade, andar ao ar livre.»

MARGARIDA JUNQUEIRA MORREU QUANDO ISABEL TINHA 14 ANOS, estava a miúda na adolescência. Uma adolescência que lhe trocou as voltas. Começou a pensar em si, em quem era, na vida que tinha. Por essa altura já não gostava de ser Batata Doce, sonhava com uma identidade própria. Apesar de se sentir uma dos Junqueira, o desaparecimento da mãe adotiva fê-la pensar que estava na altura de se tornar uma mulher independente. Arranjou os primeiros trabalhos no Porto, na mesma irmandade de freiras onde tinha estudado. Primeiro teve o apoio do coronel, depois zangaram-se e ela ficou por sua conta. Veio viver para Lisboa. O capitão Altinino Gonçalves, que tinha sido oficial de operações e informações em Angola, acolheu-a em casa e arranjou-lhe trabalho na Portugal Telecom. Os militares ainda a amparar-lhe as quedas, tantos anos depois de a trazerem do capim.

Aos poucos, foi-se afastando da família que a tinha acolhido. Ainda tinha a mesma adoração por Gonçalo, a mesma cumplicidade com Margarida e Isabel, o mesmo respeito pelo coronel. «Mas sentia que estava na altura de me fazer à vida. E, com os anos, fomos perdendo o contacto.» Dividiu casa com uma amiga, tomou conta de crianças e idosos, e depois começou a fazer comida para vender fora. Salgados e tartes, que os restaurantes compravam. Aos 26 anos trabalhava durante o dia num pronto a comer em Santos, cumpria o turno da noite numa hamburgueria do Rossio e estendia a massa dos rissóis aos fins de semana. E foi nessa altura que conheceu João Castanheira, empregado de mesa de um restaurante para onde fazia tartes de maçã. Começaram a namorar. Passado um ano viviam juntos, passado outro tiveram o primeiro bebé, Joana. Francisco nasceu dois anos depois. Tem agora 22.
Os miúdos sempre estranharam ter uma mãe preta que tinha uma família branca. Os Junqueira não conheceram, mas havia «tios» com quem a mãe se continuava a dar: Visitação, Luísa e Marcelino Teixeira de Carvalho. Foram eles, os filhos, que a instigaram a descobrir as suas raízes. Até porque, no meio em que se movem, ser preto é fixe. Francisco fala crioulo como os amigos cabo-verdianos do bairro, mesmo que nenhum deles tenha nascido nas ilhas. Ouve kizomba e o rap que a segunda geração de africanos anda a produzir nos subúrbios de Lisboa. Joana diz-se africana em tudo, e com orgulho. «Um dia, a psicóloga da escola perguntou-me pelas raízes e eu disse que não sabia quem era a família da minha mãe», conta Joana. «Ela disse que era uma vergonha não saber. Isso afetou-me muito.»
Isabel começou a querer saber mais. Retomou contactos com as famílias dos oficiais que cuidaram dela, através dos amigos do Porto. Foi aí que começou a participar nos encontros dos antigos combatentes, a recolher fotografias, a disparar perguntas. Tinha estabilizado a vida e agora era tempo de ir procurar o passado. A vida de resto, corria suave. A João e Isabel nunca faltou trabalho, tomavam conta das concessões dos bares de quase todos os teatros da capital. Há seis anos, abriram um restaurante entre Santos e a Lapa. É o tesouro da família, pequeno mas confortável. E chama-se, sem pruridos, Batata Doce. O passado de Isabel está todo no nome do seu restaurante, e foi isso que a fez reencontrá-lo.

HÁ TRÊS MESES, ISABEL RECEBEU UM TELEFONEMA DE ROBERTO PAULO. Angolano, viera passar férias em Portugal. Tinha estudado em Lisboa e ainda aqui tinha família – e Branca Jacinto, a sua sogra, encarregara-o de uma missão: encontrar a irmã que os portugueses tinham levado. Quando chegou a Lisboa, sentou-se ao computador, abriu o Facebook e escreveu o nome que a mulher lhe tinha dado. Nos resultados, um restaurante, Batata Doce. «Caramba, batata doce é África», pensou. Ligou logo.
Isabel duvidou da história do rapaz que se dizia seu sobrinho, estava vacinada. Poucos meses antes, tinha recebido um telefonema de alguém que procurava outra Isabel que não ela. Mas, que raio, agora batia tudo certo na história do rapaz. Uma mulher com uma criança que caiu das costas e outra pela mão, a fugir aos soldados. Um tio preso em Catete, que deu autorização de saída. Uma cicatriz na virilha. E o nome do homem que a tinha levado, Manoel Junqueira. «Só aí ela acreditou, e depois ficou muito emocionada» conta Roberto ao telefone, a partir de Luanda.
Isabel saltava, andava de um lado para o outro da cozinha, as lágrimas corriam livres. «Tantos anos, pá, tantos anos.» Convidou o sobrinho para o almoço. Ele contou o que sabia, ela bebeu cada palavra. A mãe tinha morrido muito nova, pouco depois. O pai era um homem bom, nunca desistira de procurar a filha. Manuel Jacinto Diogo vivia da agricultura, mas apoiara os independentistas durante a Guerra Colonial e tornara-se régulo da aldeia de Lala, onde vivia. Um dia apresentara o seu caso a Mendes de Carvalho, um historiador de Catete. Houve pesquisas, mas nenhuma descoberta. Segundo Roberto, o pai de Isabel morreu em 2005. Deixava cinco filhos vivos. O sobrinho garantiu que Isabel era centro de conversa, sempre que a família se encontrava. E ela de peito apertado. «Tantos anos à procura, pá.»
Depois do encontro com Roberto, Conceição Pedro, uma assistente social angolana, em conversa com a filha de Isabel, Joana, no bar do Teatro Nacional D. Maria II, soube a história, comoveu-se, disse que queria ajudar. Falou ao telefone com Isabel, «pede lá a morada da tua família ao Roberto». Dias depois, embarcou para Luanda. Pediu a um motorista que a levasse ao destino, e ele assim fez. Bateu à porta, disse ao que vinha, foi recebida com abraços. E depois ligou a Isabel. Ao seu lado tinha Esperança, a irmã. Era ela a outra criança, a que estava ao colo da mãe, naquele dia em que Isabel caíra. Depois de 50 anos, e mesmo que não se conhecessem, mesmo que nunca tivessem falado antes, descarrilaram no pranto de um reencontro de sangue. «Aiiiiii. Aiiiii. Estás viva. Ai, mana, ai.»

Por Ricardo J. Rodrigues