segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Discriminação LGBTI: Para quem foge de Bolsonaro, o paraíso é em Portugal



















Comunidade homossexual do Brasil é a mais perseguida do Mundo: a cada 19 horas uma pessoa é morta por preconceito. Brasileiros contam o que os leva a fugir.

Antes de decidir mudar de vida, de país e de coração e de sonhar viver em Portugal, Gabriel dos Santos, 22 anos, criado no Jardim Nazaré, zona pobre e problemática do leste de São Paulo, pai pedreiro, mãe faxineira, ambos analfabetos, seis irmãos, Gabriel saca de uma memória solapada do liceu.

Ele conta: “Nascer veado no Brasil não é fácil [n.d.r.: um veado, em calão brasileiro, é um homossexual] e eu percebi muito cedo, tinha seis, sete anos, que ia gostar de meninos em vez de meninas, como era esperado de mim. Nasci assim, falava fino, não gostava de futebol, não tinha amigos, ninguém se aproximava de mim. Nos dias em que havia ginástica era o pânico, as crianças nos balneários podem ser muito cruéis, eu lembro-me, passava dias inteiros na escola apertado sem coragem de ir no banheiro [WC], o bullying era o meu dia-a-dia, tinha medo até de respirar, só queria ser invisível. E então aprendi a viver solitariamente, que é o mais parecido que há com a invisibilidade. Nos intervalos das aulas, para não ter que socializar, escondia-me na biblioteca e passava o tempo todo a ler. E agora eu penso: tens dez anos e vives a fugir. Mas o que é isto? O que é que eu fiz? Isto não é viver!”.
Gabriel está agora de avental em frente ao restaurante da Baixa do Porto onde arranjou emprego há dois meses por 600 euros. É popular, tem contrato, foi às Finanças, já tem NIF, desconta para a Segurança Social, já arrendou casa em seu nome. E depois ele vai fazer um gesto que, diz ele, não pode repetir no Brasil: sacar livremente do telemóvel na rua sem ver se está alguém à frente, atrás, se alguém o está a vigiar para o roubar. Ele quer mostrar um vídeo que não consegue ver até ao fim – a execução filmada, e que está no YouTube, da travesti Dandara Kethlen em 2017, numa rua de Fortaleza, Ceará, era dia, a rua cheia, a mulher de 42 anos foi apedrejada, espancada, violada com paus e morta com dois tiros na cara – e outro episódio vem à tona.
“Um dia do ano passado, ao sair do emprego, eu era assistente do diretor da Viação Metrópole Paulista, ganhava mais lá do que cá, à hora do entardecer, ia a virar a esquina a falar no celular [telemóvel] e um garoto descalço, sem camisa, aponta-me uma pistola à cabeça. Sim. Assim. Gelei. Uma pistola enorme e negra numas mãos pequenas. Nem pestanejei, dei logo, ele desapareceu e eu fiquei ali a tremer. Depois, sempre que saía à rua levava dois celulares: o meu, o verdadeiro, metido nas cuecas, e outro, um antigo e fraco, para dar logo aos assaltantes sem piar.” E foi depois disso que Gabriel decidiu mesmo emigrar.
Hoje vive no Porto na zona do Marquês, vai e vem a pé do trabalho “na maior calmaria”, mesmo quando sai do Cinema Trindade, de que já é fã, e já é de noite – estes dias foi ver “Dor e Glória”, de Almodóvar, “filminho bom pra caramba, né?” –, ainda vive encandeado pela sua nova liberdade. Antes de vir pesquisou muito, informou-se bem, trouxe um pé-de-meia, e visitou Porto e Lisboa. Escolheu a cidade de cima. “É, achei mais bonita, mais cosmopolita, o povo mais direto, mais franco. E também por causa da Universidade do Porto, que tem curso de Engenharia Espacial que quero muito tirar.” E depois Gabriel pára, olha em volta, não diz nada, vai à esquina, espreita, volta, depois diz: “Ainda acho esquisito isso: aqui nunca vejo policial na rua, mas nunca me senti tão seguro como me sinto aqui. Eu amo o Porto, é do coração” – e os olhos dele ficam a raiar.

O país mais transfóbico do mundo

Para os 209 milhões de habitantes do Brasil, a estatística é o horror: no seu país, a cada 19 horas uma pessoa é assassinada por discriminação sexual. A constatação letal é de 2017, ano negro do relatório do Grupo Gay da Bahia, Organização Não Governamental que recolhe dados sobre homicídios da população LGBTI (lésbicas, gay, bissexuais, transgénero ou intersexo) no Brasil desde 1980 – e que registou 445 mortos naquele ano. O número vem a cavalgar: 130 homicídios em 2000, 260 em 2010, 343 em 2016, 445 no ano a seguir.
São números aterradores que atiram o Brasil para o topo do ranking de países com mais homicídios LGBTI do Mundo, confirma o relatório anual da Transgerder Europe, ONG com sede na Alemanha e que vigia mais de cem nações. O primeiro lugar do Brasil regista, em números absolutos, mais do triplo de assassinatos do México, o segundo país da lista negra em crimes LGBTI, seguido por Estados Unidos da América e Colômbia.
Neste contexto, como não cobiçar Portugal? O nosso país é o terceiro mais pacífico do Mundo, só fica atrás da Islândia e da Nova Zelândia; o Brasil é o 116.º, diz o ranking de 163 países da Global Peace Index.
Patrícia Simões, 44 anos, que chegou a Amarante em julho para trabalhar no festival Mimo e agora já vive o sonho de ser chef num restaurante em Lisboa, recita quase todos aqueles números de cor. Mas depois junta-lhes uns versos famosos do cantor brasileiro Criolo para se acalmar. E trauteia: “É necessário quebrar os padrões, é necessário abrir discussões, amar sem portões, amores aceites sem imposições” (da canção pop tropical “Etérea”, que Criolo lançou este ano com um vídeo protagonizado por drag queens, transexuais e travestis).
Patrícia, que já morou na Bahia, em São Paulo e no Rio, que percebeu “ainda muito menina que gostava de meninas”, e que aos 16 assumiu para toda a família que a sua pulsão sexual não metia homens, olha de cá para lá com espanto e estranhamento. “Sabe, só depois de sair do Brasil é que eu soube o que é ser livre e igual. É esquisito isso, né?”, pergunta ela a responder: “Todos nascemos livres e iguais mas lá no Brasil eu nunca senti isso não. Aqui em Portugal senti logo que podia ser eu. E esse sentimento, que para mim que tenho 44 anos, é novo, é um sentimento maravilhoso”.
Ela sorri para o sol, diz que ontem sonhou com um prato novo que vai fazer no restaurante com bacalhau e cuscuz, e depois de repente conta que em janeiro, em São Paulo, foi assaltada três vezes na mesma semana. “Das duas primeiras, na Avenida Paulista, levaram o dinheiro e o celular, mas da terceira eu apanhei e apanhei bem. Foi lá no meu bairro, que é dos mais caros de São Paulo, cheio de lojas, gente, cafés elegantes. Eu atravessava a rua de mão dada com a minha namorada e dois homens que se fingiam arrumadores de carros, um deles com um pau oculto, vieram diretos para nós. Eu apanhei logo um soco na cara e comecei a sangrar. Como não sou de me ficar, fui para cima deles e apanhei ainda mais: socos, pontapés, pauladas, deu de tudo. A minha namorada não respondeu e apanhou menos. Mas sabe o que é pior? Depois de nos tirarem o dinheiro e os celulares, os bandidos continuaram a bater, cheios de ódio nos olhos, a gritar que éramos bichezas, sapatões, que éramos um erro de Deus. Muita gente viu, ninguém fez nada. Quando me levantei do chão toda pisada, a camisa a escorrer sangue, toda estrelada, um homem sentado num banco de jardim sorriu e disse: “É, Bolsonaro está metendo ordem nesse país”. Ainda lhe berrei por não ter feito nada, mas ele fugiu. Ainda o ouvi dizer: “Ué, eu sou pescador, não sou segurança – e continuou a sorrir todo desdentado, o canalha”.

Um presidente que não é de todos

Patrícia aconselha a leitura do Atlas da Violência, um observatório estatal que diz que morrem no Brasil 179 pessoas assassinadas todos os dias, o que dá 65 mil homicídios por ano, nos dados de 2017. Ela entende que os imigrantes brasileiros recentes, sobretudo os LGBTI, estão a sair devido ao desgosto chamado Jair Bolsonaro. O ex-capitão do Exército, 64 anos, empossado em janeiro 38.º presidente do Brasil (vitória por 55,13%; 57,7 milhões de pessoas votaram nele), vem exercendo uma agenda de extrema-direita, populista, nacionalista, socialmente conservadora, economicamente liberal, anticomunista – e abertamente xenófoba e homofóbica, isto é, que tem medo irracional e irrealista de imigrantes e homossexuais.
De facto, Bolsonaro não é o presidente de todos os brasileiros e são célebres os seus assertos sobre os gays. Em 2002, já era deputado federal, disse: “Se eu vir dois homens se beijando na rua, eu vou bater neles”. Em 2010: “Se o filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um couro e muda o comportamento dele”. Em 2011: “Muitas das crianças que serão adotadas por casais gays vão ser abusadas por esses mesmos casais homossexuais”. E em 2012, entre outras declarações de ódio e discriminação que nunca emendou: “Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui, prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim ele vai ter morrido mesmo”. É neste clima, incendiado por cima, incinerado por baixo, que vive hoje o Brasil.

O Porto é tão cosmopolita como Barcelona

Pedro Favaretto, 24 anos, designer publicitário, e Vítor Alonso, 25, arquiteto, namorados, mudaram-se para cá em 2017 e já se comportam como portugueses: quando se levantam do almoço para ir ao terraço do bar/restaurante Maus Hábitos ver o Porto a 360 graus num céu limpo até ao mar – “Uau, nunca tinha visto a cidade assim, uau!”, diz um, “é, é linda mesmo né?”, diz o outro a rodopiar o olhar –, os dois brasileiros deixam tudo na mesa, casacos, bolsas, cadernos, um computador. Sorriem a olhar um para o outro: “No Brasil isso não é possível não, roubavam logo se vissem que os pertences estavam sem ninguém”, diz Pedro a abanar a cabeça, “é, se calhar, já somos portugas”, diz Vítor, e os dois descascam-se a rir.
No casal, a decisão de emigrar foi unânime, foi quando lhes assaltaram o apartamento. “Vivíamos numa zona boa de São Paulo, com segurança, câmaras, vigilantes, mas aconteceu. Foi um golpe dos porteiros”, diz Pedro. Mudaram de casa, recomeçaram noutra zona da cidade. Mas isso não durou dois meses. “Eu vivia sempre tenso, cada vez que entrava em casa tinha medo, nunca queria estar sozinho”, diz Vítor, e decidiram que não era forma de viver.
O Porto foi a segunda opção, primeiro queriam Barcelona, “uma cidade gay friendly e que era referência nas nossas profissões”. Foram lá uma semana, viram tudo, passearam, espiolharam, fizeram contactos profissionais, e voltaram ao Porto para o mesmo roteiro de instrução. “Foi aí que a coisa bateu em nós: o Porto é mais pequeno, óbvio, mas é tão cosmopolita como Barcelona e é uma cidade linda e segura e com o tamanho ideal”, dizem os dois a intercalar.
Com apartamento numa zona de classe média-alta da Foz fluvial, vieram para investir e já fundaram no Porto a empresa Blecaute de candeeiros singulares. Diz Pedro: “Fomos ao concurso de desenho de luz do festival Lumina, de Cascais, e ganhámos um prémio com um candeeiro-flor escolhido pelo grande Philippe Starck, o arquiteto e designer que é como estrela rock mas francês. E sabe o que ele, que também vive cá [Cascais], nos disse? Isto: Eu escolhi Portugal porque os portugueses são os últimos seres humanos do planeta. Uau, né?”.
De Bolsonaro “não queremos nem ouvir falar”, diz o casal. “Nós saímos antes de ele chegar, mas a nuvem já lá estava e vinha a engrossar. Vimos a eleição em direto no Porto, com amigos, e todos congelámos. Elegemos um imbecil, um imbecil muito perigoso. Agora é que vamos pró buraco – e mudamos de canal.”

Criolo faz música para combater o ódio

Criolo, nascido Kleber Cavalcante, 45 anos, uma estrela rap no Brasil, não emigrou mas já atuou cá este ano cinco vezes. No verão, em Amarante, onde a NM o viu no Mimo, um festival positivo, inclusivo, democrático e abrangente, ele pôs milhares de pessoas a concordar: “A melhor arma para a revolução é o amor”. Muito crítico da posição política e social do Brasil, ele diz do seu presidente. “Bolsonaro vai à TV e diz que no meu país não há racismo. É inimaginável, impensável, um país em que decorre o genocídio da juventude negra, um presidente dizer uma mentira, um embuste desses. A revolta é séria”, diz Criolo, um homenzarrão de voz terna, caricioso, com olhos exaltados.
“Nós viemos do nordeste, morámos em favela, fomos pobres, já viemos da diáspora africana, sofremos todos os preconceitos na pele, sentimo-lo desde o ventre da nossa mãe, e ouvimos o mais alto dignitário da nação dizer isso?! É uma vergonha sem fim. Me dá raiva o Brasil de hoje.”
E mais isto: “O racismo sempre existiu, só que agora as pessoas estão à vontade, sentem-se legitimadas, têm um presidente que nega o real e mente na nossa cara. Ele amplifica o pior dos piores sentimentos que é a normalização do ódio, do preconceito”. E por isso Criolo faz música para combater o mal. “Quando a arte te toca, tu percebes que tens alma, percebes que és gente, percebes o outro. Isso leva ao respeito e o respeito leva à cidadania. Essa é a força da cultura, a arte como alimento da alma.” Mas depois desanima-se: “O Brasil precisa de nascer de novo. Só a juventude, a nova geração, pode mudar isso, o ódio que se globalizou e está a levar tanta gente a fugir do meu país”.

Um brasileiro emigra para Portugal a cada meia hora

Os números são de uma grandeza voraz: em média, todos os dias, a cada meia hora, um brasileiro entra em Portugal para ficar a morar. São 54 novas pessoas por dia, 383 por semana, 1 666 por mês. A taxa foi verificada pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras: 19 997 brasileiros emigraram para Portugal só em 2018. Desde que saiu da crise económico-financeira de 2008-10, Portugal é o novo país favorito dos brasileiros e esta fuga já é designada como “a segunda vaga” após a primeira grande ponte de imigração brasileira para cá nos anos de 1980-90, conhecida como “a imigração dos dentistas”.
Entre o total de imigrantes, 480 300 pessoas, o maior número de sempre, um em cada cinco veio do Brasil. Hoje, os brasileiros são, de longe, a maior comunidade estrangeira no nosso país, com 105 423 registados, diz o Relatório de Imigração, Fronteiras e Asilo, do SEF (2018). O Brasil deixa a léguas todas as outras nações: Cabo Verde (34 663), Roménia (30 908), Ucrânia (29 218), Reino Unido (26 445), China (25 357), França (19 771), Itália (18 862), Angola (18 382) e Guiné-Bissau (16 186).
Quatro cidades concentram quase 70% dos brasileiros: Lisboa (43 mil entre 213 mil estrangeiros), Porto (12 994 brasileiros, dos quais 60% mulheres, entre 32 614 estrangeiros), Faro (9 650 brasileiros que podem em breve superar a maior comunidade estrangeira de sempre da capital algarvia, que são os 14 151 ingleses) e ainda Braga (6 168 brasileiros).
Quatro fatores contribuem para a situação, indica o Relatório da Imigração: a dispensa de visto, a perceção de Portugal como país seguro, as nossas vantagens fiscais e o crescimento económico de Portugal, que é alavancado pelas receitas do turismo.

No Brasil são mortas 179 pessoas por dia

A violência e o seu ódio rácico, social ou sexual não atingem só a população LGBTI; a violência atravessa toda a população geral e não pára de crescer. É o que diz o Instituto de Pesquisa Económica Aplicada, que lançou no verão o Atlas da Violência, observatório nacional das mortes criminais que assombram a população do Brasil.
O primeiro estudo incidiu em 2017 e só nesse ano houve 65 602 homicídios, equivalendo a 179 pessoas assassinadas por dia num país com 209 milhões de habitantes. É de tirar o fôlego: a cada 12 minutos no Brasil, uma pessoa morre às mãos de alguém. É “o maior nível histórico de letalidade violenta intencional no país”, revela o relatório do Atlas. Estes números tornam-se ainda mais dramáticos: “A violência letal acomete sobretudo os jovens”, sendo que “59% do total de óbitos de homens entre 15 e 19 anos são por homicídio” – e “71% dos crimes são cometidos com armas de fogo”.
Estes números são compensados pela altíssima taxa de natalidade: em média, a cada hora nascem 321 bebés no Brasil. São 5,36 por minuto ou um a cada 11,2 segundos, diz o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

Texto Por José Miguel Gaspar

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Nuno Baltazar: “Sou muito mais uma parede descascada do que um palácio”










É sensação antiga, a de que cada peça criada por Nuno Baltazar devia vir com bilhete na pata, pombo-correio com a mensagem de amor, generosidade e delicadeza que o criativo que recusa o termo criador coloca em cada detalhe de cada coleção. Um cartão com uma poção de contágio de beleza pela palavra. Mas é como ensina o Principezinho, “o essencial é invisível aos olhos”. E talvez as criações dele só possam mesmo ser entendidas e vestidas com o coração. Nuno Tiago, nome de código para família e amigos antigos, é o designer de moda português que mais trabalhou a emoção na construção das coleções.



É assim desde o início, desde o tempo em que a sua hipersensibilidade era injustamente confundida com melodrama, e o carimbo o tornava inseguro. Mas ele anda nisto da moda de autor há 20 anos, desenhou trinta coleções em nome próprio e, há três anos, quando abriu a porta para a década dos 40, decidiu virar a vida do avesso. Reencontrou o seu novo lugar no mapa, física e figuradamente – da Boavista para o Bolhão, do palácio para o rés-do-chão, do acessório para o essencial –, e assumiu, agora sem medo, a sua voz. E há nela uma revolução. Íntima. A revolução de ser sensível, de ser verdade, de ser pele. De ser futuro e ser simples. Pode a biografia de um designer de moda estar inscrita em camadas de tecido? E arrepiar tanto como um fado de Amália?
Há quem considere Nuno Baltazar “o homem mais bonito do Porto”, ele que nem sequer nasceu na cidade, que não gosta de ser “confundido com um homem do Norte” e que, apesar de ter saído de Lisboa com apenas três anos, sempre que pode, ergue a sua bandeira alfacinha. “A minha relação com o Porto parece um casamento antigo”, revela e não ri. “É uma relação de saturação em muitas circunstâncias. A cidade tem características com as quais não me identifico. A maioria das pessoas tem um comportamento que oscila entre o presidente do clube de futebol e o líder da claque. É um comportamento de cegueira que não conduz a outra coisa se não à falta de autocrítica e, portanto, à estagnação. E isso asfixia-me bastante.”

O diagnóstico da relação é apresentado a frio e de rajada, mas poderá não estar totalmente atualizado. “Depois de um certo tempo”, concede, “o amadurecimento fez com que desse outra importância às coisas e pensasse: ‘Se calhar gosto mais dela do que pensava'”. É dúvida que mantém, apesar de tudo.
Aquilo de que não duvida é que a cidade se reinventou. “O Porto evoluiu muito. E essa evolução era fundamental para que pudesse apaixonar-me. Até há pouco tempo não havia política cultural. E a cultura é aquilo que nos permite viajar sem sair do sítio. É o que nos amplia os horizontes, o que nos abre a cabeça para outras realidades. O Porto só começou a ter uma dinâmica diferente e a reeducar-se enquanto cidade há cinco anos.” A cultura é, pois, a base da criação. Da sua, pelo menos. Daquela que o move, comove e em que acredita. Toda a sua história criativa é um caleidoscópio de histórias outras, de filmes, peças teatrais, performances, instalações, coreografias, óperas, sinfonias e literatura.
É, aliás, muito fácil tropeçar nele em qualquer equipamento ou manifestação cultural. “Um criativo”, justifica, “tem, antes de tudo, de construir um universo pessoal riquíssimo. Tem de ler, tem de ver espetáculos, tem de ir ao teatro e ao cinema, tem de ler romances e poesia, tem de andar na rua e olhar para as pessoas. Se não houver isso, essa curiosidade, essa avidez de absorção, pode espremer-se o que se quiser, mas não vai sair nada”. Ele espreme e sai poesia visual e tátil. Há sempre qualquer coisa de trágico e de belo, de orvalho e de frágil, de melancólico e de silêncio que amordaça o ruído do Mundo nas suas coleções.
Volta a ser assim em “Displaced”, a coleção #30, que constitui a proposta para esta estação. É a coleção com que em março se despediu, com estrondo, do Portugal Fashion. As grades que cercavam a passarela no Edifício da Alfândega, no Porto, na encenação do seu derradeiro desfile, até poderiam parecer um prenúncio do espartilho que ali e há muito sentia. Mas não. A razão é mais funda e menos egocêntrica. “Displaced” (“Deslocados”) parte da instalação performativa que o dramaturgo Brett Bailey, que há mais de dez anos trabalha sobre a questão dos refugiados, dos imigrantes e da xenofobia, apresentara noPalácio dos CTT, também no Porto. “A instalação chama-se ‘Sanctuary’ e recria a experiência que um refugiado tem quando chega à Europa. É uma coisa muito densa, até porque entre labirintos e grades, percebe-se que eles não são figurantes, são mesmo refugiados. Tem uma carga emocional gigantesca.”

Este grau de perturbação é quase sempre o detonador da sua inspiração, que depois há de cerzir ao seu momento individual presente. “Esta coleção tem a ver com pessoas que, a dada altura, perdem a coisa mais importante da sua vida, que é o seu lugar. O lugar onde vivem, onde trabalham ou onde amam. Vestem-se à pressa, misturam tudo, porque o mais importante é lutar e existir e procurar um lugar.” É sobre refugiados. É sobre ele. Não é sobre nós?
“Essa perda de lugar estava a acontecer comigo a vários níveis, profissional e amoroso. Deixei de me identificar com aquele que era o meu espaço.” Nuno Baltazar viveu, estudou e trabalhou na Boavista desde sempre. Foi ali, em plena Avenida, que frequentou o Colégio dos Maristas, quando era miúdo; foi ali, no Citex, Centro de Formação Profissional do Têxtil e do Vestuário (agora rebatizado Modatex), de janelas voltadas para os jardins de Serralves, que na década de 1990 se fez designer de moda; foi ali que fixou a morada de casa e dos seus três sucessivos ateliês. Mas nem é – ou não é só – essa geografia palpável aquela a que se refere. É um lugar interior. “Acabara de fazer 40 anos. Sempre fiz aniversários a perspetivar o futuro. Mas quando cheguei ali dei por mim a olhar para trás, a pensar como é que aos 30 imaginava que seria aos 40. E percebi que muita coisa estava errada. Que não estava confortável com aquele marasmo. Que era preciso mudar.” E mudou. Em primeiro lugar, de território físico.
Trocou o palacete do século XIX, no número 856 da Avenida da Boavista, onde em 2005 inaugurara a sua loja-ateliê, por uma antiga loja de produtos elétricos, no número 37 da Rua do Bolhão, na Baixa. À primeira vista, poderá parecer um choque térmico, mas é um impacto cheio de significado. “Era um lugar feio e escuro, mas com imenso potencial. Quis descascá-lo e recriá-lo. É um espaço mais urbano e menos impositivo. E é imperfeito. E eu gosto da imperfeição.” A loja, 140 metros quadrados e paredes que dançam entre a nudez e as manchas da sua existência, foi inaugurada em julho do ano passado. Fica a meia dúzia de passos da loja de Luís Buchinho, amigo e criador também formado no Citex – o Citex é o berço de uma geração inteira de criadores do Porto –, o que o faz alimentar o sonho de ver aquele quarteirão transformado num bairro de moda nacional.
É hoje o seu melhor bilhete de identidade. “Sou muito mais isto, sou muito mais uma parede descascada do que um palácio forrado a papel de parede.” Os 40 anos trouxeram-lhe ainda outra mudança territorial, mental. “Sempre tive vergonha de falar sobre as minhas emoções, porque durante alguma parte do meu percurso era considerado o dramático da moda portuguesa. No sentido pejorativo, acho. Olhavam para mim, quando escolhia uma banda sonora ou quando optava por fazer um desfile com alguém a dizer poesia, e sentia que pensavam: ‘Ai, lá vem este outra vez’. Isso fez com que sempre tivesse algum sentimento de inferioridade. Depois, percebi que tenho uma voz, que tenho alguma coisa que quero dizer.” Em certo sentido, ele é um contador de histórias. Nunca desenha coleções “porque sim”, desenha coleções “porque sente”. E é, também por isso, que todas as peças de todas as coleções deviam conter uma espécie de diário de bordo. Boneca russa, todas guardam uma história dentro da história. E nessas histórias ocultas, que ora vai “mostrando e tapando”, ora vai “descobrindo e encobrindo”, há sempre mulheres. Mulheres-poema. Elas são o cadeado e a chave.

Nuno Baltazar, único rapaz no meio de três irmãs – elas tratam-no como mascote, ele trata-as como princesas, são quatro e não vivem uns sem os outros – , é talvez o homem que mais genuína e intensamente ama várias mulheres ao mesmo tempo, sem que esse amor se abeire sequer vagamente da traição. “Há em cada canto da minha alma um altar a um deus diferente”, escreveu Álvaro de Campos, um dos seus poetas.
As mulheres, as deusas diante das quais se ajoelha são tantas. São Amália Rodrigues, do fado e da “doce loucura” e da “noite mais escura”; Sophia de Mello Breyner, do “mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim”; Frida Kahlo, da coragem política e da superação das trevas do corpo; Marguerite Duras, da fragmentação da memória dos amantes; Paula Rego, da solidão e do desespero, da frustração e do desejo, da liberdade e do encarceramento, da infância atravessada pela maturidade pintada em figuras ambíguas, meio-humanas, meio-animais, meio-bonecos, meio coisas que só ela saberá; Virginia Woolf, do imortal e mutável Orlando e da vida interrompida; Elsa Schiaparelli, italiana do vestido lagosta; Jessye Norman, soprano dramática que morreu no último dia do último setembro; Karen Blixen, a baronesa dinamarquesa de “África Minha”; Iris Ipfel, icónica nonagenária dos lábios vermelhos; Maria Callas, divina grega da ópera; Edith Piaf, francesa da “chanson” e da vida rosa; Silvia Plath, da vida de vidro e da poesia contra a depressão; Jessica Lange, do corrosivo “American Horror Story”; ou Meryl Streep, que há dois anos, homenageada na 74.ª edição dos Golden Globe Awards, em Los Angeles, subiu ao palco e foi quase como se lhe soprasse ao ouvido: “Pega no teu coração destroçado e faz arte com ele”.

Todas estas mulheres já fizeram, de uma forma ou de outra, parte das suas coleções, quase todas com nomes de filmes ou livros ou canções. Parecem todas divas, estas mulheres, mas são todas, “sobretudo, um bocadinho desequilibradas”. “Esse desequilíbrio é fascinante”, diz. “Na verdade, em todas estas mulheres, procuro sempre a minha mãe. É isso que quero quando tento decifrar a cabeça delas. É essa ligação que me faz procurar mulheres que não entendo muito bem.” A mãe de Nuno Baltazar, Elsa como a criadora dos vestidos surrealistas, Elsa como a personagem de Jessica Lange que o conduziu à coleção #25 batizada “Circus”, Elsa, a sua “diva do eyeliner”, faz anos amanhã.
É o amor maior da vida dele. E é ela quem melhor serve para explicar o triângulo que invariavelmente existe na génese e na apresentação de cada uma das suas coleções. Há sempre uma inspiração matricial, há sempre uma banda sonora original desenhada por Francisco Leal, e há as peças propriamente ditas. Ou, dito de outra forma, e pelo próprio: “Há sempre uma ligação muito forte entre uma inspiração e uma coleção, mas no meio estou eu. É essa ligação com um momento qualquer da minha vida, que é sempre muito pessoal, que define o que quero comunicar”.
Naquele ano, ele “estava a trabalhar sobre a dor” de ter a mãe a atravessar um cancro da mama. “Foi muito intenso. Acompanhei-a sempre. Ela nunca entrou sozinha no IPO, nunca entrou sozinha sequer em algum tratamento. Passar por um momento daqueles é uma coisa que nos esvazia. Mas, no meio disso, tinha de desenhar uma coleção. E sabia que a única coisa que tinha dentro de mim era aquilo que a minha mãe e eu estávamos a viver. Então, houve um dia em que cheguei a casa e ouvi o ‘Stabat Mater’ de Vivaldi pelo Andreas Scholl e percebi: é este o momento.” O momento para quê? O momento para resgatar aquele dia, há 15 anos, em que pela primeira vez ouviu, no Mosteiro dos Jerónimos, o “Stabat Mater”, um dos hinos mais significativos que se enquadra no contexto da paixão ao exprimir as dores de Maria, e que na verdade significa “Mãe Dolorosa”. “Quando ouvi aquilo tive a certeza que um dia saltaria do meu baú para uma coleção. Seria num dia em que fizesse sentido.” Seria no inverno 2016/2017, a estação em que a mãe Elsa ficou curada.
Essa ligação entre um momento pessoal, uma banda sonora e uma inspiração vertida em coleção pode acercar-se dele de outras maneiras, mas nunca sem ser pelo coração. “No fim de uma relação muito longa, que tinha sido muito importante para mim, disse ao Francisco Leal: ‘No desfile, quero ouvir o som de um comboio a partir.’ E quando disse aquilo lembrei-me imediatamente do filme ‘The Sheltering Sky’ [‘Um Chá no Deserto’], de Bernardo Bertolucci, e daquele momento em que Kit Moresby, a personagem feminina, diz: ‘We’re not tourists. We’re travelers.’ [‘Nós não somos turistas, somos viajantes’].” “Travelers”, a coleção #10 que vestiu a primavera-verão de 2009, era sobre isso, “sobre partir sem saber quando vamos voltar”.
É esta viagem aos bastidores, às entranhas de Nuno Baltazar, que verdadeiramente o distingue no panorama da moda nacional. Mesmo que muito do que faz pareça invisível a olho nu. “Todos os detalhes de cada coleção são pensados, são propositados. Mesmo que depois as pessoas não se apercebam desses pequenos pormenores, é a soma de todos esses detalhes que faz com que aquilo passe com verdade.” É por isso que os seus desfiles são sempre momentos particularmente emotivos. Porque não é só roupa, é arte. Ou, como escreveu Pierre Bergé a Yves Saint-Laurent, casal a quem dedicou o verão de 2013, na coleção #18 intitulada, tal como o livro, “L’Amour Fou” [“O Amor Louco”]. “A moda não é arte, mas é preciso ser artista para a fazer”, cita, contando como essa frase o pacificou. “Sempre me senti artista, mas nunca considerei aquilo que faço arte. E esta é a melhor definição que encontrei para isto que fazemos. Para fazer moda de autor, é preciso ter coração de artista. Caso contrário, não se chega lá.”

Nuno Baltazar desenha essencialmente, mas não exclusivamente, para mulheres. E a mulher portuguesa, tal como a moda nacional de autor – que evoluiu “na conceção, no rigor, no profissionalismo, na oferta”, mas que ele define sobretudo como “lúcida” – , mudou muito nos últimos 20 anos. “É uma mulher muito mais confiante, mais independente, mais segura, mais cuidada, e isso reflete-se na forma como se veste.” Mas a mulher que usa a etiqueta NB é mais do que isso. “A minha mulher é a mulher do poema de Sophia, o mar sonoro, o mar sem fundo, o mar sem fim. É transparente num dia, absolutamente profunda no outro, calma, revolta, tempestuosa, romântica, carnal. Tem imensas camadas, umas mais acentuadas do que outras, que vai revelando à medida que o tempo vai passando. E tem muitos picos. Pode ser quase desequilibrada, no bom sentido. Porque o equilíbrio é coisa que me irrita.”
A mulher NB não tem idade nem estilo estanque. “Há mulheres de idades completamente diferentes a comprar a mesma peça de roupa e a usá-la de maneiras completamente diferentes. E é isso que me dá prazer: pensar que a minha roupa é o guarda-roupa para personagens reais, que depois vão compor os seus figurinos conjugando as minhas peças com outras que herdaram ou compraram noutro sítio qualquer, e assim criar a sua própria história.”

Duas décadas foram um sopro na vida de quem tudo aconteceu muito cedo. Mas Nuno Baltazar, que se lançou na moda em 1998, “de forma apaixonada e completamente inconsciente”, que durante os primeiros cinco anos do percurso profissional assinou com o colega de curso e amigo-irmão Paulo Cravo 12 coleções, que venceu vários concursos (1995, 1996, 1997), Fashion Awards (2011) e Globos de Ouro (2013), que veste assiduamente inúmeras figuras públicas, desde a apresentadora e atriz Catarina Furtado à maestrina Joana Carneiro, que foi agraciado com a comenda da Ordem do Infante D. Henrique quando tinha apenas 39 anos, completou 20 anos de carreira e não celebrou. “Foi em abril deste ano, tinha acabado de bater com a porta ao Portugal Fashion, foi uma fase complicada. Além disso, não ficaria confortável a colocar-me em bicos de pés, celebrando o meu próprio trabalho.”
A sua saída do Portugal Fashion, em março, ao contrário do que acontecera quando decidiu abandonar a Moda Lisboa, foi amplamente noticiada. “Cansei-me de esperar pela oportunidade de um projeto internacional.” O criador sensível não se cala, não se curva, pode rasgar-se por dentro, mas dá o corpo às balas. E, no rescaldo de apresentar “Displaced”, anunciou o desfecho na página pessoal de Facebook. “Saio, bato com a porta, digo um enorme não a esta direção do Portugal Fashion. Digo abertamente que o que ali se faz não dignifica, não eleva e não potencia o trabalho árduo dos criadores portugueses. Potencia apenas o nome da plataforma e a vaidade e o deslumbramento de quem a dirige.”
É um murro, mas um murro carregado de “tristeza por ter de tomar uma tão difícil decisão” num país em que “a falta de união dos designers portugueses” é a sua “maior fraqueza”. A celebração haverá de existir, provavelmente quando as obras do Museu do Design e da Moda (Mude), em Lisboa, ao qual doou parte significativa do seu espólio, estiverem concluídas. Essa exposição antológica “faz parte do acordo de doação, a pedido do Museu”. Outras peças foram doadas ao Museu do Traje, ao Museu de Chapelaria e ao Museu dos Sapatos. Só guardou o que fez com Paulo Cravo. “Porque foi o princípio de tudo.”
Nuno Baltazar tem 43 anos e “Tatuagem” tatuada no braço, canção de Chico, nome de coleção, está vestido por ele próprio no dia em que recebe a “Notícias Magazine”, roupa escura, corte simples. São já três coleções seguidas para homem, “porque parece fácil mas é difícil encontrar” o que gosta de vestir. Fora isso, se pudesse, andava nu. “O luxo absoluto é chinelo no pé, calção curto e andar três semanas de verão com a mesma t-shirt até que ela se segure sozinha cheia de sal.” Isso e a peça anual que se oferece de Dries Van Noten, o seu criador de eleição.



Texto de Helena Teixeira da Silva

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

“Derrubámos o muro na nossa aldeia, mas a extrema-direita está a levantar outro”











































Até há 30 anos, Moedlareuth esteve dividida pelo muro que separava as duas Alemanhas. Agora, metade da povoação pertence a uma comuna próspera da Baviera e a outra a um dos mais empobrecidos distritos da Turíngia. Aqui, a extrema-direita ganhou as Europeias e é favorita às regionais do próximo domingo. O sobressalto alemão, visto de uma aldeia com 50 almas.

Holger Schlutz tem 50 anos e garante não ser homem de choro fácil, em toda a sua sua vida adulta só se desmanchou em lágrimas duas vezes. “A primeira foi há trinta anos, quando o muro veio finalmente abaixo. A outra foi agora no início de outubro.” Modlareuth, aldeia de 50 habitantes no leste do país, esteve até 1989 dividida a meio – 30 almas viviam na comunista República Democrática Alemã, 20 na capitalista República Federal Alemã e, no meio, havia uma parede branca com três metros de altura. Uma pequeníssima Berlim no meio de nenhures.
Mesmo que as fronteiras se tenham esfumado há três décadas, a aldeia permaneceu sempre dividida. Hoje, metade pertence à comuna de Tolsen, na região ocidental da Baviera, outra metade ao município de Gefell, na oriental Turíngia. Os habitantes da povoação têm códigos postais, indicativos telefónicos e inscrevem os filhos em escolas diferentes. Os que vivem do lado da Baviera moram num dos mais dinâmicos distritos do país rural. Os que estão na Turíngia num dos mais deprimidos territórios alemães.

Uma das poucas coisas que é comum aos dois lados é o pão que consomem. E esse é preparado diariamente por Holger. A padaria Schlutz tem 250 anos de história e ele representa a nona geração da família a assumir o comando do forno. “O testemunho passou sempre de pai para filho, e um dia será a vez de o meu rapaz assumir a tarefa.” Quando começou a trabalhar, ainda havia duas Alemanhas e Holger só distribuía pão na Modlareuth ocidental, no seu lado da Cortina de Ferro. Mas, na noite de 8 para 9 de novembro de 1989, um amigo telefonou-lhe de Berlim e anunciou o que toda a gente desconfiava: o muro ia cair em breve. “Por instinto dupliquei a produção. Na noite seguinte, pela primeira vez na minha vida, pude dar pão a quem estava do outro lado.”

 Foi uma explosão de alegria. Enquanto o mundo inteiro olhava para a capital, aqui a festa fez-se sem holofotes. Irmãos separados há 40 anos abraçavam-se, de todo o lado apareciam garrafas de espumante, Holger oferecia roscas e pretzels e “as pessoas choravam e dançavam de alegria. Toda a gente, mesmo os guardas da fronteira.” Num meio tão acanhado, não havia quem não tivesse alguém do outro lado. Agora as portas abriam-se e o padeiro ainda se emociona. “A conquista da liberdade é o maior espetáculo do mundo.”
  Uma parte do muro foi preservada, tal como as instalações militares e uma porção da vedação. Constituem hoje o Museu Alemão-Alemão de Modlareuth, que é visitado anualmente por 70 mil pessoas. E todos os anos, a 3 de outubro, população e autoridades locais juntam-se nas margens do ribeiro de Tannbach e atravessam-no com um salto para celebrarem o Dia da Reunificação Alemã. “Ninguém quer esquecer o que aconteceu, para que não se volte a repetir.”

Só que, este ano, ao mesmo tempo que decorriam as cerimónias oficiais, o partido de extrema-direita AfD – Alternativa para a Alemanha convocou uma manifestação no centro de Modlareuth. “Eram umas 200 a 300 pessoas vindas sobretudo do Leste, que não tinham vindo celebrar a reunificacão, antes protestavam contra os seus falhanços.” Todos aqui concordam que a Alemanha corre a duas velocidades e toda a gente sabe que a direita ultranacionalista está a crescer nos terrenos que antes eram de influência soviética. O que Holger nunca pensava voltar a ver 30 anos depois era isto: um dispositivo policial irromper pela povoação, grades de ferro a conter pessoas, ódio de um lado do ribeiro contra o outro. Foi então que se escangalhou a chorar.

É sábado de manhã e o mercado de rua de Bad Lowenstein, um vilarejo perto de Modlareuth, foi tomado pela campanha eleitoral – domingo, 27, há regionais na Turíngia, onde a extrema-direita espera um resultado histórico. Todos os partidos montaram a sua pequena banca na rua principal da feira, exceto a AfD, que decidiu instalar-se longe de todos os outros, no fundo da praça. “Somos uma alternativa para o estado atual das coisas”, diz Uwe Thrum, o cabeça de lista neste distrito. “Porque raio nos haveríamos de misturar com os outros partidos?”
Thrum vai fazendo o seu discurso a quem o quer ouvir e a campanha da extrema-direita aposta, nas suas próprias palavras, em três vetores essenciais: “a rejeição dos partidos tradicionais por não terem conseguido unificar economicamente a Alemanha, a proteção das populações locais contra a chegada de estrangeiros e a recuperação dos valores da família tradicional.” Quando as coisas começam a tornar-se pessoais ele puxa dos galões: “Não sou político profissional, sou mestre carpinteiro. Só me meti nisto porque já não suportava ver o meu país ser tomado por um bando de corruptos.”

Algumas pessoas desviam-se e recusam receber qualquer propaganda, mas a verdade é que aqui que a AfD mais cresce. No distrito de Saale-Orla, a que pertence a metade leste de Modlareuth, a extrema-direita venceu as últimas europeias, com 27,1 por cento dos votos. E agora está a disputar taco a taco a primeira posição nas regionais. A semana passada, o site norte-americano Politico juntou todos os dados das sondagens para estabelecer as posições dos partidos na corrida ao parlamento regional da Turíngia. A AfD sobe de 10,6 para 24 por cento, passando de quarta para segunda força política. Em distritos como Saale-Orla, é expectável que ultrapasse o Die Linke (A Esquerda), que tem 28 por cento nas pesquisas em todo o estado.
Klaus Moller, cabeça de lista pelo Die Linke no mesmo distrito, admite que está assustado. “O líder da AfD na Turíngia não é nada menos que um fascista, a sua eleição seria o maior retrocesso civilizacional depois de Hitler.” De facto, Bjorn Hocke está conotado com a direita mais radical no partido – e sobre ele recaem constantes suspeitas de xenofobia e antissemitismo. Nesta ação de campanha numa vila esquecida da Alemanha, no entanto, isso parece não importar assim tanto. Estão lá dois rapazes de cabelo rapado a distribuir panfletos, é verdade, mas também está Lucas Harnut, que ao peito usa uma estrela de David.

“O meu avô era judeu de Konningsberg [a atual Kaliningrado russa], passou toda a II Guerra Mundial a fugir de gueto em gueto mas conseguiu nunca ser deportado para um campo de concentração.” O que diz este homem sobre a subida da extrema-direita na sua região? “É gente séria, é uma coisa boa. Para mim, os melhores políticos estão na AfD da Turingia e em Israel, no Likud do Benjamin Netanhyahu.” Não o incomoda a associação da AfD aos neonazis e ao antissemitismo? “Eles são contra qualquer forma de socialismo, como eu sou. Os nazis eram nacional-socialistas. Então eles também são contra os nazis, por mais que os meios de comunicação social digam o contrário.”

Peter Hagen, repórter no principal jornal desta região, o Osthuringer Zeitung, acredita que a AfD continuará a crescer até formar governo. “Só aí se inverterá a tendência, porque eles captam um eleitorado revoltado com críticas duras, mas nunca foram testados no poder, nunca tiveram de resolver problemas.” Além dessa parte da culpa, Hagen critica os partidos por continuarem a não saber falar com as pessoas. “O Leste da Alemanha tem problemas gravíssimos que são ignorados. As pessoas que vivem aqui não votam em extremistas por acreditarem no extremismo. Fazem-no porque precisam de restaurar a sua própria dignidade. Têm o orgulho ferido.”

O município de Topen, que alberga a parte ocidental de Modlareuth, cresceu exemplarmente depois da queda do muro. “Até aí nós éramos o fim da estrada, ninguém passava por cá a menos que fizesse deste o seu destino”, diz Klaus Grunzner, burgomestre da aldeia pela CSU (o parente bávaro da CDU de Angela Merkel). George Bush pai foi um dos poucos visitantes que ali chegaram – em 1983, quando era vice-presidente de Ronald Reagan, visitou Modlareuth. Mas esta era paisagem era dominada pela atividade agrícola e militar, as tropas norte-americanas vigiavam a fronteira e raras vezes os alemães se aproximavam.
Nos últimos 30 anos, tudo mudou. Os campos em redor de Topen estão hoje tomadas por grandes torres eólicas – o grupo americano General Electric instalou aqui três explorações de energia, ou quintas de vento. Mas a coqueluche industrial de Topen é a Dennree, a maior produtora de alimentação biológica da Europa. A aldeia acolhe a sede da empresa, que dá emprego a 1100 trabalhadores. Topen tem 900 habitantes.

Quando se passa para o outro lado da fronteira, a história é absolutamente a oposta. Nos anos em que pertenceu à RDA, Gefell, a comuna a que pertence a parte leste de Modlareuth, era um dos pontos fundamentais de produção têxtil para o bloco soviético. “As fábricas de tecidos davam empregos a centenas de pessoas, lembro-me de como Gefell fervilhava quando eu era criança”, diz Marcel Zapf, burgomestre do município na antiga RDA, que tem 36 anos e por isso tinha seis quando o muro ruiu. “Mas nos anos 1990 fechou tudo, as pessoas começaram a partir para o Oeste à procura de emprego e muitos nunca mais voltaram.”
A empresa mais conhecida de Gefell chama-se Microtech, é uma fábrica especializada em microfones de alta qualidade que foi nacionalizada durante os anos de socialismo e depois foi recuperada pelos filhos dos antigos gerentes. Graças à vizinha Topen, a taxa de desemprego é baixa – 4,5 por cento, com uma boa parte da população a deslocar-se diariamente para a Baviera. Segundo um estudo do Instituto de Ciências Económicas e Sociais alemão, publicado no inicio de outubro, os salários são 16,9 por cento mais altos na antiga RFA, mesmo no caso em que os trabalhadores têm o mesmo género, ocupação e experiência.

As diferenças são físicas, também. Se as viagens pelas estradas de Topen correm suaves, em Gefell somam-se solavancos. Se a primeira imagem com que alguém se depara à entrada da aldeia bávara é um parque industrial movimentado, na povoação da Turíngia é um conjunto de Plattenbauten abandonados. É esse o nome dado aos prédios de cimento, pré-fabricados e inspirados na arquitetura soviética, que serviram como residências para militares e empregados têxteis. Hoje estão vazios, mas marcados com autocolantes e grafitti agressivos, a lembrar que aquela é terra alemã e será defendida, se necessário, à custa de armas.

“Em 30 anos desenvolvemos muita coisa, claro que sim”, diz o autarca de Gefell, “mas temos tanto em que ficámos para trás.” Marcel Zapf foi eleito por uma coligação local de independentes, mas sabe que a extrema-direita está a crescer na sua terra – e que a semente do discurso radical está precisamente nas diferenças entre os dois lados de uma fronteira que já não existe, mas existe. Dá um exemplo: o orçamento autárquico. Gefell tem 2500 habitantes, conta com um orçamento annual de 3,5 milhões de euros. Topen recebe o mesmo valor para 900 habitantes. “E aquilo que nós precisamos urgentemente é de construir infraestruturas básicas, para que chegue a indústria, o turismo e o desenvolvimento.” Entre uma aldeia e outra contam-se seis quilómetros. Mas meia dúzia de quilómetros são suficientes para ver duas Alemanhas inteiras.

Numa coisa Zapf e Krugner, os burgomestres das duas comunas em que está inserida Modlareuth, concordam: há um novo medo a crescer na região. “A extrema-direita assusta, está a criar um novo muro invisível que não podemos tolerar”, diz o autarca de Topen. O de Gefell anui, “aquilo que sinto é que as pessoas estão a perder a vergonha de falar de coisas que eram socialmente inaceitáveis.” A intolerância cresce, explicam. Mas a intolerância para com os intolerantes também.
Quando se chega a Modlareuth, não é difícil perceber que há uma campanha eleitoral em curso. Cartazes das principais formações políticas enchem os postes da aldeola, mas há um facto que salta imediatamente à vista: todos os posters da AfD foram vandalizados. “Não pode haver diálogo com esta gente”, concordam os dois burgomestres, que vieram hoje à pequena aldeia que esteve dividida 40 anos dizer que estão unidos. “Somos ambos conservadores, mas mais facilmente trabalharemos com o Die Linke, que está no oposto das nossas convicções, do que com a extrema-direita”, diz Marcel.

Dick Manfred, um físico que vive em Gefell, não tem assim tanta certeza que a rejeição do diálogo seja a melhor solução para lidar com a AfD. “Oh sim, eu tenho cada vez mais vizinhos a falarem sem pudor de coisas que há 30 anos ninguém ousava dizer. O racismo, a xenofobia e o insulto ganharam um espaço que eu nunca tinha concebido. Mas acredito que a única maneira de travar este movimento é ouvir as preocupações das pessoas e responder-lhes com factos. Não perceber porque há tanta gente revoltada só serve para enfiar a cabeça na areia.”
Manfred tem 63 anos, trabalha no desenvolvimento de lasers ópticos para operar pessoas com miopia. “Para viver aqui, eu tenho de fazer o sacrifício de percorrer 160 quilómetros por dia até ao trabalho. Foi a única maneira de manter a minha ocupação. Mas a maioria das pessoas não pode fazer isso. Ou saíram definitivamente da Turíngia, ou aceitaram trabalhos inferiores, o que lhes causa grande mágoa.”

Quando vivia na RDA, era cientista de ponta e trabalhava num centro de investigação, que foi fechado poucos dias depois da queda do muro. “As pessoas aqui acham que não houve uma verdadeira reunificação, antes uma anexação de uma parte pela outra.” Sem emprego, teve de se mudar para a Alemanha Ocidental, durante cinco anos trabalhou em Munique, a 300 quilómetros. “Depois decidi voltar às origens, mas não sem sacrifício pessoal. Percorrer todos os dias uma distância enorme é a única forma de fazer o que gosto e aquilo em que sou bom.” 
Quase todos os cientistas com quem Manfred trabalhava estão hoje empregados em áreas que nada têm a ver com a sua formação: tornaram-se vendedores de seguros, funcionários municipais, até homens do lixo. “Há muita gente que ficou com a vida estragada depois da queda do muro. E parece que é quase proibido falar disso, que não se pode por em causa a benevolência da unificação das duas Alemanhas. Então as pessoas vão acumulando a sua frustração, sentem que ninguém as entende, afastam-se da política.”

Quando um dia aparece um partido a vociferar que as políticas falharam, que os políticos ignoraram as populações, que se oferecem mais vantagens aos forasteiros do que aos que sempre ali estiveram, os vizinhos de Dick Manfred sentem que encontraram finalmente alguém que os ouve e defende. “Mesmo que façam promessas irrealistas, mesmo que argumentem com críticas injustas, as pessoas sentem que agora têm uma voz.”

Um muro é um muro – e a historiadora Susan Burger, que trabalha no Museu Alemão-Alemão, não acredita que aquele que se levantou em Modlareuth seja igual à parede de intolerância que a extrema-direita ergue agora invisível. “Antes havia uma cortina de ferro entre dois modelos sociais opostos. Hoje, são sobretudo os derrotados da unificação, aqueles que perderam de alguma forma posição com a queda do muro, que defendem a AfD.”
Quando os visitantes chegam ao museu a primeira coisa a que assistem é a um filme de 18 minutos que conta a história da divisão de Modlareuth. A maioria sai do auditório com os olhos rasos de lágrimas, mas às vezes Susan ouve alguém dizer que o muro nunca devia ter caído e arrepia-se. “Fico francamente triste, porque sinto que as pessoas esquecem, ou preferem ignorar, o que significa viver com medo. Eu posso ter apenas 34 anos, mas tudo o que me lembro da minha infância era desse receio que se entranhava nas pessoas.”

Conta que o seu jardim de infância, numa aldeia contígua a Modlareuth, tinha uma vedação no recreio – e que um dia ela e outros miúdos decidiram escavar um buraco na terra para apanhar amoras do outro lado. “Quando os educadores perceberam o que tínhamos feito, ficaram histéricos e puseram-nos de castigo, a partir daí deixámos de poder brincar no pátio.” Hoje percebe que os adultos temiam represálias, mas aquela história fê-la entender muito pequena o que era a privação de liberdade.
“Nas visitas que fazemos no museu não demonizamos a RDA nem a RFA, simplesmente explicamos a violência que aquele muro provocava.” Modlareuth tem salas de exposições com vídeos e fotografias do tempo que ficou lá atrás. Mas o que realmente impressiona é o que foi deixado ao ar livre. Um tanque para controlar a população, duas torres de vigia para que ninguém ousasse aproximar-se da parede e depois aquele muro de cimento, com três metros de altura e pintado de branco, com um tupo de canalização no topo para dificultar a sua passagem.

“Ao início a vigilância não era assim tão apertada”, conta Susan. O ribeiro de Tannbach servia de separador, mas logo depois da fundação da República Democrática Alemã, em 1949, a fronteira passou a ser vigiada e em 1952 construíram-se cercas de madeira. O cimento chegou em 1966 e daí até à sua ruína, em 1989, as medidas de segurança foram reforçadas com campos de minas, vedações de ferro impossíveis de trepar, arame eletrificado num perímetro de 500 metros.
“O lado leste estava muito mais vigiado, até porque nos primeiros anos da separação centenas de milhares de pessoas tinham fugido para a RFA. Mas as consequências afetavam igualmente os dois lados.” Susan dá o exemplo de dois irmãos que viviam na aldeia, as casas não distavam mais de 100 metros uma da outra, mas no meio havia o mais espesso dos sinais da Guerra Fria. “Todos os dias, ao final da tarde, eles subiam ao telhado e acenavam com um lenço. Se fosse branco, estava tudo bem. Se fosse de outra cor, o irmão que morava no ocidente tinha de ligar ao meio dia do domingo seguinte para um posto telefónico a 50 quilómetros de Modlareuth, que era onde ele podia atender a chamada. E o outro irmão arranjava maneira de lá ir. Se não fosse de carro, ia de carroça ou de bicicleta.”

Uma carta de um lado a outro da aldeia nunca demorava menos de seis semanas a chegar. Até final dos anos 1970, era frequente encontrar os moradores dos dois lados perto do muro ao fim da jorna de trabalho, e gritavam para se cumprimentarem. Depois, até isso foi proibido – não se podia estabelecer qualquer comunicação. Os habitantes do lado leste viviam por isso em quase total isolamento. Até os alemães da RDA precisavam de documentação especial para poderem chegar tão perto da fronteira.
É desses dias em que uma aldeia se viu cercada de arame farpado que ninguém se esquece. O caso de Modlareuth é tão específico que inspirou uma série de televisão alemã com bastante sucesso, chamada Tannbach. Foi filmada na República Checa e as personagens são fictícias, mas os habitantes da aldeia têm orgulho que a sua história continue a ser recordada – e que o país se lembre que houve outro muro que não em Berlim.
A grande parede que separou duas Alemanhas ruiu há 30 anos. Trouxe a liberdade, aquilo a que um padeiro da aldeia chama “o maior espetáculo do mundo”. Os habitantes daqui ainda não têm a certeza se são todos alemães por igual. Mas, como diz uma mulher de 72 anos chamada Karin Mergner, que passou aqui toda a sua vida, “a exclusão nunca trouxe nada de bom à História.” Um muro é um muro – e é sempre um pesadelo. 


Por: Ricardo J. Rodrigues