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segunda-feira, 30 de março de 2020

Sem-abrigo: Porto reergue a teia que ruiu


























Celestino de Jesus acaba de ser recolhido pela carrinha branca de vidros escuros. Traz o saco dos parcos pertences, a cara fechada e uma expressão ilegível nos olhos que pode ser receio ou só muito cansaço. Tem 56 anos, é do grupo de risco: VIH positivo, cancro no pulmão, sem emprego, sem-abrigo.

Foi recolhido nos primeiros números da longa avenida em obras Fernão de Magalhães, no Porto, era quinta-feira, 21 horas, e seguiu com os dois técnicos de camisas vermelhas da Ordem de Malta que operam as duas novas rotas de recolha noturna, uma na Baixa, outra na Boavista, definidas pela Câmara do Porto e a rede social dos Núcleos de Planeamento e Intervenção Sem-Abrigo (NPISA).
Enluvado e mascarado, Celestino segue na carrinha e vai entrar, o trajeto é curto, nem cinco minutos, no antigo Hospital Joaquim Urbano que é desde há uma semana o Centro de Acolhimento de Emergência Covid-19 para pessoas em situação de sem-abrigo. Fará o teste, ficará em quarentena. Tem direito a uma cama, roupa lavada, um kit de higiene, acesso a duche e três refeições quentes por dia enquanto durar a permanência no local. Até ali, dormia nas ruínas da Escola do Cerco, um lugar ermo em decomposição, usado por consumidores de drogas e pessoas sem teto onde grassa o lixo, o frio, a escuridão e até o betão está em putrefação.
Os 140 sem-abrigo crónicos que há anos habitam nas ruas do Porto já são só 100, apurou o JN. Há 40 instalados no Centro de Acolhimento que abriu justamente 40 camas extra, lotadas desde sexta-feira. Há mais 10 camas no Hospital Conde Ferreira, mas permanecem vazias; são para infetados com coronavírus e não há ainda casos reportados nesta população.

100 recusam sair da rua

Os outros 100 resilientes resistem, recusam a quarentena, não trocam a independência da rua e, com o confinamento da população geral, emergem com cada vez mais nitidez - como Heitor, 45 anos, ex-recluso, que ocupa uma das soleiras impecavelmente limpas do Teatro S. João; como José António, 73 anos, alcoólico que prefere o frio chão de cartão das Antas, atrás da Loja do Cidadão; como Augusto, 66, que continua nas trevas húmidas do Cerco a vociferar liberdade; como Fernanda Silva, 52, que se aninha na Rua de Ceuta e todos os dias, até que há sol, se põe parada a pedir debaixo da Torre dos Clérigos, com um cartaz surrado e um copo vazio na mão, cheia de solidão; como Ricardo Cardoso, 31 anos, que bebia e deitou tudo a perder lá na França onde andou, hoje é sem-abrigo sem poiso certo e naquela noite foi dormir com o Samurai, que vai aparecer já a seguir.
Mas nesta hora, toda a rede deles acabou de ruir: com o país em estado de emergência, escasseiam rotas de comida de rua, cafés e restaurantes fechados, sem turistas, sem missa, não há a quem mendigar, não há sequer, agora que estacionar é grátis, carros para arrumar.
É disso tudo que se queixa Samurai, nome de guerra ou de pluma de Paulo Brás, que sonha ser escritor. Ele é alto, está no descampado à frente da fila da comida que engrossa e alastra até ao fundo da rua do Centro de Acolhimento Joaquim Urbano. Já pôs a máscara azul-céu e luta agora para calçar a segunda luva laranja de borracha, mas vai desistir da contorção - "deram-me luvas de mulher, olha-me esta!", e ele fica com uma mão calçada e outra ao léu, calejada, ligeiramente frustrado. Acabou de receber o kit do jantar quente takeaway que os voluntários do CASA, o Centro de Apoio aos Sem-Abrigo incapaz de parar, entreguem céleres à fila cá fora em sacos de papelão, aviando 400 pessoas por noite. O menu era empadão, um pão, uma banana e um Bongo - mas o kit não traz talheres e Samurai vai reclamar: "Hei!, como com quê?, as mãos?!", diz ele a agitar no ar a luva laranja engelhada que não consegue calçar.
Tem 52 anos, é ex-heroinómano, dorme literalmente debaixo da ponte. "Gosto de acordar ali, tenho o rio, os pássaros, é tudo meu, sozinho, sem ninguém a chatear", diz Samurai, que dorme num vão de 3x3 metros entre os pilares 1 e 2 da Ponte do Freixo, margem das Fontainhas, ali onde acima se eleva a bela vista do varandão e se avista a água azul-verde do rio a espelhar os fantasmas de barcos e turistas que deixaram de passar. "Não vou largar a rua. Só a troco por uma casa, mas não me dão uma casa, nem tenho rendimento para a alugar.... Na rua sou livre. Livre! É a única coisa que ainda não perdi", diz Samurai, e desaparece rua abaixo com o Ricardo, que esperava ali deitado pela hora da refeição, e os dois internam-se na escuridão.

Só quatro rondas ativas

Raquel Rebelo, dos Médicos do Mundo, a única equipa médica que continua a cruzar as ruas do Porto, dá uma ótima sugestão: "Porque não se abre aqui, como Espinho vai fazer, um parque de campismo para os sem-abrigo? Era, se calhar, digo eu, algo que os convenceria a largar a rua, não acha?".
Há muito "a trabalhar no limite e agora ainda mais", Raquel mantém ativas as rondas de rua, o gabinete, a equipa de Barcelos e a outra que vai ao Centro Joaquim Urbano levar consultas, seringas e cachimbos aos consumidores inveterados. Ela apela: "Precisamos de máscaras, luvas, batas e desinfetantes". Alguém pode doar? E depois ela partilha esta aflição: "Voltamos a ter fome na rua. Sim, fome. Há utentes, sobretudo os dos bairros de tráfico e consumo, a quem não chega a comida. Não serão tão visíveis como os sem-abrigo, mas já estão a aumentar".
Com 400 refeições entregues por dias no Centro Joaquim Urbano, os voluntários do CASA não servem só refeições; mantêm as rondas de rua, terças, sextas e domingos, às 21 horas, atrás do Bom Sucesso. Sexta-feira, confirma Teresa Moreira, que trabalhou com mais dois voluntários, o Filipe e o Rui, e serviram 50 pessoas com kits de takeaway, a comida quente esfumou-se em menos de 10 minutos.
Natália Coutinho, outra coordenadora do CASA, corrobora: os seus 200 voluntários passaram a 70, "todas as estruturas estão a perdê-los, temos de os recuperar, o número caiu drasticamente". Das 22 equipas de comida de rua que operavam no Porto, sobram só quatro: o CASA, a LBV, o Café Convívio - Assembleia de Deus e os Missionários da Fundação Allamano.
Os privados também se eclipsaram da rua, há de confirmar o padre Rubens Marques, que dá de comer a 280 pessoas por dia na Porta Solidária da Igreja do Marquês, a única estrutura aberta, além da Casa Mãe Clara, na Boavista, que serve 200 refeições diárias no regime agora obrigatório de takeaway.
O padre Rubens revela: "Estamos outra vez com números perto dos da crise económica de 2009. Receio que os venhamos a superar".
Além de muito trabalho, o prelado vive o estado de emergência "com muita oração, seriedade, serenidade e esperança". E todos os dias, todos sem faltar, o padre reza uma missa. Mas ele nunca viveu nada assim nos 33 anos desde a sua ordenação: a igreja está desolada, ele ouve a sua voz a ecoar na assembleia, e vê-a todos os dias desalentadamente vazia de fiéis.

Há 3400 pessoas sem-abrigo em Portugal

Lisboa concentra 44% do total nacional (3400) de pessoas sem-abrigo: Segue-se o Porto, com 24%, ou seja, 560 pessoas, entre as quais 100 a viver na rua e 460 já alojadas temporariamente. No Orçamento do Estado para 2020 constam 7,5 milhões de euros para a Estratégia Nacional de Integração dos Sem-Abrigo.

Guimarães lança apelo à sinalização

A Câmara de Guimarães e a CERCIGUI criaram um "espaço de alojamento para sem-abrigo, com todas as condições de higiene, segurança, conforto e acesso a refeições". A Autarquia apela à população que informe sobre casos de pessoas sem-abrigo a precisar de ajuda. Por telefone: 253421255, 969264803 ou 969264761. Ou por e-mail para: geral@cm-guimaraes.pt.

Coimbra está a monitorizar 40 sem-abrigo

Os 40 sem-abrigo de Coimbra estão a ser encaminhados para instituições de acolhimento, via Segurança Social. São monitorizados diariamente em relação à Covid-19, disse Jorge Alves, vereador da Ação Social.

Em Lisboa já há quatro centros de acolhimento

A Câmara de Lisboa ativou quatro pontos de acolhimento a sem-abrigo: no Pavilhão Casal Vistoso; no Pavilhão da Tapadinha, em Alcântara, cedido pelo Atlético Clube de Portugal; na Casa do Lago, em S. Domingos Benfica; e no Clube Nacional de Natação, já transformado em centro de acolhimento de emergência.

Espinho já os acolhe no parque de campismo

A Câmara de Espinho e o Grupos de Escuteiros de Anta montaram 17 tendas para acolher sem-abrigo no parque de campismo. Há apoio de comida e WC.


Texto por José Miguel Gaspar

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

O bebé deitado fora e como ele se salvou


























João e Rui, sem-abrigo, reconstituíram o salvamento do recém-nascido abandonado num ecoponto.

Quando João viu aquilo retraiu imediatamente a cabeça para fora da moldura amarela do ecoponto. Tinha os olhos muito abertos. Vira uma coisa que não era suposto estar ali, que não parecia verdadeira, uma coisa irreal, uma coisa que parecia errada, ou pior, e quando olhou a segunda vez já foi à cautela, de tronco inclinado para trás.
Varejou o olhar lá para dentro a ver o que podia ver, esquadrinhou, viu o bafo da própria respiração e não viu nada daquilo que imaginava ver. Ficou ali ainda uns segundos, confuso, a hesitar, sem saber o que fazer. Como aquilo não lhe passava, uma estranheza, inquietação, contradição, uma sensação de fogo a deslizar no gelo, a subir-lhe ao peito, pôs-se subitamente a correr, alucinado como o Bolton, e foi chamar o Rui.
Eram 9.30 da manhã. O Rui estava ainda no quiosque abandonado por trás da discoteca lisboeta Lux, na calçada onde se esticavam as cinco tendas verde-musgo, a sua, a do João, a do Sidnei e da Sara, que dormiam, a do Bangla e a do Xavier, que já não estavam, Rui arrumava cenas e trincava uma maçã. "Ele chegou esbaforido, todo desorientado, vinha do outro lado da rua, é estranho, parecia que chorava sem chorar, todo a tremer. Ó pá, ó Rui, eu vi um bebé, pá!, anda comigo lá, é um bebé, pá!, estou a alucinar", disse o Rui que disse o João sem perceber patavina do que ele estava a dizer. "Mas viste o quê?, e viste aonde?, perguntei eu que já me estava a passar. Estás-me a assustar, João, viste o quê? E fomos os dois, ele nervoso, eu ansioso, e fomos a abrir".
Percorreram os 400 metros da calçada marginal à Avenida Infante D. Henrique, entre a linha dos comboios da CP, o terminal de cruzeiros do Tejo, as gruas grandes, os vagões e os contentores da EMEF, do outro lado da Estação de Santa Apolónia, vão acelerados, vão a ventar, e chegam os dois ao grande caixote do ecoponto a arfar. "O caixote estava cheio de tampas de garrafas e plásticos, eu espreitei, enfiei a cabeça, olhei, tornei a olhar, nada. Mas que bebé?", diz o Rui a olhar semicerrado para o João, "não está aqui nada!". Vasculharam outros caixotes, viram os contentores de metal, reviram, nada. "Eu fiquei a duvidar do João", diz o Rui, "ele tem psicoses, mete metadona, desorienta-se, ele sabe (João concorda silencioso), ele estava com uma onda marada, pá, a anhar". Mas o João jurava e repetia baixinho: "Eu vi. Era um bebé...". E saem os dois desalentados dali.
Pelo caminho encontram o Vítor que vinha lá do fundo onde dormia, nas tendas onde dormem 11 pessoas debaixo do viaduto, contam-lhe tudo e o Vítor só diz: "É pá, se é um bebé é porque está morto. Afastem-se. É melhor".
Mas aquilo continuava a comer-lhes as cabeças e os dois decidem o contrário, vão à polícia turística da estação. Entram de rompante, atropelam as palavras, esbracejam, mas os polícias, que eram dois, não acreditam neles, gracejam, troçam deles, dizem que têm é que se internar. "E saímos os dois chateados dali", diz o Rui. "Contamos os trocos, eu comprei sangria, voltei para a tenda e o João, ó João tu és mas é maluco, foi à vida dele para o lado da estação".
João arrumou uns carros e uns trocos, cirandou no átrio de Santa Apolónia que já se enchia de fumo azul das castanhas lá fora a assar, encontrou Arlindo, o pregador - há uns tempos o Arlindo estava atolado nas trevas em Espanha, viu uma luz a rasgar e retornou a Portugal, "foi uma coisa a descer sobre mim, foi como um êxtase", e agora anda sempre a pregar, pede moedas, dá a palavra, diz que "temos todos ainda salvação" -, almoçaram um frango comido à mão, beberam vinho de pacote e continuaram a arrumar.

João chora: "É um bebé!"

Mas aquilo não saía da cabeça do João. "Nem da cabeça, nem do coração. Era um peso aqui no peito, atrás dos olhos, não sei bem dizer, uma coisa que se meteu em mim, que não me deixava pensar, mas, raios, eu vi ou não vi um bebé?!".
Vai passar uma meia dúzia de horas de roldão até que João torne ao ecoponto. Foi às 4.30 da tarde. "Tinha que saber, dava em maluco, vi ou não vi o que vi?". João vai, chega, deita as mãos ao bojo do ecoponto, espreita para lá com a orelha, ouve o pranto baixinho, chorinho, aterra-se outra vez e desata outra vez a correr, "ó Rui!, ó Rui!".
Contrariado, afobado, Rui segue atrás do João a resmungar mas vai. Vê umas calças de fato de treino pelo caminho caídas no chão, sacode-as, dobra-as depois de as cheirar, chegam e põem-se os dois de atalaia. "E então ouvimos! Era um choro pequenino, era estranho, parecia mecânico, parecia um choro daqueles bonecos a pilhas de brincar", diz o Rui um tanto alterado. Tremebundo, mete a cabeça no ecoponto e vê no mar de tampinhas cor de anil uma perna e um braço gordinhos de bebé a despontar. Grita com a cara lá dentro: "É um bebé!". João chora, ataranta-se, diz que não parou de tremer mas que se sentia a ferver, pontapeia o contentor de ferro, está eufórico. "Vês! Não estou maluco!". Os dois rebentam impetuosos a moldura amarela do ecoponto, gritam como tolos, disparatam, João mete os dois braços lá dentro de uma vez, pega no bebé por uma perna, "era a esquerda", e iça-o cá para fora, protegido na palma da mão, as perninhas a rabear no ar.
"Ele chorava e nós chorávamos também", diz o Rui atrapalhado a mostrar como fez para o embalar. "E assim que o encostei ao peito, ele sossegou logo, calou-se logo, parou imediatamente de chorar, parecia um anjinho, meu Deus, os olhos ainda fechadinhos, como é que isto está aqui a acontecer?!".
O anjinho estava nu, sujo de sangue, exangue, arroxeava - e "estava duro, a cabeça não tombava, reparei logo", diz o João, "e ainda tinha o toquinho do cordão umbilical a sair, coitadinho", diz o Rui, "e o cordão estava mal cortado, foi traçado com os dentes, se calhar ".

Xavier entra em cena a mentir

O que aconteceu a seguir foi confuso porque já ali se juntara muita gente inquietada, a perguntar, a sacar de telemóveis, a vozear, braços no ar. Já o Rui embrulhara o bebé nas calças de fato de treino que pousara em cima do ecoponto, ele o João procuram-se nos olhos, encontram-se, olham os dois para uma mulher acabada de chegar - e depositam-lhe o bebé nos braços emudecidos. A mulher é logo ladeada por dois homens saídos da parte oculta de trás da Lux e internam-se os três, mais o bebé, na discoteca. E essa foi a última vez que o Rui e o João viram o bebé que acabavam de salvar.
Ababelados, meios zonzos, sem saber outra vez o que fazer, João repara que o Rui tinha a cara subitamente fechada e olhava-o de olhos selados, muito sério. Ele aproxima-se, diz-lhe algo que vai ter que repetir - "temos que agradecer, João" - porque a voz se lhe engasgou e seguem os dois em direção à Igreja de Santa Apolónia.
Quando voltaram minutos depois - "Agradecemos a Deus ter-nos posto ali. Foi um ato de confiança d'Ele, com isto Deus disse-nos que conta com nós os dois", relata depois o Rui -, já estava tudo mudado. Já havia televisões, focos agitados, polícias, gente ao redor a ver. E no meio daquele torvelinho reparam em Manuel Xavier, "o que dormia ao nosso lado nas tendas do quiosque, mas com quem nem nos damos assim tão bem", ele era o centro das atenções e falava para as televisões. Pasmados, a boca à banda, retraem-se. Rui procura os olhos do Xavier, Xavier repara, ignora-o num olhar, e continua a acaudilhar os jornalistas que fazem fila para o entrevistar. "E nós vazamos dali, claro", diz o João chateado, "não ia ficar ali a ouvi-lo a mentir". Diz agora o Rui e o seu olhar é mau: "Ele não encontrou nada, não salvou ninguém. É mentiroso. Roubou-nos a história. Roubou! E porquê?".
Manuel Xavier não foi mais visto na rua. "Soubemos que lhe deram uma casa em Cascais, no dia a seguir às televisões, depois apareceu com Marcelo, mentiu a toda a gente, mentiu ao Presidente, armou-se que era o salvador", dizem o Rui e o João. E isto sucedeu a 5 de novembro, faz hoje 50 dias, a história esteve sempre mal contada.

Mãe foi presa e confessou logo

A mãe do bebé é Sara Patrícia, o pai diz não saber quem é. Tem 22 anos, é cabo-verdiana, vivia sem abrigo, usava drogas, prostituía-se, escondeu de todos a gravidez, inclusive do namorado, o Sidnei, com quem dormia na tenda ao lado do Rui e do João. Foi detida pela Polícia Judiciária 72 horas depois. E confessou. Teve o bebé sozinha na rua, não lhe deu nome, não o quis, nunca o quis, deitou-o fora aflita no ecoponto na noite da desesperação. E continua presa em Tires, indiciada pela forma tentada de homicídio qualificado. O Supremo Tribunal negou-lhe a saída da prisão preventiva. Aguarda conclusão de investigação da PJ e acusação do Ministério Público.

O bebé agora está bem

O bebé esteve hospitalizado de 5 a 21 de novembro. Dia 22, a Santa da Misericórdia de Lisboa, cumprindo ordem do Tribunal de Menores, revelou: o bebé "teve alta da Maternidade Alfredo da Costa", "saiu clinicamente bem", "estará com família de acolhimento", "até que se decida o seu projeto de vida".
João Paulo Saraiva, 52 anos, que agora tem os olhos sempre espantados, mesmo se os fecha, continua na rua. Já mudou várias vezes de poiso. Esta semana estava incrustado no viaduto, numa tenda emparelhada com a de Arlindo, o pregador - Arlindo espichou no betão, acima das suas cabeças: "O fim está próximo. De que lado queres estar?". Rui Machado, 54 anos, também largou dali. Dormirá para lá de Xabregas, num condomínio abandonado, os olhos cerrados no frio, e sentia-se a ruir. Ontem terão comido os dois bacalhau. Hoje não sabem se haverá.



Por José Miguel Gaspar